Guerra na Ucrânia

Descodificação de uma invasão: pré-publicação de quatro blocos de "Ucrânia, 35 pontos fundamentais para entender a invasão russa"

5 maio 2022 15:55

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Um acontecimento com um potencial transformador ao nível da queda do Muro de Berlim ou do ataque às Torres Gémeas - o ataque russo iniciado a 24 de fevereiro à Ucrânia sem declaração formal de guerra - é analisado por Rui Cardoso, antigo editor internacional e colaborador regular do Expresso e da SIC Notícias, num livro agora publicado. Com 173 páginas, “Ucrânia, 35 pontos fundamentais para entender a invasão russa” desdobra-se em quatro capítulos: Raízes, Passado Próximo, Crise e Guerra e, finalmente, Futuro. Aqui se apresentam em pré-publicação quatro textos retirados de cada um dos referidos capítulos

5 maio 2022 15:55

I Capítulo, Raízes, pág. 24

3 Os esquecidos da História

Nada mais complexo que a história da Ucrânia a partir da I Guerra Mundial. Um período agitadíssimo por onde perpassam figuras como Nestor Makhno (1888-1934) ou Simon Petliura (1879-1926). Ambos morreram em Paris, o primeiro de tuberculose, depois de anos a trabalhar como operário na Renault, enquanto o segundo seria assassinado.

Makhno, preso político libertado após a Revolução de Outubro, é uma das últimas grandes figuras do anarquismo. De regresso à sua terra natal Guliapole, em 1917, vai incentivar um movimento revolucionário de operários e camponeses, marcado por ocupações de fábricas e de terras e constituição de assembleias populares espontâneas, os sovietes que, ao contrário dos que tinham despontado na Rússia revolucionária, se mantinham autónomos relativamente aos partidos, bolcheviques incluídos.

Durante a guerra civil que se seguiu à Revolução de Outubro (1918/20) as milícias anarquistas tanto lutaram com o Exército Vermelho, como contra os contra-revolucionários, os Exércitos brancos de Denikine e Wrangel, tendo desempenhado um papel central na derrota destes últimos, nomeadamente ao cortarem as suas comunicações com as bases logísticas à retaguarda como Ekaterinoslav, onde dispunham de equipamento militar cedido por franceses e britânicos. Isso não impediu que as tropas de Moscovo, uma vez eliminada a ameaça monárquica, se virassem contra os mahknovistas e acabassem por os derrotar.

Durante três anos, até 1921, cinco exércitos vão confrontar-se na Ucrânia, causando incontáveis devastações: o exército polaco de Pilsudski que procura garantir a posse da zona ocidental do país, o de Petliura que se bate pelo governo republicano de Kiev, os Brancos de Denikine e Wrangel, monárquicos restauracionistas, os Vermelhos enviados por Moscovo e os Negros (da cor da bandeira anarquista) de Mahkno

Exilado, Makhno fixa-se em Paris onde trabalhará até ao fim da vida (encurtada pela tuberculose contraída nos cárceres czaristas) na fábrica da Renault de Billancourt. Na capital francesa conhecerá em 1927 outra figura central do anarquismo, Buenaventura Durruti (que morrerá durante a guerra civil espanhola). Esse encontro que se tornou lendário e em que participaram entre outros Luis Lecoin, Berthe Fabert, Emilienne Morin e Galina Mahkno foi imortalizado na banda desenhada por Bruno Loth e Corentin Loth em “Vive L’Anarchie” (La Bôite a Bulles, 2020).

Simon Petliura teve uma ascensão e queda fulgurantes. Ainda em 1918 vai chefiar um improvisado exército nacional ucraniano que procurará defender das forças bolcheviques uma recém-proclamada república da Ucrânia. Não conseguindo defender Kiev, vai manter um núcleo de soldados, base do “exército de Petliura”. Durante três anos, até 1921, cinco exércitos vão confrontar-se na Ucrânia, causando incontáveis devastações: o exército polaco de Pilsudski que procura garantir a posse da zona ocidental do país, o de Petliura que se bate pelo governo republicano de Kiev, os Brancos de Denikine e Wrangel, monárquicos restauracionistas, os Vermelhos enviados por Moscovo e os Negros (da cor da bandeira anarquista) de Mahkno.

A 30 de Agosto de 1919 as tropas de Petliura, derrotam o Exército Vermelho e entram em Kiev (é a quinta vez em 15 meses que a capital muda de mãos) e desfraldam a bandeira azul e dourada. É empossado um Directório mas este governo será de pouca dura pois os Brancos de Denikine tomam a cidade e Petliura e os seus últimos soldados acolhem-se à protecção dos polacos. Petliura negoceia com Pilsudski: se a Polónia libertar o leste da Ucrânia, poderá retomar a posse do oeste do país. Depois de uma campanha cheia de reviravoltas, os polacos, acossados perto de Varsóvia, derrotam o Exército Vermelho no Vístula (15 de Agosto de 1920) e o tratado de Riga divide a Ucrânia entre polacos e soviéticos. O exército de Petliura é dissolvido e este abandona a Polónia dizendo aos seus homens: “nunca esqueçam esta traição!”. Exilado em Paris, será alvejado à saída de um restaurante por um anarquista moldavo que o responsabilizara por perseguições a judeus ucranianos em 1919,

Uma última figura que tal como as anteriores é tudo menos consensual é Stepan Bandera (1909/1959). Combatente pela liberdade da Ucrânia vai ser sucessivamente prisioneiro dos polacos e dos alemães (após 1939). Contudo, a partir de 1944 é libertado e envereda pelo colaboracionismo, vendo na cobertura militar nazi uma possibilidade de a Ucrânia se libertar do jugo soviético. Refugiado na Alemanha após a II Guerra Mundial será morto por um agente do KGB em Munique em 1959. Misto de patriota e colaboracionista, inspira alguma veneração em sectores da opinião pública ucraniana, o que é explorado pelo Kremlin para fazer a amálgama entre o independentismo ucraniano e “neonazis e banderistas.”

II Capítulo, Passado próximo, pág. 52

10 O mito do genocídio russófono a Leste

Em 2014 Putin anexou a Crimeia, violando o direito internacional e pondo em causa as fronteiras saídas da II Guerra Mundial. Contudo, a acção dos “homenzinhos verdes” (tropas especiais e elementos dos serviços secretos russos levando a cabo uma guerra híbrida de subversão/ocupação) foi aplaudida com júbilo nas ruas de Moscovo e doutras cidades. Como explica o politólogo ucraniano Anton Shekhovtsov isto aconteceu por uma razão simples: “a recuperação da Crimeia era algo de central na produção cultural russa da era pós soviética.”

Em contrapartida, “o Donbass (bacia carbonífera e industrial do leste da Ucrânia) nunca fez parte da mitologia da Rússia imperial”. Por isso, o Kremlin teve que por a circular a narrativa segundo a qual estava em curso a perseguição da minoria russófona naquela região. Com isso conseguiu duas coisas: alguma adesão a esta ideia no Ocidente, amplificada pela propaganda da televisão Russia Today e da agência de “informação” Sputnik News, agora banidas do espaço europeu pela prática de intoxicação da opinião pública; e um apoio tácito, embora nunca entusiástico, da população russa a acções de apoio político e militar aos separatistas do leste da Ucrânia.

E que separatistas eram estes? Basicamente os mineiros e metalúrgicos de Donetsk, que nos velhos tempos se chamava Stalino, mergulhados, aqui como noutras cidades e zonas industriais da região, num universo residencial e laboral que tinha mais a ver com velha União Soviética que com o século XXI. Uma paisagem até há pouco marcada por altos-fornos, malacates dos poços das minas, chaminés vomitando um fumo negro capaz de conspurcar a própria neve e sobretudo os pulmões dos mineiros, cuja esperança de vida era curta, minada por jornadas de trabalho intermináveis, pela silicose e sobretudo pelos acidentes: quatro a cinco mortos por milhão de toneladas de carvão extraído. Em 2007, uma explosão de grisu (mistura fatal de metano e oxigénio em ambientes fechados) tinha matado uma centena de mineiros em Zasiadko. Dir-nos-íamos nas páginas mais negras do “Germinal” de Zola mas aqui o capitalismo não era bolsista mas de Estado e depois selvagem.

Em 1989 as massas operárias do Leste tinham votado ultra maioritariamente pela independência mas mal pagas, sentindo-se abandonadas pelos políticos de Kiev, começaram a ser terreno fértil para todas as demagogias, reconhecendo-se mais nas dádivas de oligarcas como Rinat Akhmetov ao clube de futebol Shaktar (literalmente o Mineiro de) Donetsk que nos longínquos jogos políticos da capital, muito menos na Revolução Laranja de 2004 ou na Revolução da Praça Maidan em 2014.

As recordações dos massacres da guerra civil bósnia (1992/95) e, obviamente, do Holocausto ancoram profundamente no imaginário europeu e por isso mesmo a propaganda de Putin agitou estes fantasmas. Mas a retórica, por incendiária que fosse, não bastava. E por isso, nos dias que antecederam a fatídica madrugada de quinta-feira, 24 de Fevereiro, foi encenada a evacuação das cidades separatistas do Donbass

A propaganda do Kremlin, difundida através da televisão estatal russa, soube explorar estes ressentimentos, apresentando os manifestantes da Praça Maidan como hooligans ou nazis e instilando a ideia de que se vivia melhor na vizinha Rússia que na Ucrânia. Também aqui os “homenzinhos verdes” fizeram o seu trabalho, dando conteúdo político pró-russo aos protestos dos mineiros e enquadramento armado para apoiar a ocupação de edifícios oficiais, o arriar da bandeira ucraniana, etc. Sucederam-se ocupações e desocupações do parlamento regional por grupos antagónicos e caminhou-se a passos largos para uma guerra civil sobre cujas brasas o Kremlin não parava de soprar. Depois, aquilo a que o resto da Europa assistiu de olhos arregalados a partir de 2014: um começo de guerra civil, um referendo não reconhecido internacionalmente decidindo a secessão das regiões de Donetsk e Lugansk e combates que fizeram 13000 mortos até um precário cessar-fogo que se foi arrastando até 2022.

Nesta nova fase dos acontecimentos, ou seja a partir de Janeiro deste ano, para convencer o povo russo da razão de ser, primeiro da ocupação militar das repúblicas secessionistas do Donbass e logo depois da invasão da Ucrânia, já não bastava a Putin falar em perseguição de minorias. Era preciso, como escreveu Anton Shekhovtsov “inventar uma mentira de uma tal enormidade que se tornasse credível, senão no todo, pelo menos em parte, ou seja de que estava em curso, já não a perseguição mas o genocídio da população russófona do leste”.

Nem todos os genocídios da época moderna ocorreram na Europa. Basta pensar no Camboja dos Khmers Vermelhos (1975/79) ou no Ruanda/Burundi (1994). Mas as recordações dos massacres da guerra civil bósnia (1992/95) e, obviamente, do Holocausto ancoram profundamente no imaginário europeu e por isso mesmo a propaganda de Putin agitou estes fantasmas. Mas a retórica, por incendiária que fosse, não bastava. E por isso, nos dias que antecederam a fatídica madrugada de quinta-feira, 24 de Fevereiro, foi encenada a evacuação das cidades separatistas do Donbass, com a televisão estatal russa a encenar a partida de colunas de autocarros supostamente levando milhares de civis para a idealizada segurança do território russo.

Esta narrativa tinha um problema: mesmo que por absurdo os ucranianos quisessem invadir as zonas separatistas do Donbass não tinham meios militares para tal. A prática demonstrou-o: ao fim de três semanas de guerra esta frente mantinha-se tão imutável como as linhas de trincheiras de 1914/18. O problema é que, como a História nos ensina, as grandes mentiras levam sempre a grandes tragédias.

III Capítulo Crise e guerra pág. 133

26 As fraquezas do rolo compressor russo

Olhando para a guerra na Geórgia em 2008, para os combates no leste da Ucrânia em 2014/15 ou para o empenhamento russo na guerra civil síria ficava-se com a ideia de uma máquina militar russa eficaz, tecnologicamente avançada, muito diferente dos restos do Exército Vermelho após a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética. E em pleno processo de modernização, da guerra electrónica aos mísseis, da aviação aos blindados.

Quando, a 24 de Fevereiro de 2022, se deu a invasão da Ucrânia, as primeiras estimativas dos serviços secretos ocidentais eram de que, passados quatro dias, haveria tanques russos em Kiev, na Praça Maidan. Nada disso se passou e a máquina militar russa revelou, a par de progressos na capacidade de usar mísseis balísticos e de cruzeiro, algumas fragilidades. Vejamos quais foram e que nos dizem sobre os limites presentes e futuros do poder militar russo.

As forças russas parecem ter começado por tentar seguir os manuais soviéticos da década de 1970, apostando numa rápida guerra de movimento feita por colunas blindadas atacando a partir de diferentes direcções

Dos sete exércitos empenhados nesta campanha, somente dois alcançaram sucessos significativos, expressos na conquista de território, domínio de eixos vitais, conquista de cidades estratégicas, etc, os quais se verificaram quase exclusivamente no sul, na costa do Mar Negro. No resto das frentes, os sucessos iniciais foram limitados: quase nenhuns no leste, na zona do Donbass (repúblicas separatistas) e meros movimentos de cerco a Karkhyv e Kiev.

As forças russas parecem ter começado por tentar seguir os manuais soviéticos da década de 1970, apostando numa rápida guerra de movimento feita por colunas blindadas atacando a partir de diferentes direcções, tendo como objectivo penetrações em profundidade no território inimigo. Como se disse, os sucessos foram muito limitados e excepção feita à costa do Mar Negro, depressa se passou da guerra de movimento à guerra de cerco.

Apesar de os aeródromos ucranianos terem sido atacados à distância com mísseis, isso não proporcionou aos russos um domínio total dos céus. O uso da aviação tem sido relativamente limitado, seja por opção, para não pagar os custos políticos das baixas civis causadas por bombardeamentos aéreos em larga escala, seja por medo dos sistemas anti-aéreos ucranianos S-300 (de fabrico soviético) ainda operacionais. Ou ainda por receio de incidentes envolvendo fogo amigo, tanto mais que parecem, uma vez mais (recorde-se a guerra com a Geórgia em 2008) ter ficado patentes dificuldades de coordenação entre as tropas russas no solo e a aviação.

Tudo isto sugere do lado do estado-maior russo um quadro de deficiente avaliação, quer do terreno, quer do inimigo e, sobretudo, da forma como se esperava que este combatesse. Ou seja e no dizer de Isabelle Facon, directora-adjunta da Fundação [francesa] para a Investigação Estratégica, a famosa ‘operação militar especial’ “baseou-se numa visão estratégica e política deformada da realidade ucraniana”.

Contrariamente ao Donbass e à Síria, dada a dimensão desta campanha (envolvendo à volta de 150000 militares), não puderam ser apenas empenhadas unidades de primeira categoria e a heterogeneidade de forças e de material parece ser uma das fraquezas russas. Acresce, segundo o historiador militar francês coronel Michel Goya, que “parece faltar ao estado-maior russo, experiência de condução de operações desta envergadura”.

A insistência nas barragens de artilharia sobre as cidades ucranianas sitiadas não é apenas uma questão de não querer saber dos danos colaterais e das baixas civis. É intrínseca porque, como diz o coronel Goya, “o exército russo é, antes de mais, uma questão de artilharia pesada”

A observação de imagens das primeiras semanas sugere duas conclusões: por um lado, uma quantidade inabitual de veículos (de tanques a camiões ou artilharia auto transportada) abandonados por avaria ou falta de combustível; e, por outro, uma taxa surpreendente de destruição de veículos blindados de transporte de pessoal.

É o caso das famosas BMP da época soviética. São equipadas com uma peça de tiro rápido e duas metralhadoras, tripuladas por três elementos e transportam apenas sete soldados de infantaria (por opção, para limitar perdas no caso de um impacto directo no veículo) os quais podem usar as suas armas através de frestas nas laterais da carroçaria. Segundo o coronel Goya, este nível de perdas não resulta tanto de fraquezas intrínsecas do veículo mas da circunstância de este ser a “montada” das brigadas de assalto aerotransportadas, ponta de lança do dispositivo russo.

Ao solicitar tanto as suas melhores unidades (brigadas aerotransportadas, spetsnaz, pára-quedistas, etc) o comando russo corre o risco de estas se desgastarem demais como sucedeu às stosstruppen alemãs durante as ofensivas da Primavera de 1918 na frente ocidental, para as quais não havia substitutos à altura, muito menos tropas de segunda linha que as pudessem acompanhar e explorar as brechas abertas. Agora na Ucrânia, é a infantaria motorizada russa a revelar-se muito inferior às melhores e mais solicitadas tropas.

A insistência nas barragens de artilharia sobre as cidades ucranianas sitiadas não é apenas uma questão de não querer saber dos danos colaterais e das baixas civis. É intrínseca porque, como diz o coronel Goya, “o exército russo é, antes de mais, uma questão de artilharia pesada”.

Para além do que, tirando as já referidas tropas especiais, o exército russo não parece familiarizado com o combate urbano, mortífero, desgastante e exigindo formação específica. A título de comparação, as melhores tropas norte-americanas no Iraque (nomeadamente fuzileiros) precisaram de dois meses para reconquistar Faluja aos insurrectos em Novembro de 2004. E esta cidade representa em área ou em habitantes a quarta ou a quinta parte de Kiev. Daí duas tendências russas: a insistência em martelar à distância com a artilharia cidades como Kiev ou Karkhyv, para não falar da martirizada Mariopol; e os rumores acerca da utilização de tropas irregulares como mercenários sírios ou destacamentos chechenos. O velho império otomano não fazia outra coisa com os bachi-bouzouks, tal como o império austríaco com os hussardos do século XVIII e outra cavalaria irregular, usada para escaramuças e intimidação de civis.

A longo prazo, o rolo compressor russo tem tudo para vencer sempre. Mas, ao fazê-lo, corre o risco de ser apanhado na armadilha de uma guerra popular prolongada como aquelas em que americanos (no Iraque) e soviéticos (no Afeganistão) se atolaram.

O material russo não é apenas heterogéneo, misturando coisas que parecem repescadas dos arsenais soviéticos com tecnologia moderna. Está notoriamente amputado de alguma das “jóias da coroa” mostradas regularmente nas paradas militares da Praça Vermelha em Moscovo. É o caso do tanque semi-robotizado T-14 Armata ou mesmo dos aviões SU-57 dotados de tecnologia furtiva. Tudo isto existe mas em pré-série, pois a Rússia actual, na linha da União Soviética na sua fase de declínio, parece não ter capital nem capacidade industrial para passar à fase da produção em massa dos seus melhores protótipos. De resto, não deixa de ser intrigante a subutilização, pelo menos durante as primeiras semanas da invasão da Ucrânia, dos meios de guerra electrónica russos, testados com sucesso em intervenções anteriores, nomeadamente no leste da Ucrânia em 2014/15.

É verdade que a Rússia é um dos países que maior percentagem do PIB dedica à defesa – cerca de 4%. Mas o que está em causa é o baixo valor absoluto desse PIB, circunstância à qual acrescem, até 2008, dez a quinze anos de sub-financiamento da defesa. Isto levou, segundo Isabelle Facon, a uma “degradação irreversível das capacidades militares herdadas da União Soviética”.

O esforço de modernização das forças armadas russas levado a cabo a partir de 2008 (ano em que foi atacada a Geórgia) e o relativamente bom desempenho na guerra civil síria foram explorados pela propaganda do Kremlin para dourar a imagem militar do país, projectando a ideia de umas forças armadas modernas, eficazes e invencíveis. Talvez por isso, houvesse previsões tão catastrofistas ocidentais sobre a chegada dos tanques de Moscovo a Kiev. Ora a observação das primeiras semanas de guerra sugere, segundo a referida especialista francesa, uma conclusão quase oposta: “as forças russas revelaram-se muito aquém da imagem projectada nos últimos dez anos”. Inclusivamente as famosas “bolhas A2/AD” (anti-acesso/negação de área) associando mísseis, canhões anti-aéreos, radares, artilharia costeira, etc, teoricamente capazes de interditar o acesso inimigo a determinadas zonas, “parecem ser tomadas mais a sério pelos militares ocidentais que pelo alto-comando russo”, acrescenta Isabelle Facon.

Dito tudo isto, duas coisas são verdade. A longo prazo, o rolo compressor russo tem tudo para vencer sempre. Mas, ao fazê-lo, corre o risco de ser apanhado na armadilha de uma guerra popular prolongada como aquelas em que americanos (no Iraque) e soviéticos (no Afeganistão) se atolaram.

Cap. IV Futuro pág.158

34 Uma nova Síria e uma nova Coreia

Uma campanha russa de cercos, bombardeamentos de cidades e ocupação militar de parte do território pode, a médio prazo, transformar a Ucrânia numa nova Síria, desolada, balcanizada e abandonada por parte dos seus habitantes. Mas isso teria um custo: a transformação da Rússia num estado diplomaticamente isolado, economicamente irrelevante e totalmente dependente da China, ou seja algo de parecido com uma nova Coreia do Norte. É um dos cenários possíveis e vale a pena analisá-lo mais em pormenor.

No dia 27 de Março, o chefe das informações militares ucranianas manifestou receios acerca de uma partição do país, entre as zonas leais a Kiev e um Leste dominado pela Rússia e pelas forças separatistas. Seria, no dizer de Kyrylo Boudanov, uma tentativa de, tal como na península da Coreia em 1950, forçar a criação de dois países.

Na verdade, abandonada por uma parte da população, com cidades cercadas e destruídas e o território transformado num mosaico de redutos antagónicos em território hostil, a Ucrânia começa a parecer-se mais com a Síria que com a Coreia. Tanto mais que as tropas de Putin estão a aplicar a mesma cartilha que no país de Assad, cuja ditadura acabaram por salvar in extremis.

Na verdade e como escreve o especialista francês em Médio Oriente Jean-Pierre Filiu, “agora na Ucrânia como antes na Síria, a destruição pelas tropas russas de infra-estruturas civis, escolas, abrigos, hospitais, resulta de uma estratégia definida ao mais alto nível, cujo objectivo é aterrorizar as populações, não lhes deixando outra saída senão escolherem entre a submissão e o êxodo”.

Estes ataques a alvos civis levaram a um êxodo em massa, ainda mais rápido que o ocorrido na Síria. Numa população de 47 milhões de pessoas, 3,8 milhões refugiaram-se nos países limítrofes, enquanto outros 6,5 milhões passavam à categoria de deslocados internos. Ou seja, aconteceu em apenas um mês aquilo que na Síria demorou anos.

O que significa, como alerta Filiu, que o rolo compressor russo está a ser muito mais terrível que na Síria, ainda que tanto num caso como no outro o processo seja o mesmo: demonização e desumanização do inimigo, reduzido na Síria a terroristas e jiadistas e na Ucrânia a drogados e neonazis, seguida da sua liquidação em massa, pura e simples.

Qual é o plano do Kremlin? Talvez “transformar o território num mosaico de ilhas de desolação, fazendo do estado ucraniano um estado falhado e transformando o país numa ruína ingovernável, abandonada por milhões de habitantes a caminho da Europa

A que custo? Em 2017 Assad referia-se às mortes no seu país como um mal necessário: “Perdemos boa parte das nossas infra-estruturas e a flor da nossa juventude mas ficámos com uma sociedade mais sã e homogénea”. A 16 de Março, Putin referia-se à necessidade de uma purificação em massa: “O povo russo saberá distinguir os verdadeiros patriotas da escumalha e dos traidores. Esta tão necessária purificação da sociedade só reforçará o nosso país, tornando-o mais apto a enfrentar todos os desafios”.

A consonância entre os dois déspotas tem também tradução militar. Iniciou-se na Síria um processo de recrutamento de mercenários para combater na Ucrânia. Por enquanto, a sua presença é residual mas, como refere Filiu, “à medida que a ofensiva russa for abrandando, com perdas progressivamente maiores, começará a fazer-se sentir a necessidade de mais carne para canhão. Sobretudo quando, fruto da obsessão russa de conquistar os principais centros urbanos, se passar à fase dos combates de ruas”.

Como refere Piotr Smolar, correspondente do diário francês “Le Monde” em Washington, parece óbvio que Putin subestimou a capacidade de mobilização e resistência dos ucranianos, “o que não espanta, uma vez que nega a sua existência como povo, reduzido a uma espécie de primo abastardado que urge castigar”. O rápido derrube do governo de Kiev mostrou-se impossível, a invasão galvanizou os ucranianos contra Putin e mesmo que o presidente Zelensky fosse morto ou tivesse que se exilar, “nenhum governo fantoche seria aceite e a Rússia não teria meios para manter o controlo sobre o país a longo prazo”.

Nestas circunstâncias, “alem de transformar Kiev e Odessa em novas Alepos”, qual é o plano do Kremlin? Talvez “transformar o território num mosaico de ilhas de desolação, fazendo do estado ucraniano um estado falhado e transformando o país numa ruína ingovernável, abandonada por milhões de habitantes a caminho da Europa. Apostar na maior visibilidade de grupos ultranacionalistas ou de combatentes estrangeiros para reforçar a narrativa da desnazificação. Usar mercenários do grupo Wagner ou trazidos da Síria para missões cirúrgicas de desestabilização do resto da Ucrânia. E retirar para uma zona fortificada a Leste, um grande Donbass, estabelecendo a ligação entre as repúblicas separatistas e a Crimeia”.

De tanto querer ser uma espécie de novo Pedro o Grande, Vladimir Putin corre o risco de se transformar, num gémeo de Kim Jong-un e a Rússia numa espécie de nova Coreia do Norte, tão pobre como esta mas consideravelmente mais extensa.

Resta saber se esta “sirianização” da Ucrânia não representaria para a Rússia uma vitória de Pirro. A prazo, as sanções económicas ocidentais irão degradando a capacidade económica russa. Ao ponto de provocar uma onda de contestação ou um golpe palaciano que deponha Putin? Não é certo. Mas formatando, seguramente, um país diferente do actual. No seu romance “Diário de um opritchnik [nome da polícia secreta de Ivan o Terrível]” (2006, não editado em Portugal) o escritor Vladimir Sorokine imagina o que poderia ser essa Rússia do futuro.

Viveria atrás de uma Grande Muralha, mergulhada num ambiente de violência medieval mas vigiada pelas mais modernas tecnologias, cultivando a identidade eslava e o ódio ao ocidente. Rejeitada pelo resto do mundo mas protegida pelo seu estatuto de potência nuclear, esta Rússia distópica virar-se-ia para si própria, amordaçaria totalmente a sociedade civil e voltaria a cair numa economia de planificação central devido ao êxodo generalizado dos investidores estrangeiros. E nada como o exemplo iraniano para mostrar como um regime iníquo pode sobreviver às sanções…

Neste cenário, só uma coisa seria certa: o reforço da dependência diplomática, económica e eventualmente militar da China. De tanto querer ser uma espécie de novo Pedro o Grande, Vladimir Putin corre o risco de se transformar, num gémeo de Kim Jong-un e a Rússia numa espécie de nova Coreia do Norte, tão pobre como esta mas consideravelmente mais extensa.