Guerra na Ucrânia

Defender militarmente a Ucrânia não é só um imperativo moral, é uma necessidade vital

25 fevereiro 2022 15:28

Se o Ocidente não matar as pretensões do eixo Sino-Russo, o eixo Sino-Russo pode matar o Ocidente. A defesa militar da Ucrânia tem de ser um imperativo moral para os idealistas, e é seguramente uma necessidade vital para os realistas. Infelizmente, dificilmente palavras e boa vontade vencerão a hediondez da maldade personificada e militarmente armada; do outro lado, nem palavras nem boa vontade serão expectáveis

25 fevereiro 2022 15:28

Até onde vai a libido dominandi de Putin? Nas suas declarações de segunda-feira passada, vai pelo menos até ao coração da nossa comunidade de paz, ao âmago da nossa segurança, ao quotidiano do nosso estilo de vida, enquanto filosoficamente incinera os escritos de Kant. Ou acabamos com ele agora, ou ele acaba connosco depois.

O sempiterno debate em Relações Internacionais entre idealistas e realistas parecia ter chegado ao fim. Com a ilusão – benemérita, é certo – de que os quatro cavaleiros do Apocalipse tinham sido praticamente derrotados, acordámos na passada 5.ª feira com a certeza de que essa ilusão nada mais é, afinal, do que uma ilusão. A realpolitik, onde imperam os interesses dos Estados, ganhou má fama nas últimas décadas, onde a cooperação internacional e os desafios à escala planetária – desde logo com a questão das alterações climáticas – ocuparam a agenda, tudo isso amplificado pela perda de memória de conflitos armados, por uma geração que nunca os viveu, e que tomou a paz por garantida.

Vários foram os argumentos benevolentes, e em certa medida acertados, para a consolidação dessa tese: a economia deixou de estar sobretudo centrada em bens tangíveis para passar a assentar em bens intangíveis, o custo da guerra passou a ser superior aos ganhos da paz – morriam menos pessoas em conflitos armados do que por suícidio, morriam menos pessoas de fome do que por excessos alimentares -, e também, seguramente, pela avaliação moral de que a guerra é errada: pela morte, pela supressão dos direitos humanos e pela miséria que causa. Isto é resultado dos méritos da globalização, méritos esses que os neo e os velhos nacionalistas, os amantes de autocracias e ditaduras, e os inimigos do liberalismo – de esquerda e de direita – sempre quiseram pôr em causa.

Porém, esta ilusão alicerça-se em dois equívocos: o primeiro, é o que de que o que desejamos é igual ao que temos – confundir ideologia com realidade deu sempre mau resultado; o segundo, a de que o realismo, como escola de Relações Internacionais, na oposição que faz ao idealismo é uma defesa activa e malévola da militarização, quando na verdade se trata apenas da constatação da inexorabilidade do real, e de se preparar para ele. Se dúvidas persistirem sobre esta matéria, os incumprimentos orçamentais para com a NATO dos Estados europeus, ante sucessivas queixas dos Estados Unidos, pelo menos desde Obama, são disso prova evidente.

Não vos vou maçar com citações do diálogo dos Mélios, na História da Guerra do Peloponeso, escrita por Tucídides há 2.500 anos, como se o atroz might is right não tivesse sido, desde sempre, a lei que imperou na História da Humanidade, mas vou lembrar que a ausência – inviável? – de uma ordem mundial com poder suficiente para se impor aos Estados soberanos, nos deveria ter amainado as ilusões.

Hoje, quase 80 anos depois, temos uma guerra na Europa com um potencial de escalada planetária. Dito de outra forma, podemos estar na antecâmara da III Grande Guerra Mundial. Já lá vou, mas antes uma breve súmula dos acontecimentos que nos deveriam ter

prevenido o suficiente, para já termos tomado medidas e para não nos termos surpreendido agora.

Não por acaso, a cadência de Niemöller (e não de Brecht) volta a fazer sentido hoje, mais do que todas as vezes que no passado foi relembrada. Primeiro, foi a Geórgia, e o apoio aos separatistas da Ossétia do Sul e da Abecásia. Depois, foi a Crimeia. Depois, foram as movimentações da frota russa do Pacífico e do Ártico para o mar Egeu. Depois, foi a utilização de Sebastopol, precisamente na Crimeia, como base para a frota no Mar Negro. Pelo caminho a dependência energética da Turquia – membro essencial da NATO – face à Rússia, e o que isso, somado à natureza, digamos apenas iliberal de Erdogan, significa no que ao controlo do Bósforo e de Dardanelos diz respeito. Pelo caminho ficou também o caso Navalny, o seu envenenamento e a morte “súbita” do médico que o assistiu, ou o envenenamento de Skripal e sua filha em território britânico. Pelo caminho ficou o Nordstream e a dependência energética e a ambiguidade política da Alemanha nesta matéria, pelo menos desde que Gerhard Schröder (do SPD) transitou da chefia do governo alemão para a Gazprom. Pelo caminho, enquanto a dependência energética face à Rússia aumentava, a desactivação das centrais nucleares na Europa. Pelo caminho, as dependências orçamentais – e daí uma vulnerabilidade política – de vários estados membros da União Europeia face à Rússia, com a compra de dívida pública daqueles por parte desta. Pelo caminho os exercícios militares – os maiores desde o tempo da URSS – conjuntos entre Rússia e China, em 2018.

Vou poupar-vos às comparações com a ocupação dos Sudetas em 1938 pelos nazis, e com a tibieza bem intencionada de Chamberlain nessa matéria. Mas, esta história, esta, não a de 1938, culmina, ao dia de hoje, com a recente tomada de partido unilateral por parte da Rússia de apoio aos separatistas do Donbass – Donetsk e Luhansk – e da invasão da Ucrânia. Vou poupar-vos às comparações com os pactos entre a Alemanha nazi e o Japão, em 1936 e 1941. Mas, esta história, esta, não a de 1936 e 1941, culmina, ao dia de hoje, com a parceria entre a Rússia e a China, e as pretensões de ambos mutuamente apoiadas: e estou a falar de Taiwan. Vou poupar-vos às comparações com os discursos étnicos – e a necessidade de espaço vital – de Hitler na antecâmara da II Guerra Mundial. Mas, esta história, esta, não a da II Guerra Mundial, culmina, ao dia de hoje, com as declarações de Putin sobre “zona de influência” e sobre a afirmação de não reconhecimento das pretensões soberanas da Ucrânia. E, nesta declaração, estou a falar da putativa extensão óbvia para países membros da União Europeia, como a Letónia, a Estónia e a Lituânia.

Se o aproveitamento das fragilidades europeias, em matéria de política externa e de defesa, não bastasse; se o aproveitamento do deslocamento do Atlântico Norte para o Pacífico dos interesses geoestratégicos dos Estados Unidos não bastasse; se o aproveitamento da dependência energética europeia não bastasse; Taiwan ocupa uma posição vital no mar da China, e essencial para o comércio internacional, para além de ser um dos principais produtores de componentes electrónicos para o mundo, mitigando com isso uma dependência crescente face à China. Tudo isto tem contornos potenciais de um conflito à escala global.

Se o Ocidente não matar as pretensões do eixo Sino-Russo, o eixo Sino-Russo pode matar o Ocidente. A defesa militar da Ucrânia tem que ser um imperativo moral para os idealistas, e é seguramente uma necessidade vital para os realistas. Infelizmente, dificilmente palavras

e boa vontade vencerão a hediondez da maldade personificada e militarmente armada; do outro lado, nem palavras nem boa vontade serão expectáveis. “Seja em Hong Kong, Moscovo ou Minsk: a Europa deve adotar uma posição clara e rápida”, disse a Sr.ª von der Leyen, em 2020, no discurso sobre o estado da União. Em vésperas de se conhecer a sua bússola estratégica, não se espera menos da União Europeia que a concretização em actos das palavras proferidas.

O que é que, longe dos war rooms, podemos nós fazer enquanto sociedade civil? A criação de uma associação de ajuda humanitária para com todos os países libertados com a queda do muro de Berlim e na mira da libido dominandi de Putin, apoiando e acolhendo todos os refugiados da guerra e do autoritarismo, e estou também a falar do povo russo: eles vão precisar. Ou isso, ou os valores que invocamos valerão tanto quanto a paz para Putin.

Post Scriptum I – Na 3.ª feira, quando a tensão aumentava, o “líder” da oposição, o dr. Rio, foi para o Twitter fazer gracinhas sobre as contas da campanha eleitoral. Nesse mesmo dia António Costa, também no Twitter, condenou “veementemente” o reconhecimento das regiões separatistas da Ucrânia pela Rússia. Se há males que vêm por bem, podemos afirmar que é graças ao fim da geringonça, que Portugal pode ter, hoje, uma declaração destas, alinhada do lado certo. Depois de 6 anos de governo suportado no PCP (e no BE), Costa, e Portugal com isso, pôde finalmente libertar-se, nos corredores do poder, dos inimigos da NATO, da UE, da liberdade e do mundo livre.

Post Scriptum II – Este artigo foi escrito 5ª feira, dia 24, perto das 20h. A esta hora em que é publicado, com a vertigem dos acontecimentos, pode já ter sido ultrapassado pelos acontecimentos.