Guerra na Ucrânia

A invasão russa da Ucrânia, dia 9: resistência civil nas cidades ocupadas e o mistério da coluna militar parada às portas de Kiev (será fragilidade ou estratégia?)

4 março 2022 16:23

A coluna militar russa com 64km de comprimento continua sem avançar sobre a capital ucraniana: o exército russo pode estar com pouco combustível, mas o compasso de espera também poderá ser tático. A sul, Mariupol está debaixo de fogo – e com falta de água, eletricidade e comida

4 março 2022 16:23

“O principal objetivo do inimigo continua a ser o cerco de Kiev e o enfraquecimento da resistência nas zonas cercadas”, resumiu esta sexta-feira o Ministério da Defesa da Ucrânia numa atualização das operações militares russas. A coluna militar do exército da Rússia – que terá cerca de 64 km de comprimento – continua parada há vários dias a cerca de 25 km da capital ucraniana, mas na tarde desta sexta-feira já foram reportados ataques aéreos próximos do centro da cidade. 

Mas porque é que a ocupação terrestre ainda não avançou? Segundo a Associated Press (AP), a paralisação deve-se à escassez de combustível para os veículos militares russos, à falta de comida e mantimentos para as tropas invasoras, e também a condicionantes climáticas – incluindo a existência de lama no trajecto. A estas dificuldades “logísticas” junta-se o facto de o exército russo aparentar ser relativamente inexperiente neste tipo de ações militares. Além disso, as tropas ucranianas conseguiram atacar e destruir vários veículos que estão na frente da coluna, atrasando ainda mais a progressão russa.

Será isso suficiente para impedir que o exército de Putin tome de assalto a capital ucraniana? Os especialistas consideram que não. “Eventualmente, os russos vão conseguir desgastar as forças ucranianas” e tomar Kiev, garante Mason Clark, um analista do Instituto de Estudos da Guerra, nos EUA, citado pela AP. 

Ao mesmo tempo, não está completamente posta de parte a hipótese de este atraso ser parte do plano militar: os comandantes russos poderão estar a parar a marcha de forma deliberada, permitindo a chegada de mais mantimentos para depois avançar sob Kiev. 

O ataque a Kiev pode estar neste momento em suspenso, mas a ofensiva russa continua em várias outras cidades ucranianas. Kharkiv, próxima da fronteira russa, continua a ser bombardeada durante esta sexta-feira, isto depois de ontem bombardeamentos russos terem matado 37 pessoas e destruído uma grande parte da cidade. 

Por outro lado, hoje ainda não foram reportados quaisquer ataques russos em Chernihiv, cidade no norte do país (junto à fronteira com a Bielorrússia) onde ontem bombardeamentos mataram pelo menos 47 pessoas, segundo informações atualizadas das autoridades médicas ucranianas. 

Também não há notícias de novos ataques junto à central nuclear de Zaporizhzhia, onde ontem deflagrou um incêndio que provocou várias vítimas mortais e feridos, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia. Segundo a BBC, os funcionários da central estão a monitorizar as instalações com o objetivo de garantir que estas estão a operar em segurança e com níveis de radiação dentro dos padrões normais. 

“A Rússia empreendeu conscientemente um ataque armado à central nuclear, uma ação que violou todos os acordos internacionais da AIEA [Agência Internacional de Energia Atómica]”, diz o Governo ucraniano em comunicado. A zona já está sob o controlo de Moscovo: as tropas russas tomaram o centro de Enerhodar, a cidade mais próxima da central nuclear, embora os habitantes locais estejam a sair à rua em protesto contra a ocupação.

A situação no sul do país parece mais preocupante. “O inimigo está a tentar manter o cerco à volta da cidade de Mariupol com a ajuda de seis batalhões tácticos”, sublinha a Defesa ucraniana. Mariupol continua debaixo de fogo: a cidade não tem água nem eletricidade e está quase a ficar sem comida, segundo o autarca local. Mariupol está situada a sul da região separatista de Donetsk, já há vários dias ocupada pelas tropas russas mas onde a resistência ucraniana continua presente: aliás, tendo em conta as baixas no terreno, a Rússia está a deslocar mais soldados para a estação de comboios de Ilovaisk, a cerca de 40 km de Donetsk. 

Para já, há duas cidades tomadas pelo exército russo: Kherson e Melitopol, ambas no sul do país e no prolongamento da região da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. No entanto, nestas duas cidades ocupadas há civis ucranianos que continuam a organizar manifestações pacíficas contra os invasores – ao mesmo tempo que a Rússia não aceitou criar um corredor humanitário em Kherson para acudir os feridos.

Ainda relativamente a Kherson, a Defesa ucraniana faz um alerta: há um grupo de cidadãos pró-russos acompanhados por cerca de 80 representantes da propaganda do Kremlin que estão neste momento na Crimeia, mas que nos próximos dias deverão ser deslocados para Kherson com o objetivo de organizar “manifestações falsas” a favor da queda do governo ucraniano – e assim “legalizar a ocupação.”

As informações mais recentes apontam ainda que o exército russo terá chegado pela primeira vez à cidade de Izyum, a cerca de 200 km a norte de Donetsk. “A batalha está a decorrer”, aponta o blogue ucraniano de informação militar “Military Land.”

Junto ao Mar Negro, no sul do país, a marinha russa iniciou combates contra a marinha ucraniana, “mas frequentemente são barcos civis e as suas tripulações que se tornam vítimas dos piratas russos”, denuncia a Defesa da Ucrânia. O objetivo de Putin é assegurar o controlo de toda a costa do Mar Negro, e o plano é colocar operacionais da marinha no empreendimento de Zatoka, a 40 km da cidade já ocupada de Chornomorsk.