Guerra na Ucrânia

“Vamos viver uma crise humanitária e alimentar como talvez nunca tenhamos vivido”: como a guerra na Ucrânia já está a agravar a fome mundial

Quinta bombardeada em Kharkov

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Depois de décadas em queda, os números da fome no mundo voltaram a aumentar com a pandemia. Agora, a guerra no “celeiro da Europa” ameaça deixar entre 7,6 a 13,1 milhões de pessoas sem nada para comer. “Se as Nações Unidas não conseguirem combater a guerra, têm a obrigação de combater a fome”, defendem especialistas ouvidos pelo Expresso

5 abril 2022 18:19

“Vamos tirar comida aos esfomeados para dar aos famintos.” As palavras do diretor executivo do Programa Alimentar Mundial são inequívocas e mostram a escala dramática da crise que se começa a desenhar.

Se no Ocidente os efeitos da guerra já se fazem sentir em cada ida ao supermercado, no Norte de África e Sudoeste Asiático - onde a fome e pobreza extremas já eram uma realidade quotidiana para porções significativas da população - este conflito poderá tirar o pão a muitas mais bocas.

Mais concretamente, a ONU estima que só o impacto desta guerra no mercado dos alimentos poderá fazer 7,6 a 13,1 milhões de pessoas passarem fome. Os custos do Programa Alimentar Mundial já aumentaram 71 milhões de dólares por mês, o suficiente para cortar o acesso a 3,8 milhões de pessoas.

“Neste momento vamos viver uma crise humanitária e alimentar como talvez nunca tenhamos vivido desde a Segunda Guerra Mundial”, considera Pedro Graça, especialista em Nutrição Humana e professor na Universidade do Porto (UP). “Mas foi para lidar com [situações como esta] que foram criados organismos internacionais que não existiam antes da Segunda Guerra Mundial, como a ONU e a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura]. Se as Nações Unidas não conseguirem combater a guerra, têm a obrigação de combater a fome. Isso vai ser um dos grandes desafios da ONU neste e no próximo ano.”

No entanto, Bruno Costa, professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior (UBI), salienta que “os programas de apoio alimentar da FAO já não são suficientes para fazer face às necessidades e o conjunto de ajudas dos países mais desenvolvidos centrar-se-ão no apoio direto à Ucrânia”.

Há poucos países onde uma guerra poderia ter maior impacto no mercado global dos alimentos

Mas para compreender o impacto desta guerra na fome mundial é necessário perceber o papel ucraniano no abastecimento de alimentos a nível internacional.

Em 2014, um relatório da FAO destacava as “condições agro-ecológicas altamente favoráveis e localização geográfica favorável” que conferem uma “vantagem competitiva” à agricultura da Ucrânia.

Além de ter várias zonas climáticas que conferem condições favoráveis à produção de uma grande variedade de colheitas, a Ucrânia tem no seu território um dos solos mais férteis do mundo. Cerca de 68% do território ucraniano é chernossolo, um tipo de solo espesso e de cor escura, rico em matéria orgânica e com alto teor de cálcio, com capacidade de produzir enormes colheitas. É um terço do chernossolo existente em todo o mundo.

Como consequência, a Ucrânia tornou-se num verdadeiro “celeiro da Europa”. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, é líder mundial na produção de óleo e sementes de girassol e está entre os principais produtores mundiais de cevada, centeio, milho e outros cereais, assim como de leite e derivados.

A Ucrânia está entre os principais produtores mundiais de cereais (Foto: colheita na região de Kharkiv em 2017)

A Ucrânia está entre os principais produtores mundiais de cereais (Foto: colheita na região de Kharkiv em 2017)

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A invasão ocorreu no início da época de plantio, o que significa que muitos terrenos vão ficar por cultivar. A ONU estima que até 30% das terras agrícolas ucranianas podem tornar-se zonas de guerra. Cumulativamente, muitas das pessoas que trabalhavam a terra fugiram ou estão a combater e as máquinas agrícolas foram alocadas nos esforços de guerra ou já não têm reservas de combustível para funcionar. Mesmo que consigam cultivar parte dos terrenos, a Rússia cortou o acesso aos portos do Mar Negro que permitiam a exportação dos produtos.

Por outro lado, o envolvimento russo no conflito também contribui para escalar o problema. A Ucrânia é a sexta maior produção de trigo do mundo, mas em conjunto com a Rússia produzem um terço da oferta a nível mundial. O abastecimento deste e de outros produtos fica ameaçado pelas sanções aplicadas pelos países ocidentais.

A Rússia é também um dos principais fornecedores mundiais de fertilizantes e matérias primas relacionadas com este produto (cujo abastecimento já estava com perturbações antes do conflito). O país de Vladimir Putin tem também uma enorme importância para o fornecimento de gás natural na Europa.

Desde o início da invasão no mês passado, os preços do trigo aumentaram 21%, a cevada 33% e alguns fertilizantes 40%. E esta inflação já se faz sentir em todo o mundo, como dá conta o "New York Times". Na Europa já há fábricas a cortar nas produções devido ao aumento do preço da eletricidade. No Texas e no Brasil já há agricultores a cortar no fertilizante e a encolher as colheitas.

“Nunca a nossa produção alimentar dependeu tanto da energia”, explica Pedro Graça. “Aquilo que comemos é maioritariamente petróleo. Ou seja, o preço final de um produto alimentar já não depende tanto do custo da mão de obra, mas antes dos fertilizantes, sementes, pesticidas, maquinaria, sistemas de rega, transporte. Tudo isso depende da energia e por isso quando o preço do petróleo sobe, a maioria dos fatores de produção sobe também.”

O problema é no entanto particularmente grave em países do Norte de África e Sudoeste Asiático altamente dependentes da importação de alimentos, principalmente de cereais e óleos alimentares, dos países conflituantes. Países como a Eritreia, que em 2021 importou 53% do trigo da Rússia e 47% da Ucrânia. Ou como o Afeganistão, onde o regresso dos talibãs ao poder gerou uma das maiores crises alimentares do mundo. Ou como o Iémen, que devastado pela seca importa 90% dos alimentos (e 50% do trigo destes países) e tem já mais de metade da população a passar fome.

Um catalisador na “tempestade perfeita” com consequências duradouras

Neste contexto, “a Ucrânia só agravou uma catástrofe em cima de uma catástrofe”, afirmou David M. Beasley.

Em 2020, uma em cada três pessoas em todo o mundo vivia em insegurança alimentar (sem acesso a alimentação adequada). Simultaneamente, os dados mais recentes da ONU indicam que entre 720 e 811 milhões de pessoas passaram fome nesse ano, o que representa um acréscimo significativo face a 2019 (mais 161 milhões).

Após décadas em queda, este aumento da fome mundial é em parte atribuído à pandemia de covid-19. A esta somam-se eventos climáticos extremos, pragas transfronteiriças, conflitos e dificuldades em chegar às pessoas necessitadas.

Impulsionada pela mesma conjuntura, ainda antes de haver guerra na Europa, os preços dos alimentos já tinham disparado 30% durante a pandemia. Mas entre os especialistas há quem defenda que os sinais de que o sistema já estava a “rebentar pelas costuras” desde 2007, com um segundo momento crítico em 2011/2012.

“Em retrospectiva, essas tempestades podem agora parecer moderadas em comparação com as que enfrentamos em 2022”, consideram os investigadores do International Food Policy Research Institute. Por um lado, os pobres estão ainda a recuperar da crise causada pela covid-19. Por outro, os governos têm atualmente menos espaço de manobra depois do investimento em inovações digitais e na “proteção sem precedentes" providenciada a negócios e famílias durante a pandemia.

Face a um conflito que ninguém consegue prever quanto tempo vai durar, as consequências para o futuro adivinham-se duradouras. “Mesmo que um acordo possa ser alcançado no curto prazo, não será possível fugir a consequências significativas a médio/longo prazo do ponto de vista do acesso a bens de primeira necessidade, nomeadamente bens alimentares”, considera Bruno Costa.

“Esta invasão determinou uma mudança significativa nas prioridades políticas por parte de alguns Estados, bem como tem alimentado um conjunto de pretensões bélicas por parte de outros. A possibilidade de emergência de uma nova guerra fria e da afirmação de um mundo dividido em blocos ou modelos de sociedade distintos, pode contribuir para dilatar no tempo as consequências desta invasão”, argumenta o professor da UBI que considera que o conflito pode fomentar o protecionismo económico.

“Há um novo quadro político internacional, pelo que será necessário reequacionar os fluxos económicos e as alianças estratégicas, num processo com uma duração imprevisível.”

Um potencial “rastilho” para convulsões sociais

Os impactos da guerra podem ainda estender-se ao quadro político de países terceiros, como já aconteceu noutros momentos de turbulência internacional (por exemplo, no caso da Primavera Árabe).

“Sempre que o modo de vida de uma sociedade é fortemente afetado, como acontece em períodos de crise alimentar e carência económica, registam-se movimentações que abalam a estabilidade dos sistemas políticos, nomeadamente em países em que a estrutura política é já de si instável”, explica Bruno Costa.

Isto é particularmente significativo no continente africano, onde “diversos regimes e governos vivem sob alicerces muito instáveis”. “Países como a Etiópia, Burkina Faso, Somália, Tanzânia ou Sudão do Sul apresentam estruturas políticas muito débeis, com uma proporção significativa da população a viver abaixo do limiar da pobreza e fortemente dependente de programas de apoio humanitário. O aumento do preço dos cereais e a própria dificuldade em assegurar canais de distribuição pode funcionar como um ‘rastilho’ para verdadeiros levantamentos populares e fomentar alterações no quadro das lideranças políticas.”

“Se a ONU não conseguir combater a guerra, tem uma obrigação de combater a fome”

Perante este cenário, a “reação da comunidade internacional tem de ser imediata” para prevenir “uma crise humanitária de dimensão incalculável”, defende o especialista em Ciência Política.

Já Pedro Graça divide a ação necessária em dois planos. “Quando existe uma situação de carência alimentar grave não há tempo em pensar em estratégias de médio e longo prazo. A primeira coisa a fazer é distribuir comida.” Só posteriormente, quando a paz estiver garantida devem ser criados “sistemas nesses países que lhes permitam produzir um conjunto básico de alimentos que garanta a segurança alimentar”.

Citando a investigação do Nobel da Economia Amartya Sen, o especialista que leciona Política Nutricional na UP argumenta que “a fome é mais uma questão de [falta de] democracia do que uma questão de incapacidade de produzir alimentos, por enquanto no mundo atual (situação que será diferente no futuro, com as alterações climáticas)”. “Estamos sempre a falar de problemas de distribuição de riqueza que impedem que as pessoas mais carenciadas tenham alimentos ou que utilizam a alimentação como forma de fazer pressão e subjugar alguns grupos.”

Os dois especialistas defendem a necessidade de reforçar os planos de apoio a estes países no âmbito da ONU, mas também “a criação de programas de ajuda humanitária norte-sul e o desenvolvimento de programas que possam fomentar a produção agrícola nos territórios mais afetados, tal como tem alertado o Banco de Desenvolvimento Africano”.

Bruno Costa defende ainda que o “foco da ação tem de passar pela diversificação da rede de distribuição alimentar e pela criação de descontos significativos no processo de aquisição de bens de primeira necessidade por parte de países em situação de carência alimentar extrema”.

Apesar da escala do problema, Pedro Graça acredita que “a fome não é um problema insolúvel do ponto de vista do custo, principalmente se compararmos o que gastamos [a alimentar pessoas] com o custo da guerra”. “Se convertermos o custo de um barco de guerra em toneladas de alimentos, quantas pessoas podemos alimentar? Muitas.”