Economia

Olivier Blanchard (FMI) : austeridade apressada aumenta o risco

25 dezembro 2011 8:13

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Pode parecer um paradoxo, mas o diretor do Departamento de Estudos do Fundo Monetário Internacional, afirmou no blogue do Fundo que a pressa na consolidação orçamental é inimiga da confiança dos investidores. Uma reflexão natalícia

25 dezembro 2011 8:13

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O diretor do Departamento de Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) colocou quarta-feira à tarde (horas de Washington DC) em um dos blogues do Fundo (IMF Direct) um balanço arrasador do ano de 2011. "Tudo somado, o final do ano está muito pior do que o início", refere quase a concluir em "Quatro duras verdades".

Entre as quatro lições que Olivier Blanchard tirou, uma diz respeito às estratégias que têm sido advogadas no campo da consolidação orçamental (vulgo austeridade), e é, no mínimo paradoxal: "Segundo algumas estimativas preliminares que o FMI está a preparar não se necessita de grandes multiplicadores para que o efeito conjunto da consolidação orçamental e da queda do crescimento que esta implica termine numa alta - e não em uma diminuição - dos prémios de risco dos títulos públicos".

Esquizofrenia dos mercados financeiros

Ou seja, os apressados, com vontade de mostrar serviço aos "mercados", acabam por ser vítimas do que Blanchard chama de "esquizofrenia" dos investidores financeiros: "Eles reagem bem quando se anunciam consolidações orçamentais, contudo reagem mal quando a consolidação conduz a um menor crescimento, como está a ocorrer".

Blanchard sublinha que "deve haver consolidação orçamental substancial e que os níveis de dívida devem baixar". E, com subtileza, cita a chanceler Ângela Merkel, para recordar que as consolidações orçamentais devem ser uma "maratona" e não uma corrida de velocidade. "Serão precisas mais de duas décadas para regressar a níveis de dívida prudentes", escreve. E recorda um ditado: "sem pressa, mas constante, é que se ganha a corrida".

Conclusão desta lição: "Necessitamos de planos de consolidação orçamental, mas realistas".

Mais três lições

As outras três lições são, também, interessantes.

Em períodos de crise ficam muito claros os equilíbrios e desequilíbrios "múltiplos",  cujo pessimismo ou otimismo que trazem se auto-alimenta com profundas implicações macroeconómicas, como Blanchard refere. Um dos problemas que o economista do FMI refere é precisamente a distância entre solvência e incumprimento. Daí que advogue injeção de liquidez. Para que uma não se transforme na outra, ou seja mude de estado.

A segunda lição tem a ver com a imagem dos decisores. "Medidas de política incompletas ou parciais podem piorar as coisas", adverte. A ideia de que é "melhor ter tentado e fracassado do que não ter tentado nunca" nem sempre se aplica, diz Blanchard. E sobretudo anunciar grandes planos sem que se coloquem em prática ou que defrontem obstáculos práticos é o pior que pode acontecer para o olhar dos investidores.

A última lição tem a ver com a perceção dos mercados financeiros. A partir do momento em que se gera uma dada perceção ela altera a realidade. Blanchard recorda que se observou isso recentemente com Itália ou com o euro.

O economista apela a que haja uma colaboração "entre todos os interessados", e confia que assim será. "A alternativa é francamente desagradável", termina o artigo no blogue.