Guerra na Ucrânia

Pôr o “patriotismo de arma na mão” no currículo escolar: o que vão aprender os alunos russos (e ucranianos) no regresso às aulas

2 setembro 2022 18:45

Regresso às aulas na Rússia é assinalado com uma lição designada "Conversas sobre o que é importante"

gavriil grigorov

No novo ano letivo, as crianças russas aprenderão que a guerra na Ucrânia é um exemplo de verdadeiro “amor pelo país” e pelo povo russo, e que um “verdadeiro patriota” deve estar sempre “pronto para morrer” pela pátria. É um código moral nacional transformado em programa letivo sob a designação “Conversas sobre o que é importante”. As diretrizes para os docentes já foram publicadas online. Também nas áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia os manuais escolares começam a contar uma História alinhada com a ideologia do Kremlin

2 setembro 2022 18:45

“Proteger a sociedade russa da influência noticiosa e psicologicamente destrutiva.” Foi com esta missão que o governo russo programou um ano letivo diferente para os estudantes da Federação Russa, tendo o Ministério da Educação do país investido centenas de milhares de euros para desenvolver o currículo de uma nova aula semanal. Ao abrigo do seu nome - “Conversas sobre o que é importante” -, poderiam caber vários assuntos, mas a agenda é pouco abrangente: os alunos do primeiro ao quarto ano aprenderão sobre “patriotismo” e “amor à Rússia”. Já os alunos do quinto ano e acima receberão lições recheadas de narrativas pró-Kremlin sobre a guerra, detalha o site de notícias russo “Meduza”.

O site do Ministério da Educação russo já apresenta material para auxiliar as aulas até ao final de novembro, um currículo que terá custado ao governo 22 milhões de rublos (cerca de 361 mil euros).

Conteúdo programático

As aulas destinadas aos alunos do primeiro e segundo anos servirão para fazer um elogio ao caráter russo, a que o programa se refere como "uma manifestação de amor pela pátria". Os alunos observarão paisagens russas, ouvirão gravações de sons da natureza e canções patrióticas. O plano das aulas sugere ainda que os estudantes ouçam a canção soviética "Onde começa a pátria?"

O terceiro e quarto anos terão períodos letivos dedicados a “promover a ideia de amor efetivo pela pátria”. Uma das atividades previstas é a de explicar o significado das expressões: “Amar a Pátria é servir à Pátria com serviço militar” e “trabalho [...] para o bem de algo ou alguém”. Após o professor citar provérbios sobre a “nação”, deve perguntar aos estudantes: “Qual destes provérbios reflete a ideia de que o amor à pátria não é apenas a capacidade de admirar a sua beleza, mas também a vontade de defender a sua pátria, trabalhando para a tornar ainda mais bonita e mais rica?”. Os autores do manual esperam algumas destas respostas, que apontam como ideais: “Pela sua pátria, não poupe forças nem vida"; “a felicidade da pátria é mais preciosa do que a vida”; “não é assustador morrer pela Pátria".

Nas aulas do quinto ano, os professores começarão a falar mais diretamente sobre a "operação militar especial", expressão que é o eufemismo utilizado pelo governo russo para a guerra que iniciou contra a Ucrânia. As atividades propostas incluem uma tarefa destinada a ajudar os alunos a resolver "situações problemáticas" tendo por base o modelo da “operação militar especial”. Além de aprenderem a enunciar as "razões" da "operação", os pré-adolescentes estudarão o exemplo dos militares russos, que deverão ser descritos como "heróis" e “patriotas”.

Num excerto do guião das aulas, pode ler-se: “Os objetivos da operação militar especial incluem proteger o povo do Donbas, que sofreu abusos e opressão nas mãos do regime de Kiev; desarmar a Ucrânia; e impedir a NATO de colocar bases militares em território [ucraniano]. [...] A imensa quantidade de ajuda militar - e de outra natureza - que o Ocidente deu às autoridades ucranianas está a prolongar as hostilidades e a aumentar o número de mortos na operação."

O ultranacionalismo

Ficam reservadas para os alunos do oitavo e do nono anos lições sobre as intituladas Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk, nomeadamente a teoria de que são territórios russos que devem regressar ao domínio da Federação Russa. Cabe também no programa a compreensão da “operação militar especial”, com o destaque para os “soldados russos”, que “são heróis”.

Os alunos do décimo e décimo primeiro ano terão de comparar vários símbolos e fotografias da História russa. Entre o conteúdo imagético, estão uma fotografia de uma ‘caravana’ de tanques russos e uma fotografia em que uma mulher chora ao lado de um stand com fotografias de crianças que morreram durante o ataque terrorista em Beslan [cerco a uma escola russa, em 2004, em que 334 pessoas morreram, nomeadamente 156 crianças, durante o conflito com a Chechénia].

Os mais velhos serão ensinados sobre o “patriotismo” de “pegar numa arma” e lutar, como é possível ler no guião do Ministério da Educação. "Não podem ser patriotas se tudo o que fazem é repetir ‘slogans’. As pessoas verdadeiramente patriotas estão dispostas a defender a sua pátria com armas na mão, mas essa não é a única maneira de expressar o seu patriotismo. O patriotismo é demonstrado em pequenos atos [...], portanto, cada um de nós que está disposto a agir em benefício do seu país, da sua pátria, é um patriota.”

As aulas na Ucrânia recomeçaram nesta quinta-feira

As aulas na Ucrânia recomeçaram nesta quinta-feira

vladyslav musienko

Reescrever a História também nas regiões ocupadas da Ucrânia

É já nesta quinta-feira (1 de setembro) que se assinala o arranque do novo ano letivo na Ucrânia. A BBC revela que, nas áreas ocupadas pelas tropas russas, será ensinada às crianças ucranianas uma História muito diferente daquela que constava no programa dos anos anteriores. Os professores estão a ser pressionados para adotar o currículo russo. A BBC conta que há casos de docentes que foram forçados a cooperar com as autoridades russas, e de outros que, não tendo cedido, foram enviados para a Crimeia ou para locais da Rússia, com o objetivo de serem “retreinados” para transmitir a ideologia do Kremlin.

Nas redes sociais, têm surgido, em catadupa, mensagens de utilizadores pró-Rússia que se vangloriam da tentativa de apagar a História ucraniana em áreas ocupadas. As forças russas têm removido os manuais de História ucranianos das bibliotecas. O Governo russo começou já a fornecer livros didáticos russos em várias áreas ocupadas na Ucrânia.

Nos principais livros escolares aprovados pela Rússia, são patentes as diferenças em relação ao período pré-guerra. A maioria das referências à Ucrânia e Kiev foi removida, e até "Kyivan Rus" - nome de um Estado medieval da Europa Oriental com capital em Kiev - foi substituído pelo nome "Rus" ou apenas "Old Rus".

Além de terem sido exponenciadas as referências a Vladimir Putin e aos seus “feitos”, foram ainda incluídas versões falsas da História. Exemplo disso é a alegação de que, durante a anexação da Crimeia, em 2014, as pessoas saíram para "proteger os seus direitos" depois de "nacionalistas radicais terem chegado ao poder [em Kiev], com o apoio do Ocidente".

A 19 de agosto, surgiu, na rede social Telegram, uma denúncia: os pais de crianças que estudavam numa escola nos arredores de Melitopol teriam recebido uma mensagem enviada por um professor, dizendo que “não haveria ensino remoto no território libertado” - é assim que o Kremlin se refere às regiões ocupadas. Os encarregados de educação que se recusassem a conduzir os filhos para o ensino presencial seriam “desprovidos dos seus direitos de pais”. Por outro lado, os pais que levassem os filhos às aulas seriam recompensados. A 24 de agosto, o Presidente russo confirmou o rumor, ao anunciar o pagamento único de dez mil rublos (cerca de 167 euros) aos pais, desde que os seus filhos frequentassem a escola até 15 de setembro.