Guerra na Ucrânia

Quase metade dos pacientes retirados da Ucrânia são crianças e idosos que foram atingidos por “estilhaços ou tiros”

22 junho 2022 11:41

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Casa destruída na aldeia de Syrotyne, em Luhansk, na Ucrânia.

pierre crom/getty images

Médicos Sem Fronteiras denunciam "ataques indiscriminados" contra civis na Ucrânia e instam "todos os grupos armados" a respeitar a lei internacional humanitária e a cumprir a "obrigação de proteger a população e infraestruturas civis"

22 junho 2022 11:41

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

A organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) revelou, esta quarta-feira, que estão a ser cometidos "ataques indiscriminados" contra civis na Ucrânia.

A organização tem participado nos esforços de retirada de pessoas das linhas da frente da guerra. Opera um "comboio de assistência médica" que assegura a transferência de civis para locais seguros, nomeadamente para instalações médicas na região oeste do país.

Relatos de pacientes e de equipas médicas no terreno apontam para uma "chocante falta de cuidado em diferenciar e proteger civis", refere a MSF num comunicado enviado às redações.

Quase metade dos pacientes são idosos e crianças

Em cerca de dois meses (entre 31 de março e 6 de junho) foram encaminhadas mais de 600 pessoas. Destas, "mais de metade tinham sofrimentos em resultado direto da guerra" e uma percentagem significativa (mais de 40%) dos pacientes com ferimentos são "pessoas idosas e crianças com feridas resultantes de explosões, amputações traumáticas, ferimentos por estilhaços ou tiros". Cerca de 11% dos pacientes que sofreram traumas relacionados com a guerra têm menos de 18 anos e 30% estão acima dos 60 anos. Todos estes dados, sustenta a organização, "indicam uma ausência do respeito pela proteção de civis, o que constitui uma grave violação da lei internacional humanitária".

Uma dessas vítimas, uma mulher de 92 anos residente em Lyman, na região de Donetsk, partilhou o seu testemunho com a MSF. Contou que estava a dirigir-se à casa de banho da sua casa quando ouviu uma explosão. "Perdi a consciência e caí." Quando acordou, percebeu que tinha a cara "coberta de sangue", uma fratura exposta no braço e o nariz partido, "possivelmente em resultado da queda". "Estava sozinha e a gritar de dores, a pedir ajuda, mas ninguém me ouviu." Mais tarde, foi encontrada por um voluntário, mas nem nesse momento foi assistida por médicos. Só dois dias depois chegou uma ambulância a casa para a levar para o hospital.

MSF insta "todos os grupos armados" a respeitar a lei

Citado no comunicado, Christopher Stokes, coordenador de emergências da organização, refere que "muitos pacientes transferidos pela MSF foram feridos por ataques militares que atingiram áreas residenciais". "Embora não possamos dizer que houve a intenção de atingir civis, a decisão de utilizar armamento pesado em áreas densamente povoadas significa que os civis não têm como escapar, sofrendo ferimentos e morte." Quando questionados sobre quem foram os responsáveis pelos seus ferimentos, a "maioria" dos pacientes apontou o dedo às tropas russas e forças apoiadas pela Rússia.

As equipas que estão no terreno testemunham "o que, no mínimo, constitui ataques indiscriminados contra civis", que "permanecem em risco de ficarem expostos a imenso sofrimento", aponta a MSF, instando "todos os grupos armados" a respeitar a lei internacional humanitária e a cumprir a "obrigação de proteger a população e infraestruturas civis".