Economia

A ansiedade financeira é "muito comum" entre os jovens (aqui deixamos seis dicas para lidar com ela)

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Em plena crise económica é comum haver um aumento da ansiedade causada pela falta de dinheiro, um problema frequente nos jovens que transitam para a vida adulta, perante a impossibilidade de terem a tão desejada autonomia. A isto chama-se ‘ansiedade financeira’. Os especialistas dizem que é possível lidar com ela, sem desvalorizar os seus sentimentos. Eis algumas dicas

28 dezembro 2022 13:43

O dinheiro é uma das principais fontes de stress e também de ansiedade. A ‘ansiedade financeira’ pode chegar a todos, mas atualmente os jovens parecem estar mais suscetíveis a sofrer desta condição, já que as perspetivas de futuro são cada vez menores num ambiente de crise.

Segundo um documento da Ordem dos Psicólogos (OP), publicado no início da pandemia, ainda em 2020, a ansiedade financeira é um “sentimento de preocupação, medo ou desconforto com as nossas finanças pessoais” e “todos nós podemos senti-la”.

Porém, como explicou ao Expresso a psicóloga e vice-presidente da OP, Sofia Ramalho, este sentimento é “muito comum nos jovens e nos que estão em transição para a idade adulta”. Porquê? Pois começam a sentir uma “impossibilidade de terem uma vida mais autónoma, um emprego, de fazer planos para o futuro”. Até porque, como o Expresso já noticiou, o desemprego é sempre superior entre os menores de 25 anos (e a situação piorou com a pandemia); o emprego que têm, geralmente, é mais precário; muitos nem estudam nem trabalham, problema que também se agravou com a covid-19.

Assim, a situação em que se encontram pode trazer sintomas, como “tristeza, irritabilidade, ansiedade, que depois geram inibição face às tarefas do dia a dia. Isto é, leva-os a deixarem de querer fazer o que habitualmente faziam, como sair com os amigos, atividades desportivas, estar numa associação”. Então, como lidar com esta ansiedade financeira, pelo menos a nível psicológico?

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Não ter receio de falar sobre as finanças pessoais

Para a psicóloga, uma das principais dicas, para jovens e não só, reside no diálogo. É importante “falar sobre esta ansiedade, sobre o que estão a sentir, conversar com outros jovens que estão na mesma situação, com os pais e familiares”.

O diálogo vai ajudar a contextualizar - sobretudo porque a crise atual não é do indivíduo, mas sim de toda a população portuguesa e até mundial - e assim o jovem vai “perceber que há outras pessoas que passam pela mesma situação”.

Além do mais, falando entre jovens, pode ser um ponto de partida para a troca de ideias e possíveis soluções para o problema, nomeadamente “na procura de oportunidades de emprego, em formas de gestão pessoal das suas finanças, conversando sobre os valores que têm para gerir e encontrar até trabalhos temporários”.

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Fazer um plano

Quer seja em família ou a nível pessoal, a psicóloga Sofia Ramalho considera útil haver um “plano de previsão do orçamento familiar face ao que são as perspetivas do jovem para estudar e trabalhar".

O objetivo é prever “quanto tempo vai demorar a adquirir a sua autonomia”. Mesmo que possa ser frustrante no início, “vai dar uma perspetiva de futuro. Ainda que seja um pouco mais adiada, é um adiamento que ainda assim pode ser planificado”.

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Mudar o nosso pensamento

De acordo com o documento feito pela OP durante a pandemia, é importante tentarmos redirecionar os nossos pensamentos em algumas vertentes, nomeadamente a nível de necessidades, expectativas e até perspetivas.

Mais precisamente, a OP aconselha a ver a situação de várias perspetivas diferentes - nomeadamente não focar no momento mau atual, mas sim no facto das crises, historicamente, acabarem por passar. Adicionalmente, é importante redefinir as necessidades de consumo.

Um ponto que pode ser fulcral numa época dominada pelas redes sociais - seja a nível de dinheiro ou não - é a comparação, ou neste caso, a importância de deixarmos de nos comparar com quem tem mais que nós. “As nossas redes sociais estão cheias de manifestações de aparente “riqueza” – carros, casas, viagens, objectos, etc. E nós temos tendência a compararmo-nos com a altura em que tivemos rendimentos mais elevados ou com pessoas que percepcionamos como tendo mais dinheiro do que nós. Esta comparação pode causar ansiedade. E talvez possa ser mais útil compararmo-nos a alguém que tem menos do que nós e perguntarmo-nos como farão essas pessoas para lidar com as dificuldades e ter uma vida com significado”, lê-se no documento da OP.

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Imaginar o pior cenário possível

Se, por um lado, é necessário ser mais otimista, por outro, pensar no pior cenário possível pode ajudar. Como? A OP indica que “pode diminuir a nossa ansiedade” pois, se pensarmos nesse cenário, “depois de reconhecermos os nossos medos e receios” devemos também pensar na resposta.

Ou seja, não é só imaginar o pior sem pensar em soluções. O objetivo, neste caso, é “planear e prever as nossas respostas” para estas situações, o que "pode ajudar-nos a sentir mais controlo e também a
sermos mais bem-sucedidos na gestão dos desafios".

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Alterar os nosso comportamentos financeiros (e manter-se ativo)

Esta dica é algo que qualquer especialista em finanças pessoais diria, mas é necessária. Segundo a OP há vários fatores que podem ser alterados, como tentar gerir mais eficazmente o orçamento doméstico ou até aumentar a literacia financeira - seja com cursos, ou mesmo com materiais de conhecimento gratuitos (existem vários sites online, perfis de redes sociais e até podcasts).

A OP indica ainda que é importante “mantermo-nos ativos”, “garantir o autocuidado” e “não fazer do consumo de álcool um refúgio”.

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Pedir ajuda

No limite - ou mesmo antes de sentir que está a chegar ao limite - é importante pedir ajuda. "Se a preocupação e a ansiedade com o dinheiro está a começar a perturbar a sua vida, peça ajuda
– um psicólogo pode ajudar", nota a OP. Há alguns psicólogos no SNS - deve informar-se junto da sua unidade de saúde familiar - e também existem associações que disponibilizam consultas gratuitas ou a um preço inferior ao do mercado.

Este texto faz parte de um conjunto de conteúdos que o Expresso publica para falar diretamente com os leitores mais jovens e sobre aquilo que os afeta mais de perto. Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail.