Guerra na Ucrânia

Merkel tentou "um ‘modus vivendi’", mas sabia que Putin queria "destruir a Europa".

8 junho 2022 7:29

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Para Merkel, o Kremlin cometeu um "erro catastrófico" com a invasão da Ucrânia, "um ataque brutal, que desrespeita o direito internacional e não tem desculpa". A ex-chanceler diz que era preciso tentar a via diplomática com Moscovo e afirma estar de consciência tranquila

8 junho 2022 7:29

A ex-chanceler alemã Angela Merkel, criticada desde o início da invasão russa da Ucrânia devido à proximidade com Moscovo, garantiu esta terça-feira que não se recrimina, mas sublinhou que já sabia na altura que Putin “queria destruir a Europa”. Na sua primeira aparição pública desde que deixou o cargo há seis meses, a ex-governante explicou que, por exemplo, no verão de 2021, não conseguiu realizar uma iniciativa europeia para trazer o Presidente russo, Vladimir Putin, de volta à mesa das negociações.

No entanto, quando faz uma retrospetiva, Angela Merkel refere uma certa "tranquilidade" por saber que fez o possível para evitar a situação atual e que tem total confiança na gestão do seu sucessor, Olaf Scholz.

Sobre as acusações de que foi ingénua, ao acreditar que a Rússia poderia mudar através das relações comerciais com o Ocidente, Merkel realçou que nunca teve “ilusões”, mas que não poderia agir como se um país vizinho “não existisse”.

A ex-chanceler, que falava durante uma palestra em Berlim, organizada pela Editora Aufbau, sublinhou que já sabia na altura que Putin “queria destruir a Europa” mas que antes de entrar em conflito aberto era preciso "tentar tudo diplomaticamente". Merkel resumiu a sua política em relação ao Kremlin (presidência russa) com a tentativa de "encontrar um ‘modus vivendi’ [modo de viver] onde não se estivesse em guerra e tentasse coexistir apesar das diferenças”.

Para a antiga chefe do governo alemão, as sanções dos EUA à construção do gasoduto Nord Stream 2 causaram-lhe “incómodo”, considerando que era algo que se “fazia com um país como o Irão, mas não com um aliado", mas elogiou a iniciativa do Presidente Joe Biden para ‘enterrar’ a questão em 2021.

Angela Merkel também defendeu a decisão da cimeira de Bucareste, em 2008, de não conceder à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão à NATO, que na altura não era um país "democraticamente firme" e era "dominado por oligarcas". A política alemã acrescentou que, do ponto de vista de Putin, também teria sido uma "declaração de guerra" à qual ele teria reagido causando grandes danos a Kiev, de acordo com a sua política de intervir em países ao redor da Rússia que se tentavam virar para o Ocidente.

A democrata-cristã recordou ainda os seus encontros presenciais com Putin e lembrou que, numa reunião em 2007, em Sochi, o chefe de Estado russo garantiu-lhe que, para ele, a queda da União Soviética foi o pior evento do século XX, enquanto para ela, nascida na Alemanha Oriental, foi uma “sorte” que lhe concedeu “liberdade”. "Era claro que havia uma grande dissidência, que se agravava. Em todos estes anos não foi possível acabar com a Guerra Fria", atirou.

Para Merkel, o Kremlin cometeu um "erro catastrófico" com a invasão da Ucrânia, "um ataque brutal, que desrespeita o direito internacional e não tem desculpa". Mas pediu para que não se condene sumariamente a cultura russa, mas que se julgue cada obra ou artista separadamente, pois nem todos se alinham com Putin.

Sobre a sua vida pessoal, após 16 anos no poder, Angela Merkel sustentou que ficar mais tempo no governo teria sido um "anacronismo" e que é um "sentimento lindo" ter saído por vontade própria.

Apesar de estar a dedicar os últimos meses ao exercício e à leitura de “livros gordos”, a ex-chanceler confessa que esperava que a sua reforma fosse "diferente" e não marcada pela “cicatriz” da guerra.

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que causou já a fuga quase 15 milhões de pessoas de suas casas – mais de oito milhões de deslocados internos e mais de 6,9 milhões para os países vizinhos -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).