Economia

Desde 1967 que os bancos centrais não compravam tanto ouro

29 dezembro 2022 9:12

"A reserva de ouro do Banco de Portugal ascendia a 19.796 milhões de euros no final de 2021, um acréscimo de 808 milhões de euros face ao valor registado em 2020", explica o relatório da administração do Banco de Portugal

ana baiao

Corrida ao ouro entre os bancos centrais mundiais está num máximo de 55 anos. A razão é a vontade de diversificar reservas face a ativos norte-americanos como o dólar e as obrigações do Tesouro

29 dezembro 2022 9:12

Os bancos centrais, com os da China e da Rússia à cabeça, estão a comprar ouro a um ritmo que não se via desde 1967, num esforço de diversificação das reservas face ao dólar norte-americano, noticia o Financial Times desta quinta-feira, 29 de dezembro, que cita dados do World Gold Council.

Em novembro, os bancos centrais terão comprado perto de 673 toneladas de ouro. No terceiro trimestre terão adquirido 400 toneladas. Desde que há registos trimestrais, com início em 2000, que não se comprava tanto num só trimestre, e estes são números que ultrapassam os divulgados pelos próprios bancos centrais e pelo Fundo Monetário Internacional, que estimam em 333 toneladas o ouro adquirido pelos bancos centrais em julho, agosto e setembro de 2022.

Segundo o Financial Times, esta diferença explica-se com as aquisições feitas por instituições dos diferentes estados que, ao contrário do que acontece nos bancos centrais, não têm de declarar reservas de ouro.

A China comprou oficialmente, em novembro, 32 toneladas de ouro avaliadas em 1,8 mil milhões de dólares (1,69 mil milhões de euros), o primeiro aumento das reservas de ouro desde 2019 - apesar de os analistas crerem que a China está a fazer aquisições mais volumosas do que este número oficial.

Já a Rússia deixou de divulgar reservas de ouro desde o início da invasão à Ucrânia, mas tem vindo a desenvolver uma estratégia de diversificação das reservas face a ativos como obrigações do Tesouro norte-americano e o dólar, com as reservas russas de ouro a cifrarem-se em 20,9% do total de reservas em fevereiro deste ano.

Há 55 anos que os bancos centrais não compravam tanto ouro, alcançando um ritmo comparável ao de 1967, ano em que o preço do metal precioso disparou devido à procura dos bancos centrais europeus por ouro norte-americano.

Esta procura levou ao fim do sistema acordado em Bretton Woods, que previa a estabilidade do preço do ouro, e a convertibilidade em moeda fiduciária, através de uma pool das reservas de oito bancos centrais. O fim desta pool foi um dos fatores que levaram à suspensão da convertibilidade do dólar em ouro prevista no sistema de Bretton Woods.