Guerra na Ucrânia

China-Estados Unidos: o diálogo continua, a tensão e os negócios também

15 março 2022 11:46

António Caeiro

Jake Sullivan na Casa Branca, em fevereiro de 2022

leah millis

Numa aparente tentativa de desdramatizar a tensão, ambas as partes referiram que a “intensa” reunião de ontem, em Roma, “estava planeada” desde a cimeira virtual entre os Presidentes dos dois países, em novembro passado

15 março 2022 11:46

António Caeiro

O chefe da diplomacia chinesa, Yang Jiechi, e o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, estiveram reunidos esta segunda-feira durante sete horas em Roma, num encontro descrito por ambas as partes como “franco”. Coincidiram no adjetivo, mas no resto nem por isso.

“Estamos muito preocupados com o alinhamento da China com a Rússia”, disse um destacado funcionário norte-americano. “China e Estados Unidos mantêm diálogo, mas ’sem respeito, não há cooperação’”, resumiu um jornal do Partido Comunista Chinês.

A reunião não começou bem. Na véspera, funcionários não identificados da Administração Biden disseram que a Rússia pediu ajuda militar à China, o que seria prontamente desmentido pelos dois países. O próprio Jake Sullivan, em declarações a uma estação de televisão norte-americana, advertiu a China que sofreria “consequências” se ajudasse a Rússia a minorar os efeitos das sanções decretadas pelos Estados Unidos e os seus aliados. Segundo o relato da agência noticiosa oficial chinesa, Yang Jiechi salientou ao seu interlocutor a “firme oposição da China a quaisquer palavras e ações que difundam falsa informação, distorçam ou descredibilizem a posição chinesa”.

Quanto à situação na Ucrânia, que não foi o único tema da longa reunião, Sullivan destacou “a unidade dos Estados Unidos e dos seus aliados e parceiros para fazer a Rússia pagar pelas suas ações”, indicou um porta-voz norte-americano. Yang Jiechi, por sua vez, afirmou que “a China está empenhada na promoção de conversações de paz entre a Rússia e a Ucrânia”, realçando que Pequim “respeita a soberania e integridade territorial de todos os países”.

Numa aparente tentativa de desdramatizar a tensão, ambas as partes referiram que a “intensa” reunião de ontem “estava planeada” desde a cimeira virtual entre os Presidentes dos dois países, em novembro passado.

Mais pragmático do que ideológico, um jornal oficial chinês concluiu que “as diferenças não permitirão que a 1.ª e a 2.ª economias mundiais cortem os canais de comunicação, visto que há muitas questões em que ambos as partes partilham preocupações comuns”. O comércio entre a China e os Estados Unidos continua, aliás, a crescer e no plano económico, a interdependência é flagrante.

Pelas contas norte-americanas, em 2021 houve mesmo um aumento de cerca de 17%, atingindo 657.431 milhões de dólares – quase cinco vezes mais do que o comércio entre a China e Rússia, dois países que, além da comum oposição a “um mundo unipolar liderado pelos Estados Unidos”, partilham uma fronteira com 4.700 quilómetros de extensão.