Guerra na Ucrânia

Eliot Higgins, "verificador de factos" do Bellingcat: agora, "a Ucrânia pode apenas sentar-se à distância a atingir rotas de abastecimento"

31 agosto 2022 21:59

Elliot Higgins

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Quando conversou com o Expresso, nos primeiros dias de março, Eliot Higgins, fundador da plataforma de investigação Bellingcat, defendeu que o desempenho da Rússia na guerra estava a ser "desastroso". Em agosto, admite ter mudado de ideias: as tropas de Moscovo têm sido "muito desastrosas". Nesta nova entrevista, o diretor criativo do site de investigação denuncia que foi criada uma teoria da conspiração segundo a qual o grupo Bellingcat era responsável pela morte de Darya Dugina. Banido da Rússia, a plataforma continua, no entanto, a expor as mentiras e as tentativas de repressão do regime

31 agosto 2022 21:59

A 16 de março, o procurador-geral da Rússia adicionou o site Bellingcat a uma lista de plataformas proibidas e bloqueadas no território. "Esta é a mais recente das tentativas permanentes de Moscovo de impedir que as nossas investigações cheguem ao público", reagiu o órgão de comunicação que se define pela "reinvenção na forma de reportar os factos na era da internet".

Mas a jornada do Bellingcat para expor as mentiras do Kremlin tinha começado muito antes: Eliot Higgins, fundador e diretor criativo do site de investigação, já se dedicava, há vários anos. a investigações sobre o Kremlin, que expuseram inclusivamente o envenenamento de Alexei Navalny. Fixado como um alvo, o Bellingcat tem sido até acusado, por figuras da propaganda russa, de estar envolvido no homicídio de Darya Dugina. Eliot Higgins desvela as narrativas falsas da Rússia, e analisa que Moscovo está em grande desvantagem nesta guerra que não deverá ter fim à vista até ao final de 2023.

As secretas russas anunciaram que encontraram um "traidor" responsável pelo assassinato de Darya Dugina - uma ucraniana, de nome Natalya Vovk, que, alegadamente, terá viajado para a Rússia com a filha de 12 anos, que seguiu Dugina e depois partiu para a Estónia. O antigo deputado da Duma Ilya Ponomarev anunciou que um grupo russo de oposição foi responsável pela explosão do carro. Qual é a teoria mais plausível?
Realmente não acredito que as alegações do FSB sejam muito plausíveis, porque reuniu essas provas em dois dias, o que me parece muito improvável. Embora tenham muitas informações sobre essa pessoa, não apresentaram nenhuma prova real que ligue essa pessoa à cena do crime. Tudo o que conseguiram provar é que a ucraniana pode ter estado nos mesmos locais, que isso é credível.

Quanto às outras alegações em relação ao suposto grupo clandestino, a verdade é que poderia literalmente ser qualquer um a fazer essas alegações. Nunca ouvimos falar desse grupo antes. Há outras teorias também a circular na Rússia: tentaram alegar que o "Bellingcat" estava por trás do assassinato porque foi investigado, o que implicava que estaríamos ligados a isso. Há um nível bastante elevado de paranóia. Num país onde a desinformação está muito enraizada, ouvimos 20 versões diferentes dos eventos e todo o tipo de teorias, mesmo que sejam contraditórias ou bizarras.

"O facto de o FSB ter organizado as explicações [sobre o assassinato de Darya Dugina] tão rapidamente deixa-me mais desconfiado do envolvimento do FSB do que de qualquer outra pessoa."

Há a possibilidade de que o documento de identidade que os agentes russos apresentaram e que mostrava as suas origens ucranianas tenha sido falsificado, e estamos a investigar isso neste momento. O facto de o FSB ter organizado as explicações tão rapidamente deixa-me mais desconfiado do envolvimento do FSB do que de qualquer outra pessoa.

Não tomou conhecimento de quaisquer sinais de que o Exército Nacional Republicano Republicano realmente exista?
Não. Simplesmente surgiu do nada. Pode ser literalmente alguém com uma conta de e-mail.

Velório de Darya Dugina, que morreu no passado sábado num ataque nos arredores de Moscovo

Velório de Darya Dugina, que morreu no passado sábado num ataque nos arredores de Moscovo

anadolu agency

Prevê que mais teorias da conspiração surjam em consequência desses ataques?
Suspeito que isso acontecerá assim que o FSB divulgar mais informações, possivelmente com base nos dados atuais. Provavelmente haverá uma espécie de reações online pró-Rússia e pró-Putin a tentar contradizer os 'fact-checkers', alegando: "Não, olhem para isto." Esses jornalistas estão a tentar encontrar furos na história, e ver-se-ão confrontados com um "vai e vem" de teorias que acaba por minar as verificações de factos. E o mesmo fenómeno provavelmente acabará por ser repetido por vários funcionários do governo.

"Acho curioso estar a ser culpabilizado pelo seu assassinato, porque nunca ouvi falar dela antes de ela ser morta."

Até ao momento, não há qualquer evidência real de que essa pessoa que identificaram está realmente envolvida no assassinato; apenas que estava na Rússia e que era da Ucrânia.

Pode considerar-se que Darya Dugina era uma pessoa de interesse?
Para ser honesto, eu nem sabia que ela existia antes da explosão. Acho curioso estar a ser culpabilizado pelo seu assassinato, porque nunca ouvi falar dela antes de ela ser morta.

Numa conversa anterior com o Expresso, defendeu que o desempenho da Rússia na guerra estava a ser desastroso. Mudou de ideias entretanto?
Diria que sim, porque agora eles são realmente desastrosos. Se antes eram desastrosos, agora estão ainda pior. A maior alteração significativa foi produzida pelos sistemas de lançamento de mísseis HIMARS, que foram fornecidos à Ucrânia, porque isso permitiu que se fizessem ataques contra depósitos de armas, aeródromos, lugares que realmente dificultam a vida aos russos, por a sua logística ser cortada, especialmente na região da Crimeia, onde tem havido uma destruição muito sistemática de pontes, depósitos de munição e outras estruturas de que os russos precisam para apoiar o seu exército. E isso realmente causará problemas para os militares russos dentro de alguns meses também, na entrada do inverno, quando será muito difícil obter ganhos territoriais.

Até ao início do próximo ano, não veremos muitos avanços no terreno. No período da primavera, haverá outro problema, já que o solo, como vimos no início do conflito, torna-se muito ceroso e pantanoso, e veículos pesados, como tanques e até camiões militares, terão de seguir pelas estradas. Durante seis meses, será muito difícil combater esta guerra.

"O mais recente assassinato é um sinal de como tudo já está a causar instabilidade entre as classes dominantes da Rússia."

Ao mesmo tempo, a Ucrânia receberá cada vez mais equipamentos que lhe permitirão realizar ataques de longo alcance à logística russa. Suspeito que poderemos ver, no início da primavera ou no verão do próximo ano, uma tentativa da Ucrânia de aumentar a sua vantagem, se for capaz de realmente destruir essa logística. Estamos a falar de seis a oito meses em que a situação na Rússia será muito diferente. Haverá mais seis meses de sanções, mais seis meses de mortes de soldados. O mais recente assassinato é um sinal de como tudo já está a causar instabilidade entre as classes dominantes da Rússia. Putin mina toda a imagem da Rússia, tanto internamente, quanto no mundo. Na Rússia, todos estão cercados de propaganda sobre a guerra, mas a propaganda não consegue apagar a realidade da vida das pessoas.

Sistema de lançamento múltiplo HIMARS

Sistema de lançamento múltiplo HIMARS

the washington post

Os prazos que apresenta dão indicação de que não há horizonte à vista para o final desta guerra…
Não vai acabar até ao final deste ano, e, possivelmente, também não vai acabar no ano seguinte. Há uma espécie de crescente nacionalismo a ser alimentada por Putin neste conflito, e ele tem de dar resposta a isso. Ele não pode dar-se ao luxo de perder esta guerra, porque isso realmente minaria a sua autoridade sobre o núcleo que o apoia e ao nacionalismo que está a ressurgir deste conflito. A melhor hipótese que Putin tem é tentar obter alguns dos territórios que estão sob controlo russo. Mas isso significaria que os ucranianos teriam de concordar com isso, como parte de um processo de paz.

"A Ucrânia é capaz de combater este tipo de guerra de longa distância de uma forma que a Rússia não é."

E, de momento, os ucranianos não têm motivos para aceitarem isso. O lento desgaste deste conflito está a matar cada vez mais soldados russos, e os ucranianos têm cada vez mais equipamentos. A Ucrânia ainda conta com um grande apoio militar por parte dos EUA, em particular. O apoio das nações ocidentais e o equipamento que a Ucrânia está a receber são realmente ideais para permitir continuar a lutar. O tipo de guerra que tem desenvolvido tem uma abordagem de longo alcance, e as forças militares russas têm disparado mísseis cegamente contra as cidades, na esperança de as esvaziarem e poderem simplesmente entrar. Só que a Ucrânia tem recebido radares de contra-bateria, o que é muito importante.

Também têm recebido mais mísseis anti-radar, para poderem destruir qualquer sistema de defesa usado pela Rússia. Por isso, a Ucrânia é capaz de combater este tipo de guerra de longa distância de uma forma que a Rússia não é. E, quanto mais os ucranianos atingem as rotas de abastecimento e destroem pontes, mais difícil se torna o reabastecimento das forças russas. A Rússia é cada vez menos capaz de combater a guerra que está habituada a lutar e o problema é que o Exército russo também não quer travar um tipo diferente de guerra. Eles não têm tropas, equipamentos, estratégia, nada de boa qualidade.

Alguns especialistas dizem que seria até melhor para a Rússia reivindicar a vitória em breve. Mas quais foram os avanços reais que o Exército russo fez no Donbas nas últimas semanas?
Não houve nenhum avanço desde junho, desde que os HIMARS começaram a chegar. O facto de agora vermos ataques na Crimeia contra áreas de influência pró-Rússia também é muito significativo, porque a guerra para aquelas pessoas que vivem na Crimeia, e para os turistas russos, era algo que estava muito distante. Agora conseguem ver, das praias, as linhas da costa que têm de ser mantidas. A base aérea russa foi destruída.

A Rússia não se está a desmoronar como vimos anteriormente em conflitos em torno do líder, mas está presa na lama. E estão presos na lama com projéteis de artilharia a serem lançados sobre eles todos os dias. Não é uma posição para se vencer uma guerra.

"Mesmo com uma mobilização em massa, estariam a enviar tropas mal equipadas e destreinadas para morrer na Ucrânia. Não podem simplesmente atirar um número infinito de tropas para um triturador de carne e esperar vencer."

Também não vejo nenhuma forma de a Rússia aumentar a sua condição militar ou financeira, mesmo que começasse a fazer a mobilização militar total, que seria muito impopular na Rússia. Mesmo com uma mobilização em massa, estariam a enviar tropas mal equipadas e destreinadas para morrer na Ucrânia. Não podem simplesmente atirar um número infinito de tropas para um triturador de carne e esperar vencer, porque a Ucrânia pode apenas sentar-se à distância a atingir as suas rotas de abastecimento e centros de comando.

Quais têm sido as mentiras mais ultrajantes contadas pela Rússia e que o Bellingcat detetou?
O Bellingcat tem tido as táticas dos espiões russos nos últimos tempos. As maiores mentiras dizem respeito às mortes de prisioneiros de guerra, que foram atribuídas ao Batalhão Azov, numa tentativa dos russos de encobrir os seus próprios abusos sobre os soldados. O edifício onde se encontravam e morreram não foi atingido por qualquer tipo de míssil. É mais provável que essas pessoas tenham sido mortas no local, e depois os autores tenham incendiado o prédio e talvez deixado explosivos. Não é convincente. Há uma série de disparates a ser dita pela Rússia.

O ministro da Defesa Shoji disse que fizeram uma pausa nas operações por motivos humanitários. No mesmo dia, atacaram uma estação de comboios e mataram muitos civis. É o tipo de mentira que habitualmente a Rússia diz.

O Bellingcat foi banido da Rússia. Como chegam ao público russo?
De certa forma, o que fazemos com o Bellingcat é escrever para sermos citados. Por isso, muitas pessoas leram acerca do nosso trabalho depois de o lerem através de terceiros. Quando escrevemos algo relacionado com a guerra, todos os meios de comunicação ucranianos escrevem sobre o trabalho, em idioma russo. Essa é uma forma de contornar a proibição. Para pessoas que visitam o site, mostramos como usar VPN. Também temos parcerias com organizações como "The Insider".

No entanto, não se trata de quantas pessoas estão a ler o site do Bellingcat, mas de quantas pessoas estão a conhecer as histórias, onde quer que apareçam.

Que perceção têm acerca da taxa de aprovação desta guerra na Rússia? Em que ponto está o público russo neste momento?
É muito difícil de dizer, porque as sondagens são difíceis de fazer. Muitas são feitas por telefone, mas, se for russo, atender o telefone e alguém lhe perguntar se apoia a guerra na Ucrânia - ou a operação militar especial -, provavelmente não vai dizer "não, eu não", porque, na Rússia, isso é o suficiente para ser detido. Por isso, é muito difícil fazer uma avaliação. Há claramente um nível bastante alto de apoio em certas partes da sociedade. Fizemos, em parceria com "The Insider", um trabalho sobre um grande número de pessoas que reivindica o desaparecimento de familiares ou soldados que estavam a ser enviados para a Ucrânia. Essas reclamações estão a ser feitas por isso não estar previsto nos seus contratos militares.

Algumas pessoas estão a tornar-se cada vez mais conscientes, mas será que algum dia será atingida uma massa crítica suficiente para realmente mudar as coisas no interior da Rússia? É difícil prever, porque o governo russo está a tentar reprimir qualquer tipo de dissidência, e há cada vez mais pessoas a serem detidas. Muitos russos que trabalham nos 'media' e que são críticos do conflito estão a deixar o país, devido ao risco de eles ou as suas mulheres serem presos. Trabalhamos com parceiros que tiveram de fugir do país porque enfrentariam uma pena de prisão. É muito difícil, mesmo que haja dissidência, que esse coletivo dissidente constitua uma massa crítica que possa ter um impacto dentro da Rússia.

Suspeito que essa dissidência será mais crítica dentro do círculo íntimo de Putin. Tenho a certeza de que ele está muito ciente disso, e de que está a observar muito os membros do seu círculo íntimo com muito, muito cuidado, para detetar os mínimos sinais de traição.

Prevê um crescimento das forças de repressão do FSB? Que propósito teve e a quem serviu a morte de Darya Dugina?
É o que certamente esperam, visto que tentaram tornar a morte dela num grande acontecimento, com um grande serviço fúnebre que foi transmitido. Certamente tentam usar isso para aumentar o apoio ao conflito e reforçar a posição de Putin.

Mas, por outro lado, o facto de que alguém assim poder ser definido como alvo, da maneira como foi, pode tornar outras pessoas mais ousadas e fazer com que se atrevam a fazer outras coisas. É muito difícil prever este tipo de situações na Rússia porque acontecem muito rapidamente, quando estão a tentar reprimir algo suspeito. E isso pode levar a que mais pessoas sejam reprimidas, para Moscovo poder exercer esse nível extra de controlo.

A Ucrânia avisou que mais atos terroristas seriam denunciados nos próximos tempos. Imediatamente a seguir, foi, segundo o FSB, "exposta" e travada uma tentativa de ato terrorista no exclave de Kaliningrado. É uma estratégia do Kremlin?
Se as autoridades russas anunciam que algo aconteceu, não significa que tenha acontecido. Mentem constantemente. Penso que a estratégia é dizer: "Também estamos sob ataque no interior da Rússia, por causa deste tipo de forças. Por isso, é melhor prendermos o maior número de pessoas possível." É uma maneira muito boa de reprimir os dissidentes, de quem diz mal da guerra, sugerindo que qualquer dissidente é parte de uma organização terrorista.