Guerra na Ucrânia

A Ucrânia quer destruir a maior ponte da Europa. Putin mandou-a construir e inaugurou-a em 2018

21 agosto 2022 14:40

A ponte que liga a península da Crimeia à Rússia foi mandada construir por Vladimir Putin depois da anexação da Crimeia, em 2014, e inaugurada em maio de 2018

alexander nemenov/getty images

Até Vladimir Putin inaugurar a ponte da Crimeia, em 2018, a Vasco da Gama tinha a fama e o proveito de ser a maior da Europa. Quatro anos depois, a ponte da Crimeia que liga esta península à Rússia transformou-se num objeto bélico, e corre o risco de ser destruída. Pouco importa que seja nova, que tenha um tabuleiro rodoviário e outro ferroviário, e que seja a mais longa da Europa. Em tempo de guerra é um símbolo do poder de Moscovo

21 agosto 2022 14:40

A frase "Welcome to Ukraine" (bem-vindo à Ucrânia) que se lê no painel luminoso à entrada da ponte da Crimeia, poderia ser apenas uma manifestação de boas vindas. Poderia, se quem cruza a ponte estivesse mesmo a entrar na Ucrânia (a frase é fruto de uma 'infiltração' no sistema de avisos na ponte), se a Rússia e a Ucrânia não estivessem em guerra desde 24 de fevereiro, e se esta guerra na Europa não estivesse "a abalar toda a humanidade", como lembrou este sábado Presidente Sergio Mattarella, em Rimini.

Mikhail Podolyak, conselheiro de Volodymyr Zelensky, escreveu um twitter na última quarta-feira, anunciando as intenções de Kiev (ou as suas enquanto conselheiro presidencial) sobre o futuro da ponte sobre o estreito de Kerche: "Está registrado no direito internacional: a Crimeia é Ucrânia. E é por isso que esta ponte é um objeto banal de construção ilegal, a Ucrânia não deu permissão para a sua construção. Prejudica a ecologia da península, e deve ser desmantelada. Voluntariamente ou não, não é importante."

Este artigo sobre as declarações de Mikhail Podolyak, publicado pela revista "Newsweek", traça um eventual cenário sobre o futuro da ponte, que tem valor simbólico para Moscovo e para Kiev. Foi mandada construir depois de a Rússia anexar a Crimeia em 2014, para assegurar uma ligação rodoviária e ferroviária entre a Rússia e península da Crimeia.

O nome foi escolhido por votação online, em 2017. Crimeia foi a designação mais votada, seguida de ponte Kerch, em segundo lugar, e ponte da Reunificação, em terceiro.

Um 'presente' de Khrushchov para a Ucrânia

A Crimeia pertenceu em termos 'administrativos' à República Socialista Federada Soviética da Rússia, até 1954. Nesse ano,o Presidente Khrushchov transferiu a sua tutela 'governativa' para a República Socialista Soviética da Ucrânia. Mas a península continuaria a ser uma estância de veraneio dos dos dirigentes soviéticos. Eram muitos os que tinham casas de veraneio nesta zona, vizinha do Mar Negro, com boas praias de água tépida.

Depois da desagregação da União Soviética, a Crimeia proclamou a independência em 5 de maio de 1992 e, posteriormente, passou a te o estatuto de república autónoma da Ucrânia.

A ponte alemã que o gelo destruiu na II Guerra Mundial

O projeto de construir uma ponte sobre o Estreito de Kerch era antigo. E também era difícil de concretizar porque a área fica "entre duas cadeias de montanhas, que geram um túnel de vento", e existe muito lodo no fundo do mar, resultado do lixo que ali se vai acumulando.

Na Segunda Guerra Mundial, os alemães construíram uma ponte que foi destruída por um bloco de gelo durante o degelo.

A ponte só viria a ser construída depois da anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, o que transforma esta obra de engenharia - com 19 quilómetros de comprimento e um tabuleiro rodovário e outro ferroviário - num símbolo de poder para russos e ucranianos. A península tem sido cenário de muitos conflitos, e a Guerra da Crimeia (1853-1856) foi o primeiro conflito a ter cobertura jornalística.