Guerra na Ucrânia

É a Rússia um sistema totalitário?

10 março 2022 9:43

A fé no chefe liberta as pessoas – os russos – do uso da razão e do fardo do livre arbítrio, não têm de verificar factos, não têm de questionar moralmente as ações do poder. É um descanso, o descanso fascista, o conforto totalitário que abole o juízo moral

10 março 2022 9:43

Com o cancelamento do que restava da imprensa livre, a pergunta faz sentido: está a Rússia a evoluir da autocracia para a autocracia absoluta e totalitária? Se usarmos os quatro critérios de Timothy Snyder em “On Tyranny”, sim, estamos perante um sistema totalitário que despreza a verdade de quatro formas diferentes.

Em primeiro lugar, é hostil à verdade verificável dos factos. É por isso que fechou todos os média independentes que restavam. É por isso que diz que são os ucranianos que estão a destruir a Ucrânia só para difamar a Rússia. É por isso que diz que o hospital pediátrico era uma sede secreta de tropas. É por isso que abre cordões humanitários para depois bombardear esses mesmos cordões numa demonstração grotesca de crueldade. Quem despreza a verdade dos factos acaba por desprezar qualquer verdade moral. Não é possível falar ou dialogar com alguém tão amoral.

Em segundo lugar, a fuga dos factos cria uma bolha surreal, um mundo fantasioso onde se fala a novilíngua oficial. Só se pode falar através desta novilíngua. A guerra é “operação de paz”, o governo democraticamente eleito pelos ucranianos é “nazi” ou “nacionalista”. É um mundo imaginário que é repetido vez após vez nos canais de propaganda. E, neste momento, só há propaganda na Rússia. Não há jornalismo, não há oposição, não há contraditório.

Em terceiro lugar, nasce um pensamento mágico na própria população, que, consciente ou inconscientemente, pensa nos termos místicos transmitidos pelo poder. As pessoas, estou certo, percebem que alguma coisa não está bem. E isso gera-lhes desconforto, mas esse desconforto é anulado pelo pensamento mágico que força um seguidismo.

Em quarto lugar, o seguidismo cria uma fé sagrada no chefe. A verdade deixa de ser factual e passa a ser oracular. Só aquilo que é dito pelo chefe e pelo respetivo ‘Pravda’ é que pode ser verdade. As provas são irrelevantes, porque os factos trazem uma validação universal e objetiva que não precisa da magia oracular do chefe. Uma moral humanista universal que vigie e puna as ações do chefe também é irrelevante, aliás, é “lixo ocidental” que conspurca o oráculo perfeito da Mãe Rússia. A fé no chefe liberta as pessoas – os russos – do uso da razão e do fardo do livre arbítrio, não têm de verificar factos, não têm de questionar moralmente as ações do poder. É um descanso, o descanso fascista, o conforto totalitário que abole o juízo moral.

Neste momento, a Rússia é um pós-verdade fascista capaz de bombardear hospitais de crianças para logo a seguir dizer que o dito hospital era na verdade um campo de treino militar. A minha grande esperança é que do ponto de vista material e militar a Rússia é um urso de papel. A guerra está a ser um desastre russo absoluto. O massacre de civis é um paradoxal exemplo da fraqueza da Rússia. O que devia ter sido uma operação de dois ou três dias está a entrar na terceira semana. É esta a grande diferença entre esta Rússia e a Alemanha do passado. Hitler controlava o Estado mais pujante na economia e na ciência. A Rússia é uma Arábia Saudita com gelo no lugar da areia. Não aguentará isto durante muito tempo.