Acelerador de Sustentabilidade

O que fazer para ter uma economia mais circular

O que fazer para ter uma economia mais circular
Carlos Monteiro

Guia: esqueça a lógica de deitar fora quando está estragado, ou de que sai mais caro reparar do que comprar novo. Num futuro cada vez mais próximo, os produtos vão durar mais tempo e vai haver menos lixo

Ana Baptista e Carlos Monteiro (ilustração)

A economia circular baseia-se no baixo consumo de recursos naturais — água, energia e matérias-primas —, na criação de produtos duradouros e na redução dos resíduos e do desperdício. Por isso é que se diz que, na economia circular, a reciclagem é a última coisa a fazer, porque é suposto os produtos durarem mais tempo e não irem logo para o lixo. Ainda assim, eles serão deitados fora e reciclados e, nesse momento, o objetivo é transformá-los em novos produtos, para evitar o uso de novos materiais. Até porque consomem-se por ano, a nível mundial, mais 74% de recursos do que aqueles que a natureza consegue regenerar, segundo dados do projeto E+C da Confederação Empresarial de Portugal (CIP).

Por onde começo?

Por baixar o consumo de recursos. Pode aderir a uma comunidade de autoconsumo de energia; partilhar com outras empresas os armazéns, o transporte (menos camiões a emitir CO2) ou as máquinas fabris e agrícolas. Já há empresas que as alugam e incluem manutenção e reparação. Depois, faça uma gestão dos resíduos de forma a baixar o uso de recursos. Por exemplo, trate as águas sujas para reutilizar; use o lixo orgânico para fazer biomassa (para produzir energia) ou para transformar em fertilizantes. Pode ainda fazer produtos novos: como um fio novo a partir dos restos dos tecidos ou chinelos a partir de restos de cortiça.

Mas quero reduzir o desperdício. O que fazer já?

Damos-lhe alguns exemplos: o Time Out Market, a comida que sobra é distribuída pelos 600 funcionários e as garrafas de vidro de Coca-Cola são recolhidas e devolvidas à marca que as lava e volta a encher. O Auchan deixou de vender artigos descartáveis de plástico de utilização única; a Sumol+Compal usa os plásticos velhos para fazer mobiliário de jardim; e o projeto Dose Certa da Lipor incentiva os restaurantes a fazer doses que reduzam o desperdício na confeção e no prato. Porque um milhão de toneladas de alimentos vai para o lixo todos os anos em Portugal.

E o que fazer a longo prazo?

Produtos que durem mais tempo e que sejam reparados, desmontados e recuperados facilmente. Podem ser produtos novos, como cartões de negócio digitais, têxteis feitos a partir de plástico usado ou tampas de garrafa feitas de cana do açúcar. Ou pode ser uma melhoria de um produto existente. Como máquinas de lavar com acesso facilitado aos painéis digitais para reparação; panelas com serviço de reparação gratuito; peças de cerâmica com menos áreas vidradas ou carros com fibra de carbono em vez de chapa. Os materiais usados nestes produtos também têm de ser mais duradouros, mas amigos do ambiente e facilmente recicláveis. Numa economia circular quando se pensa num produto novo tem de se pensar logo quando e como pode ser reciclado ou reaproveitado. Por exemplo, o plástico dura muitos anos, mas é prejudicial e reciclá-lo consome muita energia, o que vai contra o conceito de circularidade.

Então devo usar menos plástico?

Sim. Se for criar um produto novo procure novos materiais, como a resina da cana do açúcar. Mas se ainda não tiver encontrado uma alternativa, então use plástico reciclado, e evite o plástico preto ou juntar vários tipos de plástico no mesmo produto. Não são separáveis na reciclagem o que dificulta o aproveitamento. Se usa plásticos no seu negócio, substitua por caixas de cartão (de preferência, reciclado), sacos de pano, palhinhas de papel ou escovas de dentes de madeira. E se tiver mesmo de usar plástico, já sabe, tem de ser reciclado e nunca o junte com outros materiais. Ou só papel ou só plástico. Não junte os dois.

Que vantagens tenho em fazer isto tudo?

Apostar num produto diferenciado que se vende mais caro vai atrair mais ou novos clientes e aumentar as margens. Além disso, “dentro de muito pouco tempo haverá muitos clientes empresariais e particulares que vão exigir produtos circulares”, diz Hermano Rodrigues, da EY. Acresce que a transição para uma economia circular é uma oportunidade para criar novos negócios, como o da reparação, “que está a regressar”, nota.

Então e há apoios públicos e privados?

Há €35,4 mil milhões até 2030, mas as candidaturas até ao início de 2023 são só de €4 mil milhões. Destes, €635 milhões são do Portugal 2030, €3 mil milhões são do Innovation Fund e €260 milhões são do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que tem ainda €151 milhões em concursos sem data para abrir. Fique atento ao Fundo Ambiental e às EEA Grants Portugal da União Europeia. Quanto aos privados, os bancos têm linhas de crédito com condições específicas para estes projetos, mesmo com os juros mais altos.

Como me candidato?

Para o PRR, use os sites do IAPMEI, Fundo Ambiental e Balcão 2020; e para o Innovation Fund, use o Funding and Tender Portal da Comissão Europeia. O PT 2030, que arranca em janeiro de 2023, deverá ser como no PRR.

O acelerador das empresas

Seis meses, seis sessões de formação, seiseventos em seis cidades, seis temas — descarbonização,energias renováveis, turismo, agricultura e imobiliário maissustentáveis e economia circular —, seis guias: depois da descarbonização, renováveis, turismo e agricultura é agora a vez da economia circular. Segue-se o do imobiliário que será publicado a 9 de dezembro. Esta é a base do Acelerador de Sustentabilidade, um projeto para as pequenas e médias empresas (PME) organizado pelo Expresso e o BPI. Estratégias, conselhos e passos para descarbonizar e ter um negócio sustentável.

Textos originalmente publicados no Expresso de 18 de novembro de 2022

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

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