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Soares Carneiro sai da PT

22 Fevereiro 2010 12:42

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

O administrador executivo Fernando Soares Carneiro renunciou hoje ao cargo de administrador-executivo da PT. (Leia a carta de renúncia no final do texto) Clique para visitar o dossiê Face Oculta

22 Fevereiro 2010 12:42

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Fernando Soares Carneiro foi, além de Rui Pedro Soares, um dos administradores da Portugal Telecom (PT) "apanhados" nas escutas do processo "Face Oculta", em conversas sobre o alegado plano de controlo dos meios de comunicação social pelo Governo, na sequência da tentativa de compra da Media Capital (TVI) pela operadora. 

Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ FACE OCULTA

Depois da demissão de Rui Pedro Soares, a pressão sobre Fernando Soares Carneiro era enorme. Estava a decorrer um processo da Comissão de Auditoria da PT que poderia levar o administrador à renúncia compulsiva. Mas, negociações assumidas directamente pelo presidente da comissão executiva (CEO) da empresa, Zeinal Bava, terão levado Soares Carneiro a antecipar-se.

Henrique Granadeiro, presidente do conselho de administração da PT, e Zeinal Bava, CEO afirmaram numa declaração conjunta que "por força de um conjunto de circunstâncias, o administrador Fernando Soares Carneiro manifestou a sua disponibilidade para renunciar aos cargos que ocupa, cessando a sua relação de administração existente". "Enaltecemos o empenho com que sempre exerceu as suas funções e a dignidade da atitude do administrador Fernando Soares Carneiro, que decidiu sair por entender ser essa a melhor forma de honrar o dever fiduciário de proteger a imagem e a reputação do Grupo PT."

Soares Carneiro tinha sido recentemente envolvido numa polémica a propósito do investimento de 75 milhões de euros de fundos de pensões da PT na Ongoing, empresa que entretanto irá adquirir até 35% da Media Capital e que é o 5º maior accionista da Portugal Telecom. Na altura, em entrevista ao Expresso, Henrique Granadeiro, abriu a porta à demissão de Soares Carneiro. Mas o administrador da PT - um dos nomes apontados pelo Governo para a administração executiva - manteve-se no cargo. Saiu hoje.  

O Expresso teve acesso à declaração de renúncia de Soares Carneiro.

Os episódios em que me tentaram envolver recentemente em meios de comunicação social ainda não têm peso específico suficiente para fazer mossa. Trata-se de duas conversas telefónicas privadas e anódinas, uma com total justificação no relacionamento institucional da PT com o BCP e outra que, não fora ser composta por uma série de pequenas frases desgarradas e sem ligação, talvez pudesse ter uma interpretação plausível. Infelizmente, o segredo de justiça, que, aqui, só funciona para um lado, impede-me de ter acesso a uma versão menos manuseada dessa conversa. Eram, contudo, duas conversas privadas. Prezando a minha privacidade, aliás garantida pela Constituição, senti-me com o direito de tentar impedir a sua divulgação.

Como já muitos terão reparado, nenhum dos episódios referidos, ou qualquer outro dos divulgados pela comunicação social, me liga ao falhado processo de aquisição da TVI pela PT, com o qual nada tive a ver.

Renuncio ao cargo de administrador da PT por duas razões: a primeira, porque, em certos momentos, a vaga pseudo-ética de uma certa opinião pública pretensamente ofendida, por intervenção de interesses que desconheço, tem a capacidade de transformar o pouco em muito e, pura e simplesmente, deixa de haver instrumentos para travar uma luta justa. É um David contra Golias, mas sem funda ou pedras; a segunda, porque, como administrador de uma empresa cotada, há que ter sempre o discernimento de avaliar quando se passa do lado dos activos para o dos passivos do balanço da credibilidade pública institucional. Ora, eu estou há muito nesta vida de gestor e começo a ter a percepção de atravessar essa fronteira, algo que os meus princípios éticos e deontológicos não entendem nem aceitam.

Há pois que ter a coragem de, sem grandes ruídos, mudar de rumo e assumir, mesmo sem qualquer culpa ou responsabilidade, que há guerras que não se devem travar, pois não são materializáveis. Como disse uma grande filósofo e psicólogo do século passado - "nunca se ganha uma guerra contra fantasmas, nossos ou, especialmente, dos outros". Ora, os meus fantasmas estão certamente controlados!

Aproveito para, publicamente, agradecer a todos aqueles que fizeram da minha passagem pelo CA e pela CE da PT SGPS SA uma experiência agradável.