Guerra na Ucrânia

Bandeira desaparecida em Kherson adensa as dúvidas: derrota "monumental" de Moscovo ou armadilha preparada para dizimar tropas ucranianas?

3 novembro 2022 19:40

Knyazivka, Kherson

carl court

A Rússia poderá ter perdido o controlo sobre Kherson. Serão a retirada anunciada das tropas da cidade e o desaparecimento da bandeira tricolor russa do edifício administrativo regional manobras para apanhar os ucranianos numa emboscada? O efeito surpresa não é de desprezar numa guerra e os próximos dias deverão definir o equilíbrio de forças na região, analisa William Alberque, diretor de Estratégia, Tecnologia e Controlo de Armas do britânico Instituto Internacional de Estudos Estratégicos

3 novembro 2022 19:40

A bandeira russa hasteada, nos primeiros dias da invasão da Ucrânia, no principal edifício administrativo regional de Kherson desapareceu. O mistério adensa as suspeitas do lado ucraniano: estarão os ocupantes a bater em retirada ou estará o inimigo à espera de um passo em falso das tropas ucranianas? A captura de Kherson pela Rússia no início da guerra foi possível devido à “traição de funcionários ucranianos corruptos”, lembra William Alberque, diretor de Estratégia, Tecnologia e Controlo de Armas do britânico Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. “Essa perda feriu muito o Presidente Zelensky, feriu toda a Ucrânia, e causou o sofrimento de dezenas de milhares de cidadãos ucranianos."

Kirill Stremousov, chefe-adjunto da administração russa da região de Kherson, admitiu, porém, nesta quinta-feira, que as tropas russas deverão abandonar as posições que mantinham na margem oeste do rio Dniepre. Se a informação se confirmar, a retirada em larga escala das forças ocupantes da cidade de Kherson poderá marcar a viragem na guerra. No lado ucraniano, a dúvida está instalada. Natalia Humenyuk, porta-voz do Exército ucraniano, acredita que a remoção da bandeira russa do edifício da administração regional de Kherson pode ser uma “armadilha” russa para atrair as tropas ucranianas para um "avanço imprudente”.

Mas o mistério da bandeira removida não é o único sinal dado por Moscovo. Nos últimos dias, os soldados e as autoridades diminuíram na cidade. Pelo menos quatro grandes postos de controlo russos desapareceram. A administração instalada pelos ocupantes russos estará mesmo, de acordo com o jornal “The New York Times”, a fixar uma nova sede já do outro lado do rio, mais precisamente 80 km a sudeste, e o acervo dos prédios do Executivo local tem sido desfalcado em bens como móveis e material de escritório.

Também nos últimos dias, os militares russos têm vindo a fortalecer as posições defensivas fora da cidade que é a capital da região de Kherson, na margem oeste do rio Dniepre. Os serviços secretos ucranianos revelaram que a Rússia enviou 40 mil soldados para a margem ocidental do rio (onde se situa a cidade de Kherson). No entanto, não há imagens que comprovem a saída maciça das Forças Armadas russas daquela área que dominavam. Já os ucranianos têm avançado a norte e oeste, apesar da resistência russa.

O que pode acontecer a seguir?

Os analistas militares têm vindo a antecipar uma batalha em larga escala por Kherson, um reduto da Rússia no sul da Ucrânia com uma importância militar estratégica, pela proximidade ao rio e por possibilitar o acesso por terra à Crimeia através do território russo. A elevada industrialização da cidade é também um chamariz para Moscovo.

A Ucrânia conseguiu recuperar cem cidades e vilarejos nos últimos dois meses, o que se traduz numa área comparável à da Bélgica (cerca de 30.700 km²). A perda da cidade de Kherson seria uma perda tremenda para o Kremlin, não só do ponto de vista estratégico como simbólico. Também demonstraria, mais uma vez, a ineficácia russa em “segurar” as regiões anexadas a 30 de setembro (Kherson, Zaporíjia, Donetsk e Luhansk). Mas Moscovo pode estar a tentar iludir a Ucrânia com o alegado recuo para atrair as forças ucranianas para uma armadilha. O analista William Alberque garante que a hipótese não pode ser descartada. “Há sempre um elemento de surpresa numa guerra. A Ucrânia disfarçou a sua contraofensiva no norte fingindo um ataque contra o sul. A Rússia pode estar a tentar usar essa tática em espelho para atrair as forças ucranianas e colocá-las numa espécie de ‘caldeirão’, para as destruir. De facto, pode ser uma armadilha."

A outra possibilidade é a iminência de “mais uma derrota monumental para as forças russas”, reconhece o investigador. “Tomar Kherson de volta e manter Kharkiv e Kiev significaria que a Ucrânia realizaria o que ninguém poderia ter imaginado nas primeiras semanas da guerra: a corajosa Ucrânia derrotou os planos dos inimigos e continuou, quase nove meses após a guerra, a acrescentar derrota após derrota ao rol de humilhações da Rússia.”

Uma bandeira ucraniana hasteada no edifício administrativo de Kherson?

William Alberque acredita que o fim da luta pela cidade ainda está longínquo. Os moradores locais receiam que as bombas comecem em breve a cair na cidade, e muitos estão a guardar reservas de comida e água, enquanto preparam os abrigos. “Penso que veremos avanços muito cuidadosos por parte da Ucrânia, apoiados pelos EUA, NATO, União Europeia e satélites suecos, aeronaves e apoio dos serviços de informação, para garantir que a Rússia está realmente a recuar para o outro lado do rio Dniepre.”

Faria sentido as tropas russas recuarem neste momento, colocando-se numa posição mais defensiva, para evitar uma derrota dolorosa, analisa o antigo alto funcionário da NATO em questões de desarmamento e segurança. Por estar prestes a ter de reconhecer a perda de Kherson, Moscovo deverá ainda desviar-se da derrota operacional, “aumentando os ataques a civis ou provocando novas ondas de horror que não podemos antecipar”, alerta William Alberque.