Economia

Este verão já não se brincava na Comporta: "Estamos quase pobres", dizia Salgado

24 outubro 2014 11:00

Expresso

"Estamos quase pobres, mas se é preciso investir em alguém com estas qualificações é este tipo e não é outro. Não conheço outro em Portugal", afirmou Ricardo Salgado, para persuadir a sua família na contratação de José Honório

alberto frias

Ricardo Salgado chamou José Honório para evitar o colapso final. Juntos, tentaram envolver o Governo e Durão Barroso. O plano falhou.

24 outubro 2014 11:00

Expresso

O eco daquelas palavras ainda perdura. No verão do ano passado, numa reportagem do Expresso na Comporta, um membro da família Espírito Santo falou de um café onde, gracejou, iam "brincar aos pobrezinhos". A frase foi glosada, citada, criticada e irritou muitos membros da família, cujo nome estava a ser afetado por causa de uma frase disparatada de um membro sem qualquer relevo pessoal ou profissional na vida do grupo.

Nessa altura, a crise dentro do Grupo Espírito Santo não tinha ainda rebentado nos jornais, o que aconteceria em setembro, com a primeira notícia sobre os problemas financeiros na Espírito Santo International a ser publicada no Expresso, em setembro. Meses depois, a situação estava já descontrolada. Em abril deste ano, Ricardo Salgado já afirmava numa reunião do Conselho Superior: "Estamos quase pobres". A brincadeira acabara. 

A reunião é relatada na edição de hoje do jornal "i", que cita frases entre aspas dos intervenientes de um plano que visava salvar o Grupo Espírito Santo: Ricardo Salgado e José Honório, curiosamente antigo gestor de Pedro Queiroz Pereira, inimigo frontal de Salgado. Salgado quis José Honório a trabalhar consigo. E para isso precisou de convencer a família a contratá-lo - e pelo preço que o gestor exigia, que implicava um custo de 2,1 milhões de euros por ano.

"Estamos quase pobres, mas se é preciso investir em alguém com estas qualificações é este tipo e não é outro. Não conheço outro em Portugal", afirmou Ricardo Salgado, para persuadir a sua família na contratação de José Honório, que classifica nessa reunião de início de abril como um "tipo brilhantíssimo", segundo cita o "i" desta sexta-feira. 

O problema é que Honório, ex-presidente-executivo da Portucel e mais tarde administrador do BES e do Novo Banco ao lado de Vítor Bento, exigia 150 mil euros por mês e o dinheiro já faltava então à família. Ricardo Abecassis questionou os valores, qualificando o salário como "excecionalmente alto. Nós aqui à volta desta mesa, pelo menos eu, nunca tive oportunidade de ganhar alguma coisa similar, nem de perto".

O processo foi avançando. José Honório é citado pelo "i" como tendo proposto "juntar-me a vós na qualidade de senior adviser e trabalhar afincadamente para fazer a consolidação. Assim que ela estivesse concluída estaria perfeitamente disponível para assumir a presidência da comissão executiva da RioForte. É contactar os mercados, ajudar a vossa reputação, porque não há assim contas muito bonitas para se mostrar".

"A minha solução é: a fama que esta casa tem no mercado é que tem ajudado muita gente desde sempr. Acho que está na altura de cobrar favores", afirmou José Honório, segundo cita o "i". O argumento a usar não podia ser o de salvar o GES, mas sim o de salvar Portugal. "Para que tudo isto seja possível tem de haver aqui um grande apoio institucional e o descodificar de uma mensagem que é: o que está em causa não é salvar os acionistas, não é salvar os acionistas do GES, não é salvar o GES, é fazer um 'ring fencing' de Portugal".

Esta estratégia foi na altura noticiada pelo Expresso, que divulgou o envolvimento de José Honório, que na altura negou estar a envolvido no processo. O "i" fala de um plano de envolver Durão Barroso. José Honório propôs: "O desafio técnico é fazível mas só com cobertura institucional. E aquela que me lembrei seria o Presidente da Comissão Europeia", diz José Honório citado no "i". "Ele está no final do seu mandato", prossegue. "Em cima disso, e atualmente o mais importante, [Barroso] é amigo desta casa e esta casa é amiga dele".  

"Era muito bom poder contar consigo para argumentar junto do Dr. Durão Barroso", retorquiu Salgado. Honório acrescenta: "Se esta casa conseguir que o Durão Barroso tenha uma conversa privada, sem mais ninguém, com o Presidente da República e com o primeiro-ministro a explicar que está muito preocupado, esse é o maior apoio que se pode ter."

Em notícia de 20 de junho deste ano, o Expresso explicou que Salgado pediu primeiro a Maria Luís e depois a Passos Coelho um empréstimo da Caixa Geral de Depósitos, precisamente invocando o argumento sistémico de que era preciso salvar Portugal do colapso do GES. O primeiro-ministro negou o apoio.