Guerra na Ucrânia

“Vi os ataques dos russos, ninguém me contou”. Os horrores de Bucha a Irpin, a região do massacre russo

7 abril 2022 23:00

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

BARBÁRIE Cadáveres e escombros em Borodyanka. Após a saída das tropas russas, os habitantes desta cidade nos arredores de Kiev não têm descanso, pois vão descobrindo novas atrocidades todos os dias

Os arredores de Kiev estiveram ocupados cerca de 40 dias. Mas o recuo russo só serviu para revelar o horror da incursão de Vladimir Putin no país vizinho. O que se segue é a descrição desses intermináveis dias, contados por quem sobreviveu a um inferno a descer sobre a terra. Reportagem do Expresso na Ucrânia

7 abril 2022 23:00

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Sobre a ponte que atravessa o Rio Dniepre e vai de Irpin a Kiev estão dezenas de carros baleados, queimados, com vidros partidos, pneus furados, só podem sair daqui com um guindaste. Neles, centenas de famílias fizeram a única coisa possível sob fogo constante de um exército inimigo: fugir. Mas a ponte foi dinamitada pelos próprios ucranianos para evitar que os tanques russos progredissem até à capital. As pessoas tiveram de deixar os carros e descer as escadas de serviço para se esconderem debaixo da ponte, até que um caminho de tábuas e paletes fosse construído para permitir a passagem para o outro lado do rio, onde autocarros os esperavam para seguirem caminho até Kiev.

São de Irpin, cidade de 60 mil habitantes a 20 quilómetros de Kiev, as imagens que ficaram como marca desta guerra: velhos transportados dentro de uma trouxa feita de cobertores, cada uma das quatro pontas ponta segura por um homem, pessoas feridas com os braços enrolados à volta do pescoço dos militares, a escorregar pelas suas costas. Os arredores de Kiev estiveram ocupados cerca de 40 dias. Já não há centenas de civis escondidos à espera de uma pausa na chuva de morteiros, mas as paletes continuam a servir para levar comida a quem ficou do outro lado. Galina Melnyk, de 61 anos, separa o que dezenas de pessoas vão trazendo de um camião que não pode chegar aqui. Perdeu o filho e o pai em cinco dias. “Tinham decidido ajudar mulheres e crianças a sair para Kiev pela floresta, e morreram nessa missão, vítimas de explosões de minas”, conta ao Expresso. O pai, de 86 anos, morreu a 6 de março; o filho, de 36, dia 11. “Quero gritar, quero gritar sobre o que aqui se passou, é surreal, é uma insanidade.”

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.