Geração E

Entre a ambição de ser a “aluna perfeita” e sentir que a “cabeça não funcionava”: Lia teve um esgotamento aos 16 anos

Entre a ambição de ser a “aluna perfeita” e sentir que a “cabeça não funcionava”: Lia teve um esgotamento aos 16 anos
Maskot

De aluna “perfeita” a sentir que a “cabeça não funcionava”. Lia Alves lidou com um esgotamento no 11.º ano. Agora, já na universidade, ajuda outros estudantes, através das redes sociais, a serem mais produtivos, mas sem se esquecerem que são também “filhos, irmãos e amigos”

“Tenho de ser uma aluna perfeita.” Foi o pensamento recorrente de Lia até aos seus 16 anos. Depois de se repetir todos os dias, acabou por ter um esgotamento. Foi aí que teve de aprender a “reorganizar-se”. Lia Alves tem 19 anos, é estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem uma página no Instagram sobre estudos e dá explicações.

Agora, Lia sabe que “não é negociável” não ter uma hora para si e dormir “pelo menos sete horas.” Mas nem sempre foi assim. Sentiu que lhe venderam a ideia de que o 11.º ano era muito difícil: “o ano mais difícil do secundário.” O discurso dos professores e a quase entrada para a faculdade trouxeram-lhe “algum medo”. Não esconde que, “de facto, houve uma diferença entre o 10.º e o 11.º, uma carga de trabalho maior e mais exigência dos professores.”

“Lembro-me que logo no primeiro dia de aulas já estava a estudar. Não gosto de usar a palavra obcecada, mas a verdade é que eu só estudava. Não fazia mais nada”, conta Lia. Foi assim que, quando se apercebeu, Lia não conseguiu formular respostas no último teste do 1.º período.

“Eu sei que eu sabia aquelas coisas, mas parecia que a minha cabeça não funcionava.” Lia lembra que aquele “momento foi de quebra total.” Não esconde que, na altura aluna de 20 a Latim, sentir que não conseguia fazer o teste foi “uma facada” no orgulho. Lia Alves teve, no seu 11.º ano, um esgotamento nervoso.


Ver Instagram

A psicóloga Ruth Ministro explica que a síndrome de burnout funciona como “uma resposta à exposição prolongada ao stress crónico e à carência de competências emocionais adaptativas que permitam ao indivíduo lidar com o mesmo”. De acordo com a psicóloga da clínica REACH, há especialmente quatro níveis a que devemos estar atentos: físico, emocional, cognitivo e social. Foi a nível cognitivo — em que “há maior dificuldade de concentração e na realização de tarefas” — que Lia sentiu os sinais de alarme.

Naquela altura Lia “só estudava, não fazia mais nada” e as horas na cama eram poucas. “Acabava por dormir muito pouco, tipo quatro a cinco horas por dia.” Depois de uma conversa com a professora, que admite que a “marcou”, a aluna decidiu que tudo tinha de mudar.

“Comecei a perceber: eu preciso de dormir, eu preciso de descansar, eu preciso de fazer outras coisas”.

Apesar do processo de recuperação não ser universal, isto é, ter de ser adaptado ao indivíduo em questão, há uma “prioridade” que é “comum a todos os casos”, salienta Ruth Ministro: “descansar e recuperar energia”.

Lia admite que o processo de recuperação não foi de todo gradual. Além de implementar o descanso, a aluna tentou reaprender a estudar e a reorganizar-se. “Comecei a perceber que o meu método de estudo me estava a ocupar demasiado tempo. Tive de começar a adaptar métodos e perceber o que funciona para mim, o que é que é produtivo, o que é que vale a pena fazer, o que é que não vale a pena.”

Foi depois deste momento, já na quarentena, que Lia aproveitou a aprendizagem que fez para começar um studygram — uma conta na rede social Instagram sobre estudos. “Entrevistei imensos profissionais, nessa altura”, diz, acrescentado que aproveitou para “fazer conteúdo com base nessas entrevistas.”

Entre fotografias e vídeos, a Lia é conhecida como @es.tu.dar e tenta dar a conhecer novos métodos de estudo e organização. Enquanto criadora de conteúdos, considera que “é sempre preciso ter muita seletividade naquilo que se vê”, uma vez que as redes sociais nos podem apresentar “uma rotina que a longo prazo não é sustentável.”

Esta visão de Lia é corroborada por Ruth Ministro. “As redes influenciam a necessidade de produtividade e a comparação que cada um de nós, utilizadores, faz, entre os seus resultados pessoais e os que outras pessoas publicam. As redes sociais são uma montra de sucessos, mais ou menos filtrados, trabalhados ou inventados, e uma das queixas que mais ouvimos em consulta é a de que usar as redes deixa os indivíduos deprimidos, com a sensação de que são insuficientes, medíocres, falhados.”

“Claro que não há mal em termos dias produtivos, mas o facto de dizer que é sempre assim ou que vale a pena ficar a estudar até de madrugada e depois não dormir” pode ser prejudicial, diz Lia sobre a comunidade em que se insere. Ainda assim, Lia considera que há uma parte da comunidade que mostra que “os estudos são importantes”, mas que os estudantes não são mais do que isso. “Nós, para além de sermos estudantes, somos também irmãos, filhos e amigos.”

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: cbarros@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate