Guerra na Ucrânia

Fugas no Nord Stream: “Se fosse dentro das águas territoriais era um ato de guerra”

29 setembro 2022 17:00

annegret hilse

Para o major-general Isidro Pereira, a localização das ruturas nos gasodutos do Báltico foi pensada com o “cuidado de não envolver diretamente nem a Dinamarca nem a Suécia”. Mais do que afetar o abastecimento de gás por esta via, que já estava suspenso, o incidente poderá ter repercussões na política energética e decisões militares de países como a Alemanha

29 setembro 2022 17:00

As autoridades suecas anunciaram esta quinta-feira a descoberta de uma nova fuga nos gasodutos Nord Stream. Desde domingo, esta é a quarta fuga de gás identificada no projeto russo no Mar Báltico. Nos últimos dias, estas deram origem a explosões que foram detetadas pela Rede Sísmica Nacional sueca e a vastas zonas borbulhantes filmadas na superfície pelas forças armadas da Dinamarca.

Segundo as autoridades destes países, as fugas afetam as duas linhas do projeto, conhecidas como Nord Stream 1 e 2, e ocorreram perto da ilha dinamarquesa de Bornholm. Embora dentro das suas Zonas Económicas Exclusivas, as quatro ruturas estão localizadas perto mas já fora do território marítimo nacional (que se prolonga até 12 milhas da costa).

“Se fosse dentro das águas territoriais era um ato de guerra. Quer a Dinamarca, quer a Suécia, poderiam dizer que foram atacados”, explica o major-general Isidro Pereira. “Quem o fez, fez com o cuidado de não envolver diretamente nem a Dinamarca nem a Suécia. Foi fazê-lo na ZEE, que é uma zona de aproveitamento económico exclusivo do país sem ser território seu.

O incidente fez contudo soar alarmes em toda a Europa, com a UE e NATO a prometer “uma forte resposta” caso se comprove que as fugas foram resultado de “sabotagem”. O Kremlin já rejeitou as acusações “previsíveis e estúpidas” e a propaganda russa foi rápida a direcionar, sem fundamentar, as suspeitas para os serviços secretos dos EUA.

Os dois lados pedem que o caso seja investigado, mas as autoridades dinamarquesas já disseram que demorará “uma ou duas semanas” até ser possível inspecionar os locais.

"Isto pode provocar que a Alemanha passe a ter uma posição mais assertiva no apoio do conflito militar na Ucrânia”

“Na antecâmara do inverno”, a Europa é quem sai mais diretamente prejudicada. Isto porque, recorda o major-general, “temos ainda uma percentagem relativamente volumosa da população da UE que tem algumas dependências [do gás russo] e para quem poderá haver algumas restrições quanto ao aquecimento das suas casas.”

Entre estes destacam-se a Alemanha e a Itália, mas também países do leste como Hungria, Eslováquia e Chéquia. A exceção é a Polónia, que já conseguiu superar essa dependência e tem agora abastecimento direto da Noruega. Mesmo assim, o antigo representante de Portugal na NATO acredita que as reservas reunidas pelos países nos últimos meses, desde que as perturbações no abastecimento russo começaram, deverão ser suficientes para suprir grande parte das necessidades dos próximos meses.

Este incidente já está, contudo, a ter repercussões. Na terça-feira, logo após serem conhecidas a segunda e terceira fugas, o preço do gás disparou 8%, acrescentando mais perturbações a um mercado já fortemente afetado pela guerra.

São também previsíveis movimentações no campo político, nomeadamente na gestão do setor energético. “A Alemanha pode deixar de vez de contar com o gás russo e procurar outras soluções”, afirma Isidro Pereira. Isto quando, segundo as autoridades alemãs, o Nord Stream poderá ficar permanentemente inutilizado devido à corrosão que a entrada de água salgada irá provocar se a estrutura não for reparada rapidamente.

Neste campo de mudanças, o major-general na reserva destaca também a “boa vontade repentina de Macron” em rever o projeto para um gasoduto ibérico, que diz não ser coincidência.

Por outro lado, este incidente poderá fazer desaparecer na Alemanha “algumas dúvidas sobre fornecer determinado tipo de materiais” à Ucrânia, nomeadamente carros de combate Leopard 2 (considerados dos melhores do mundo), que “teriam um efeito decisivo” na guerra.

Até agora, a Alemanha tem “entregue muitas armas, mas de forma pausada e pensada”. Sempre que o fez foi alvo de retaliação com disrupções no fornecimento através do Nord Stream, mas este já tinha sido encerrado no princípio deste mês. Na semana passada, a CDU/CSU (principal partido da oposição) propôs no parlamento que a Alemanha passe a “fornecer à Ucrânia tudo aquilo de que necessita, mesmo à custa das reservas de guerra da forças armadas alemãs". A proposta colheu apoio dos dois partidos da coligação do governo de Scholz, Os Verdes e FDP.

“Não se pode dizer que tenha sido liminarmente rejeitada. A solução foi criar um comité para explorar o problema”, lembra Isidro Pereira. Isto "pode provocar que a Alemanha passe a ter uma posição mais assertiva ao apoio do conflito militar na Ucrânia.”

Para já, e no imediato, a Noruega, agora o principal fornecedor de gás à Europa, já anunciou que vai reforçar a segurança das suas infraestruturas de energia no Mar Báltico. “Isto significa que têm de ser movimentados meios militares para estas zonas”, explica o militar português. A “observação, que pode ser feita por meios eletrónicos - satélites, drones - e pela presença física de patrulhas móveis que se deslocam ao longo do gasoduto”, requer a “presença de navios com sondas e submarinos” que possam “efetuar a segurança próxima” nas águas profundas.