Guerra na Ucrânia

Wagner Group. Os "soldados-fantasma" de Putin

18 março 2022 21:48

Luís M. Faria

Jornalista

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O Wagner Group, uma entidade misteriosa cujos mercenários se encontram em vários continentes, terá enviado centenas de elementos à Ucrânia para matar Zelensky

18 março 2022 21:48

Luís M. Faria

Jornalista

Quando é que uma parte do exército russo não é parte do exército russo? Quando se apresenta de um modo que permite a chamada negação plausível. Se um governo contrata mercenários para combaterem por ele durante uma guerra sem assumir isso publicamente, quaisquer baixas que haja entre eles não são oficialmente contadas entre as baixas desse país. E o governo até pode dizer que não tem nada a ver com o assunto.

Esse é o estatuto do Wagner Group, uma entidade que tem vindo a ganhar notoriedade na Ucrânia. Já em 2014 o grupo se havia feito notar pelo apoio que deu aos separatistas de Luhansk. Agora regressou, com uns alegados quatrocentos mercenários enviados para a Ucrânia.

Segundo o governo local, uma das suas missões é a de tentar assassinar o presidente Volodymir Zelensky. Verdade ou não, este tipo de atuação do Kremlin não é novidade. Basta pensar nos 'pequenos homens verdes' que em 2014 entraram no leste da Ucrânia, e que eram membros do exército russo sem que isso fosse assumido. Putin chegou a falar em soldados que aproveitavam as suas férias para ir lá dar uma ajuda aos seus amigos russos.

Oligarcas úteis

O Wagner Group foi criado em 2014 por Dmitry Utkin, um veterano das duas guerras na Chechénia. Desde o início que a natureza das relações do grupo com o governo russo foi pouco clara, mas uma pista é o facto de os seus membros treinarem em instalações militares do país.

Outra pista será a de que os membros do Wagner Group têm passaportes emitidos pelo GRU, os serviços de espionagem militar. Os passaportes são decisivos, considerando a abrangência geográfica das atividades do grupo - da Ucrânia à Venezuela, passando por vários países africanos. Além da República Centro-Africana, o grupo tem atuado no Mali, na Líbia, em Moçambique, Síria, Sudão, defendendo interesses que, se não são sempre diretamente os do governo russo, estão praticamente sempre alinhados com as posições de Moscovo.

Há mercenários do grupo a guardarem minas de ouro e diamantes na República Centro-Africana. A indistinção entre o interesse oficial e o de alguns particulares privilegiados é comum na Rússia, desde logo pela ligação próxima do Kremlin a oligarcas que prestam serviços estratégicos a Putin e a outros membros do seu governo.

A libertação de Palmira

A seguir ao leste da Ucrânia, o Wagner Group fez-se notar na Síria, onde combateu ao lado do exército de Bashar-al-Assad e esteve diversas vezes à frente das forças que libertaram cidades tomadas pelo Daesh, entre estas Palmira. Por essa altura, o Wagner Group já tinha uma capacidade autónoma considerável, com brigadas de carros de combate e batalhões de 400 soldados, bem como uma unidade de drones.

O facto de não surgir identificado como parte do exército russo gerou situações potencialmente perigosas de confrontação com os militares norte-americanos, aliados de grupos curdos na região. De qualquer forma, como não são oficialmente soldados russos, o Kremlin não tem a obrigação formal de responder quando são mortos num bombardeamento, por exemplo.

As famílias recebem uma indemnização de dezenas de milhares de dólares, na condição de respeitarem os termos do acordo de confidencialidade assinados pelos soldados quando se alistam.

Onde estão afinal os nazis?

Em 2016, Dmitry Utkin visitou o Kremlin e soube-se que já era detentor de quatro Ordens da Coragem. Curiosamente, a sua admiração pelo nazismo - diz-se que tem tatuagens nazis e o seu grupo foi batizado com o nome do compositor favorito de Hitler - não impediu Putin de o receber. Irónico, dado que Putin apresenta agora a "desnazificaçao" como um objetivo chave da guerra que lançou na Ucrânia.

Não obstante a notoriedade de Utkin, o verdadeiro dono do Wagner Group será um oligarca chamado Yevgeny Prigozhin, alcunhado como 'o chefe de Putin' pelo facto de o presidente russo ter tido em tempos o hábito de frequentar os seus restaurantes com dignitários estrangeiros de visita.

Tendo passado anos na cadeia durante a sua juventude por uma variedade de crimes, desde roubo a fraude, Prigozhin embarcou depois numa carreira de empresário e teve grande sucesso nos tumultuosos anos Iéltsin. Restaurantes, catering e casinos são algumas das suas áreas, a par com empreendimentos mais suspeitos, entre eles a Internet Research Agency, uma rede de empresas alegadamente dedicadas ao trolling que terão tentado influenciar as presidenciais de 2016 e outras eleições nos EUA.

Aliados desde há muito

Alvo de sanções internacionais e de acusações criminais nos EUA, Prigozhin aparece numa famosa fotografia de 2011 a servir pessoalmente num dos seus restaurantes o presidente Putin, que parece torcer o nariz. O motivo das sanções não será certamente esse, mas a imagem é uma boa metáfora daquilo que se presume ser a relação entre os dois homens.

Trabalham juntos desde os tempos de Putin na câmara municipal de São Petersburgo e terá sido a Utkin que o presidente encarregou de liderar o grupo de "soldados-fantasma" que agora andarão à caça de Zelensky.

Num filme lançado em 2018, que é um vídeo de promoção do grupo, as atividades na República Centro-Africana são apresentadas em tom épico. Segundo a BBC, aquilo que o filme descreve como "instrutores militares" é bastante mais. Não se limitam a treinar, mas combatem, matam e morrem. Por detrás de tudo isto, estão os recursos naturais em que o país é rico.