Guerra na Ucrânia

Espanha destaca para a Ucrânia quatro caças bombardeiros, três navios de guerra e 780 militares

28 fevereiro 2022 19:16

Pedro Sánchez. FOTO | JON NAZCA/POOL/AFP via Getty Images

Unanimidade política e solidariedade dos cidadãos na condenação da invasão russa

28 fevereiro 2022 19:16

Espanha propôs à União Europeia o encerramento de todos os portos marítimos continentais aos navios de bandeira russa ou propriedade de armadores desta nacionalidade que pretendam atracar, reabastecer combustível ou abastecerem-se de víveres em instalações portuárias da Europa comunitária. Esta proposta, que será estudada nas próximas horas, pretende apertar ainda mais o cerco de sanções a todos os níveis que as nações ocidentais, e especialmente as europeias, estão a utilizar como modo de pressão para que Moscovo retire as suas tropas da Ucrânia invadida.

O governo espanhol assumiu esta segunda-feira mesmo outra decisão semelhante, já adoptada pela UE: o encerramento do espaço aéreo a aviões de companhias russas e a proibição de as aeronaves com esta bandeira aterrarem em aeroportos nacionais. Duas companhias, a Aeroflot e a Siberia Airlines, sobrem regularmente os trajectos entre Moscovo e Madrid, Barcelona, Valência, Alicante e Málaga. Os aeródromos espanhóis também são muito frequentados por aviões privados que são propriedade de magnatas e oligarcas russos, visitantes habituais das zonas turísticas. A Rússia respondeu com a mesma proibição a aviões dos países que aderiram a esta medida de coacção.

Esta não é a única contribuição espanhola para a causa ocidental contra a arbitrária decisão de Vladimir Putin de atacar um país soberano como a Ucrânia, que já vive um drama humanitário de grandes proporções. As forças armadas formam uma parte muito activa dos dispositivos de vigilância e defesa activados pela NATO nas zonas quentes. Neste momento, 784 oficiais e soldados espanhóis estão destacados em diferentes missões na Letónia, na Lituânia, na Bulgária e na Turquia, além de uma notável presença de navios de guerra em missões de vigilância e dissuasão no Mar Negro.

Na Letónia, em concreto, o Exército de Terra tem 350 militares na base de Adazi, que fazem parte da Missão de Reforço de Fronteiras da Aliança Atlântica. Estas forças estão dotadas de carros de combate Leopardo 2, veículos blindados Pizarro para infantaria, Transportes de Oruga Couraçados TOA 113, e dispõem de mísseis anticarro Spike. Na Turquia há um destacamento militar espanhol desde Dezembro de 2014 instalado na base de Incirlik, dotado com mísseis Patriot.

Desde há menos de quinze dias foram enviados quatro caças bombardeiros Eurofighter para a base de Graf Ignatievo, na Bulgária, com 130 efectivos entre tripulações e assistências, tendo como objectivo mitigar as deficiências da defesa aérea deste país. Uma missão similar foi atribuída a aviões espanhóis no ano passado, na Roménia. Seis aviões espanhóis da mesma classe (Espanha dispõe, no total, de 70 aparelhos Eurofighter) instalaram-se na base aérea de Mihail Kogalniceanu e realizaram 400 voos de apoio, vários deles em resposta a provocações da aviação russa. Desde há vários anos que o Exército do Ar espanhol participa de forma rotativa na missão da NATO no Báltico, para dar protecção às repúblicas deste mar, a Estónia, a Letónia e a Lituânia.

No âmbito marítimo, Espanha deslocou para o Mediterrâneo e o Mar Negro uma das cinco jóias da sua frota, a fragata “Blas de Lezo”, provida do avançado sistema de combate Aegis, que leva a bordo 220 militares. Outro navio da armada espanhola, o “Meteoro”, comanda a frota anti-minas destacada na área pela NATO e também foi enviado o caça-minas “Sella”. Estes barcos, com 306 marinheiros no total, estão apoiados por um navio de aprovisionamento de combate.

Orçamento baixo

Os contributos espanhóis compensam de certa maneira a escassa participação do país no orçamento geral da NATO, circunstância que em diversas ocasiões gerou reprovação por parte dos aliados. Espanha destina a gastos de defesa 1% do seu PIB, metade da média dos países membros da Aliança. Em Junho próximo, se as circunstâncias não obrigarem a alterar a data, irá celebrar-se em Madrid uma crucial reunião plenária da NATO, que deverá redefinir os seus objectivos e estratégias e procederá à substituição do actual secretário-geral, Jens Stoltenberg. No campo das ajudas à Ucrânia que as nações europeias estão a planificar, Espanha enviará material defensivo (capacetes, coletes anti-balas, detectores de minas…) e sanitário (kits de primeiros socorros, máscaras, máscaras anti-gás…). Já saíram dois aviões com cerca de 20 toneladas deste material, que foi enviado para aeroportos polacos, onde será recolhido depois pelas autoridades ucranianas. A ministra da Defesa, Margarita Robles, que foi assistir à partida de um destes envios aéreos, insistiu em que Espanha contribuirá com “material e medidas de dissuasão e defesa, em nenhum caso ofensivas”.

Entretanto, as autoridades autonómicas e municipais preparam-se para uma eventual chegada de exilados ucranianos e de feridos em combates. A comunidade de Madrid pôs à disposição o Hospital Zendal, construído em tempo recorde no princípio da pandemia de coronavírus e que pode disponibilizar 700 camas em menos de 24 horas. Várias cidades já anunciaram que dispõem de habitações para acolher famílias de refugiados. Vivem em Espanha 115 mil ucranianos, 24 mil deles em Madrid e seus arredores. Muitos dos homens desta colónia viajaram para Kiev (que dista 3700 quilómetros da capital espanhola) para se incorporarem nas milícias que estão a defender o seu país da agressão russa, deixando aqui as suas famílias. Espanha, por outro lado, conseguiu evacuar com êxito, em comboios organizados por estrada, quase 350 espanhóis residentes na Ucrânia, dos 436 nacionais inscritos no consulado, além do pessoal diplomático destacado neste país eslavo.

A solidariedade dos cidadãos mobilizou-se desde o princípio do conflito, não somente com a oferta de ajudas económicas ou em espécie, mas com manifestações de repúdio à invasão russa na maioria das capitais e povoações. Resgatou-se o velho lema de “Não à guerra”, profusamente utilizado contra o governo de José María Aznar pela sua participação activa juntamente com os Estados Unidos e o Reino Unido por ocasião da guerra do Iraque em 2003. O conflito está a conseguir gerar uma rara unanimidade nas forças políticas espanholas, após algumas vacilações iniciais. O socialista Pedro Sánchez, chefe do Executivo, não tem dúvidas em qualificar Putin como “sátrapa” e assegura que a Europa unida não lhe permitirá que “leve a sua avante”. Os seus parceiros de governo do Unidas Podemos (UP, populistas de esquerda), com forte presença do Partido Comunista, estão a pronunciar-se no mesmo sentido de maneira terminante. A vice-presidente Yolanda Díez qualificou como “intolerável agressão de Putin” a invasão da Ucrânia, enquanto o secretário-geral da Esquerda Unida/PCE, também ministro do governo Sánchez, exprimiu sem paliativos a sua condenação da acção russa, “uma atitude imperialista próxima do czarismo”.

Do ponto de vista económico, os analistas estimam que as consequências da crise suscitada pela invasão russa da Ucrânia começarão a ver-se muito em breve. Os mercados bolsistas estão muito afectados e já se nota uma desaceleração no processo de recuperação da economia espanhola, que atinge 7,4% de inflação. Espanha não terá problemas de abastecimento de gás (somente 6% provém da Rússia), mas notará a repercussão nos preços da energia. Há 15 mil empresas espanholas que mantêm relações comerciais com a Rússia e a Ucrânia, com um volume de negócios de quase 12 mil milhões de euros.

Como é habitual, as situações mais conflituosas dão sempre lugar a episódios surpreendentes. Hoje soube-se que um engenheiro ucraniano, Taras Ostapchuk, que tem a seu cargo o megaiate propriedade do magnata russo Alexander Mijees, dono de una holding de venda de armas em todo o mundo chamado Rostec, tentou afundar nas águas do porto de Palma de Mallorca (Ilhas Baleares) o barco do seu patrão, que estava fundeado naquele porto. Taras, denunciado por outros membros da tripulação, não conseguiu cumprir a sua represália, foi detido e libertado sob acusação e já viajou para o seu país para empunhar armas em defesa deste.