Guerra na Ucrânia

A guerra na Ucrânia vista a partir da frente da desinformação: “A primeira vítima é sempre a verdade”

25 fevereiro 2022 12:46

Tiago Soares

Tiago Soares

Jornalista

A citação do título é de Ésquilo – dramaturgo da antiguidade que acompanhou guerras como a invasão persa da Grécia – e é lembrada por Gustavo Cardoso, perito em comunicação social: “O que está a acontecer na Ucrânia não é diferente de outros tempos históricos”. Para Putin, este é o melhor momento para iniciar um conflito armado – mas a estratégia de propaganda na internet para preparar a guerra já começou há muito

25 fevereiro 2022 12:46

Tiago Soares

Tiago Soares

Jornalista

A notícia é falsa: “A Ucrânia não tem um Estado sustentável”, titulava esta segunda-feira o jornal pró-russo “Orosz Hírek”, apontando que nenhum estado de direito foi alguma vez implementado e que o país não é mais do que uma criação do comunismo soviético. Na verdade, a Ucrânia existe enquanto país soberano desde 1991, altura da desintegração da União Soviética: é justamente isso que assinala o site EU vs Disinfo, uma base de dados criada em 2015 pelo Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) da Comissão Europeia para assinalar e desmontar as campanhas de desinformação da Rússia.

A informação veiculada pelo “Orosz Hírek” em defesa do Kremlin é um dos exemplos mais recentes da propaganda que a Rússia tem espalhado nas últimas semanas a propósito do atual conflito com a Ucrânia. Mas há vários outros casos: só em fevereiro, o EU vs Disinfo agregou mais de 59 notícias falsas sobre a democracia ucraniana ou as ações da NATO, EUA e União Europeia – sendo que a plataforma já identificou 13.614 mentiras russas desde que foi criada.

Recentemente, vários órgãos de desinformação têm avançado, por exemplo, com a teoria de que Kiev está a recusar-se a implementar os Acordos de Minsk (que na verdade foram rasgados por Vladimir Putin esta semana); ou que houve um golpe de Estado na Ucrânia em 2014 (quando o que aconteceu foi a anexação da Crimeia pela Rússia).

Uma pesquisa pela base de dados permite perceber que os principais criadores destas realidades alternativas são, além do já citado “Orosz Hírek”, órgãos como o Sputniknews (uma agència de notícias internacional criada pelo governo russo e com correspondentes em Portugal) ou o canal RT (antigamente conhecido como Russia Today, também controlado pelo Kremlin).

Ou seja: a guerra iniciada esta semana pela Rússia já começou há muito tempo na frente da desinformação. “Todos os Estados fizeram uso de propaganda ao longo do século XX”, começa por dizer Gustavo Cardoso, especialista em sociologia da comunicação e docente no ISCTE, lembrando a série “Glória”, produzida pela Netflix, que gira à volta de um centro de transmissões norte-americano localizado no Ribatejo, cujo objetivo era “ transmitir a rádio Europa Livre, que difundia “propaganda ocidental para os países do Bloco de Leste” em plena Guerra Fria.

The Russian invasion of Ukraine has led to false or misleading videos and photographs being posted on social media claiming to be from the conflict, report @alistaircoleman and @Shayan86 for @BBCMonitoring and @BBCRealityCheck. https://t.co/KB9O10T4Xd

— Cambridge Skeptics (@cambskeptics) February 25, 2022

A situação ficou mais complexa desde então. “A internet tornou-se o principal meio de comunicação, e a propaganda passou a ser feita nas redes. A Rússia herdou as regras de propaganda de comunicação em massa [do século XX] e aplicou-as à comunicação em rede”, contextualiza Gustavo Cardoso. Nos últimos dias, a internet tem sido inundada com imagens falsas ou descontextualizadas do conflito: é a mais recente dinâmica de uma estratégia russa que se tornou mais agressiva a partir de 2012, quando Vladimir Putin voltou à presidência do país e dividiu a estratégia do Kremlin em pelo menos três vertentes.

Censura, fantoches e “trolls” nas redes sociais

Vertente número um: “Passou a haver um maior controlo sobre a liberdade de imprensa e de expressão interna. Neste momento, os meios de comunicação russos são amplamente controlados pelo Kremlin”, aponta Maria Raquel Freire, especialista em política externa no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O objetivo é simples: garantir sempre que é a narrativa do Kremlin que prevalece.

“A forma como Putin sublinha a questão do espaço vital da Rússia, a forma como utiliza as minorias russas como argumento de defesa… A narrativa [interna] de que o agressor é o Ocidente é muito consistente”, sintetiza Maria Raquel Freire.

Vertente número dois: a criação e profissionalização de órgãos de comunicação fantoche ao serviço do regime russo. “Os veículos de informação mais perigosos não são aqueles que se apresentam como abertamente pró-Rússia ou pró-EUA, mas sim os que aparentam ser equilibrados e isentos mas ao mesmo tempo vão publicando conteúdos falsos com o objetivo de criar a dúvida”, sublinha Gustavo Cardoso. E isto é fundamental: meios como o RT ou a SputnikNews não querem necessariamente “mudar a opinião das pessoas, apenas fomentar dúvidas sobre a realidade”, resume o perito.

Vertente número três: o ativismo individual nas várias redes sociais. “Neste momento não são as redações nem os serviços de informação que comandam o ecossistema da comunicação. Muitas pessoas podem fazer isso individualmente”, explica Gustavo Cardoso. Os ativistas pró-Kremlin já eram famosos e nas últimas semanas foram fundamentais para moldar a narrativa a favor de uma invasão do território ucraniano. “Sabemos que há desinformação a vir do governo russo, [mas] também há ‘trolls’: pessoas que simplesmente publicam coisas para ver se conseguem enganar as pessoas”, alertou John Silva, diretor da organização sem fins lucrativos News Literacy Project, ao jornal árabe Gulf News.

Mas encontram resistência: em janeiro, a France 24 noticiou como um grupo de cidadãos lituanos (o primeiro país a tornar-se independente da União Soviética) se juntou para combater ‘trolls’ russos online. O grupo chama-se “The Lithuanian Elves” e cresceu de forma orgânica para responder à anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014. “Monitorizo páginas tóxicas e tento encontrar ‘fake news’, sobretudo no Facebook, porque é lá que estão a maioria dos trolls russos”, explicou ao canal “Hawk”, alcunha de um homem de 50 anos com um trabalho “normal” que vive em Vilnius, a capital lituana.

As Russia invades Ukraine, you’ll likely see lots of images and videos on social media that purport to be from the conflict. Here are some steps you can take to verify whether they are real. https://t.co/VP7RYB2QzD

— Poynter (@Poynter) February 24, 2022

“Há mais de uma década que o Kremlin tem vindo a aumentar o seu orçamento para operações [de desinformação]. Têm um orçamento multimilionário, na ordem das centenas de milhões de dólares, que se espalha por todo o mundo”, afirmou a investigadora Nina Jankowicz, autora do livro “Como perder a guerra da informação: Rússia, Fake News e o futuro dos conflitos”, num debate organizado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Sobre a atual crise ucraniana, Jankowicz identificou as quatro principais narrativas falsas alimentadas por Putin: “A primeira narrativa é a de que há um grupo de oligarcas ucranianos interessados em prejudicar os interesses russos. A segunda narrativa culpa a NATO pela crise nas fronteiras da Ucrânia. A terceira narrativa atribui o conflito aos lóbis da energia e das armas. A quarta narrativa imputa responsabilidade pela crise ao Governo de Kiev.”

Atenção: não é apenas a Rússia que usa propaganda para levar a sua avante: “Na União Europeia e nos EUA também é notória uma construção discursiva sobre o outro lado. Isso já era visível durante a campanha de Joe Biden”, aponta Maria Raquel Freire – e nas últimas semanas tornou-se ainda mais evidente, acrescenta a perita, sobretudo com a estratégia norte-americana de apontar a data do início da invasão. O que separa os dois lados? A democracia: “No Ocidente há um debate público sobre o tema, há divergências claras sobre as coisas”, responde a investigadora.

A pressão do Kremlin e a resistência interna

O aviso foi dado na manhã desta quinta-feira: os meios de comunicação social russos devem confirmar a veracidade da informação que publicam sobre a guerra na Ucrânia, e só podem publicar notícias e reportagens baseadas em fontes oficiais do Kremlin.

A regra, citada pela Reuters, foi avançada pelo regulador da comunicação social da Rússia (Roskomnadzor): “Reforçamos que são apenas os canais oficiais de informação da Rússia que possuem e partilham informação atualizada e confiável [sobre a situação na Ucrânia]”, apontou o organismo estatal, sublinhando que distribuir informação falsa online tem como consequências “sanções imediatas” aplicadas aos órgãos de comunicação.

There are a lot of disturbing images and videos coming out of the Russia attack on Ukraine, but not all are from the current invasion. Are you seeing videos and photos you want us to fact-check? Reply here or email questions@verifythis.com https://t.co/b3AiFvWoRF

— VERIFY (@VerifyThis) February 24, 2022

Há quem não vá ceder: Dmitry Muratov, diretor de um dos poucos jornais independentes que ainda é publicado na Rússia (“Novaya Gazeta”) e Prémio Nobel da Paz no ano passado pela sua defesa da liberdade de expressão, já criticou abertamente Putin: “Só um movimento antiguerra russo poderá salvar o planeta”, garantiu esta semana, ao mesmo tempo que anunciava um gesto político de solidariedade: esta sexta-feira, a edição do “Novaya Gazeta” está nas bancas também em língua ucraniana.

Num mundo de redes sociais – e sobretudo numa altura de guerra como esta – é importante recordar sempre o conselho primordial sobre ‘fake news’: desconfiar sempre da informação que recebemos. “Neste momento é impossível dizer às pessoas para não lerem tudo o que lhes aparece no feed [das redes sociais], e o jornalismo não pode fazer todo esse trabalho. É o preço da guerra: é um momento atípico para a comunicação social, é muito difícil perceber o que está a acontecer no terreno, o fact-checking torna-se muito mais difícil de fazer”, nota Cardoso.

Se a guerra prevalecer, vai continuar a ser travada nos meios digitais – incluindo através de ataques informáticos, tal como aqueles que foram dirigidos esta semana a várias instituições ucranianas e que contribuem para “criar ansiedade, medo e um sentido de vulnerabilidade” junto da população, diz Maria Raquel Freire. “Está uma guerra de comunicação em curso. Não sei se essa frente será decisiva, mas é um elemento que contribui para o conflito, Será uma peça do puzzle importante”, finaliza a investigadora.