Guerra na Ucrânia

Putin quer estatuto dos czares: “Todos ganharam o cognome ‘o Grande’ porque expandiram a Rússia”

25 fevereiro 2022 19:36

A investigadora do MIT Elizabeth A. Wood defende que o que move Vladimir Putin é a vaidade e o ego. A professora de História e autora do livro “Roots of Russia’s War in Ukraine” também não poupa o Ocidente, acusando-o de inferiorizar e abalar a auto-estima dos russos

25 fevereiro 2022 19:36

Em 2016, quando escreveu “Roots of Russia’s War in Ukraine”, Elizabeth A. Wood estava longe de imaginar que o conflito comandado pelo Kremlin ganhasse estas proporções. A autora e investigadora do MIT lamenta que o Ocidente tenha desprezado o orgulho eslavo muitas vezes, mas acredita que agora Putin está imparável e que o seu combustível é a vaidade e a forma como será lembrado. A Rússia há muito que não é uma democracia, garante a historiadora norte-americana.


Acreditava que esta guerra estava para acontecer? E acreditava que se desenrolaria nestes termos: com a ocupação da Ucrânia?

O que é interessante é que eu falei com muitos especialistas e eles estavam divididos. Muitos pensavam que já não havia qualquer razão para isso. As pessoas da área da diplomacia acreditavam que tudo isto era ‘show-off’.

Eu, honestamente, tenho de dizer: não esperava. Os sinais eram muito contraditórios. Penso que esta é uma parte importante desta história: hoje penso que o objetivo é mesmo recuperar a Ucrânia. Até ao último momento, a Rússia fez a declaração clara de que não invadiria a Ucrânia, mas acredito hoje que todas as negociações eram falsas. Toda a discussão em torno da expansão da NATO foi uma forma de ganhar tempo para ir recrutando cada vez mais tropas.

Tudo isto tem que ver com uma Rússia imaginada, maior, que inclua a Ucrânia. Há recursos concretos que se pode ir buscar ao tomar a Ucrânia, e há a glória imaginada da recuperação do território.

A inclusão da Ucrânia na União Europeia seria uma confusão no que diz respeito ao estabelecimento de fronteiras para o comércio e para os impostos. Isso não é do interesse da Rússia. Há, de facto, muitas formas de ver isto. No entanto, neste momento, acredito que o que move Putin não é a glória da nação, mas a glória pessoal. Preocupa-o o que dirão dele daqui a alguns anos. Assim que anexou a Crimeia, atingiu um estatuto, e, à volta dele, o seu círculo mais restrito começou a falar dos czares russos que eram denominados ‘os Grandes’. Todos os czares com esse cognome foram chamados dessa forma porque expandiram a Rússia. Foi assim que ganharam o título. Por isso, acredito que este Presidente pensa que os russos o elevarão, bem como à sua administração, a esse nível. 

A Ucrânia é muito rica em recursos, como o titânio, o urânio, o magnésio, o ferro e mesmo o milho. Com todos estes recursos, completar a ocupação pode compensar para a Rússia, mesmo com os prejuízos provocados pelas sanções?

Penso que não. A reconstrução da Ucrânia vai ser muito cara. A Crimeia tem saído muito cara à Rússia, desde a anexação. Um dos problemas da Crimeia é que tinha água, mas, mal ocorreu a invasão, a Ucrânia cortou o canal.

Acredito que os custos serão muito elevados para a Rússia. Infelizmente, acredito que a ocupação é muito mais uma vingança contra a Ucrânia, uma forma de castigar o país, e isso é de loucos. Decisões como esta fazem com que a aprovação de Putin, junto da população russa mais jovem, seja baixa. 

E, como dizia, os custos são elevados. Se se destrói um aeroporto antes, depois não o podemos usar. Se destruirmos edifícios e cidades, não nos valem de nada. Quem vai recuperar tudo isto? Onde estão o conhecimento e os profissionais qualificados? 

Ainda é possível manter a dúvida sobre se a Rússia é um Estado democrático? E, mesmo apoiando-se na retórica antiga da União Soviética, ainda se pode falar de um Estado comunista?

Não é, nem uma democracia, nem um Estado comunista. Já não é uma democracia provavelmente desde a eleição de 2008. O facto de o Kremlin não autorizar que seja quem for se manifeste contra o regime… Olhamos em volta, e tudo se baseia no poder militar. É um país militar sem qualquer controlo civil sobre o poder bélico. A população não exerce qualquer controlo.

E, se olharmos para a escalada: primeiro, perseguiram os ‘media’, depois foram atrás do Parlamento, depois, dos oligarcas… Não é acidental o corte que tem vindo a ser feito, ao longo do último ano, no círculo mais próximo. 

Qualquer argumento na linha de ‘isto foi uma reação ao que aconteceu na Ucrânia’ é claramente… Como disse ontem o Presidente Biden, foi premeditado. Foi um ataque premeditado. 

Os russos que se manifestam contra esta decisão enfrentam grandes penalizações. Recuando muitos anos, podemos dizer que historicamente o preço da manifestação na Rússia sempre foi muito elevado. Se não nos podemos manifestar, não podemos impelir a mudança. Se não o podemos fazer, não temos uma democracia. Está muito longe de ser uma democracia. 

O círculo de Putin é uma máquina de propaganda política, mas que não permite que se discorde da sua forma de fazer política. Em democracia, temos de poder discordar.

O nacionalismo e a ideia da humilhação do império foram, no passado, usados como argumentos para justificar Guerras Mundiais. Este conflito tem potencial para escalar até esse ponto?

Sim. Ontem falei com russos pró-guerra e contra a guerra. Os que estão a favor acreditam que esta é, sem dúvida, a guerra mais importante. A propaganda política russa faz isso. O Ocidente cometeu um grande erro nos anos 1990, declarando o triunfo sobre o comunismo, e esquecendo que o comunismo não é só uma ideologia, é também uma forma de vida. O comunismo passava por garantir escolas, educação e apoios. O Ocidente considerava que o comunismo significava viver na pobreza e acreditava que isso era pouco. Os russos ainda se sentem profundamente humilhados por essas considerações. Foi como um joguinho de escola. ‘Não, não, nós ganhámos.’ Esse foi um profundo, profundo erro.

Desde 1949, a NATO não iniciou ações militares de ataque, mas fez uma intervenção na Jugoslávia, em 1999. Ao mesmo tempo, Boris Iéltsin [ex-Presidente russo] estava a ser investigado por corrupção. Ele não podia ser deposto pelos seus opositores, não podia ser derrotado nas eleições. O que tinha de acontecer era os russos terem um homem forte para derrubar os inimigos políticos.

Mais tarde, escolheram este homem, que herdou a narrativa da humilhação, que acredita que todos os povos eslavos devem ser apenas um. O que interessava era que tinham sido humilhados pelo Ocidente, não interessava garantir os direitos humanos, não interessada o que o líder fazia. 

Na altura da intervenção, eu disse que o Ocidente deveria deixar o conflito ser resolvido pelos países da região. Falaram-me dos direitos humanos, mas não se ganha uma guerra assim, só por pouco tempo. A história de que os Estados Unidos querem dominar a Ucrânia e o território não tem adesão à realidade. Acredito mesmo que não.

Portanto, quando declararam que ‘a democracia venceu’… Isso não é verdade. O comunismo falhou devido aos padrões estabelecidos pela Rússia, mas o Ocidente não venceu.

Não sei como este conflito vai evoluir, porque os objetivos de Putin são, em parte, imprevisíveis. 

Putin é imprevisível? O perfil de calculista e frio já não é o que lhe assenta melhor? Os russos sabem quem é o seu Presidente?

O que aconteceu com os czares, com os líderes soviéticos, foi que eles começaram por querer abertura. Começaram o seu percurso querendo uma ligação com o Ocidente, mas, de alguma forma, o Ocidente acaba por fazer a Rússia sentir-se inferior. Em vez de reconhecer qualidades positivas, como a hospitalidade russa, o Ocidente aponta as falhas. E isso provoca reações nos líderes que historicamente se têm repetido. É o seu país, e eles são responsáveis por ele.

Os líderes russos têm aversão à ideia do controlo norte-americano, e a propaganda russa só transmite tudo o que de ‘assustador’ há no Ocidente. A isso junta-se a falta de democracia. Putin não gosta de campanhas, não gosta do Parlamento, não gosta de debates. Inicialmente, era mais aberto em relação ao Ocidente, e tinha um gabinete mais vasto e plural. Gradualmente o seu clã, a sua tribo, foi mingando, e tudo foi piorando. Ele fecha-se no gabinete sem mais ninguém com quem falar a não ser essas pessoas. 

Quando ele se aventurou na Geórgia e quando anexou a Crimeia, ainda tinha pessoas ao seu redor que apontavam dedos. Agora esse grupo de pessoas é muito restrito, e isso torna tudo muito mais perigoso.

O que poderia abalar o seu ego de ‘conquistador’ e fazê-lo parar?

Putin acredita que tem dinheiro suficiente, mas os russos vão acabar por tirar o seu dinheiro dos bancos, e isso não é sustentável. Os oligarcas vão ficar zangados, porque assim as empresas não podem funcionar.

A exclusão do sistema financeiro SWIFT poderia ajudar, mas o que poderia mesmo abalar o seu ego seria a exclusão das Nações Unidas.

Putin tem mentido, mentido, mentido. ‘Não temos tropas.’ Estava a recrutar exército. ‘Vamos retirar as tropas.’ Aumentam as tropas na Ucrânia. ‘Não vamos atacar a Ucrânia.’ Ataque à Ucrânia. Nunca mais acreditarão nele.

Todos temos desejos. Ele quer segurança? Ainda não foi capaz de verbalizar corretamente. Ele quer a Ucrânia? Acabou de queimar todas as pontes diplomáticas com a Ucrânia, já não as pode ter. 

Os russos, a população russa, não querem esta guerra. Em russo, dir-se-ia que que os militares estão a ser usados como “meat for the canon”. Qual é a expressão para isto em português?

Carne para canhão.