Economia

Greve nos portos "são sempre milhões de euros de prejuízos", diz associação dos agentes de navegação

rui duarte silva

EUA são um dos mercados mais afetados, dizem sectores exportadores. Produtores animais já admitem problemas nos stocks e subida de preços

22 dezembro 2022 17:37

“São muitos milhões de euros de prejuízos diretos e indiretos, num momento em que era fundamental apanhar todas as migalhas”, diz Belmar Costa, diretor-executivo da AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal sobre o impacto da greve dos trabalhadores portuários, iniciada esta quinta-feira.

“Num 2022 que prometia terminar de forma mais positiva do que o inicialmente esperado, já notamos alguma inflexão no movimento portuário nos últimos dois meses, o que indica que vêm aí tempos difíceis e para o mercado não há pior sinal do que este, dado por uma greve de vários dias que se prolonga até ao fim de janeiro”, comenta ao Expresso.

Para Belmar Costa, o impacto de uma greve “é sempre grave e nunca pode ser medido no imediato nem na totalidade, uma vez que tem necessariamente consequências a médio e longo prazo, desde logo nos navios que deixam de fazer escala no país, na imagem internacional dos portos nacionais, no impacto na cadeia logística, no custo de operação dos barcos que têm de ficar mais dias num porto para descarregar e carregar mercadoria”.

O problema animal

“A greve dos trabalhadores das administrações portuárias deixa, pelo menos, oito navios de matérias-primas para a alimentação animal com atrasos na descarga ou por descarregar, em dezembro e janeiro. Os custos adicionais das empresas importadoras com a sobre estadia dos barcos podem atingir, até final do mês de dezembro, mais de 1 milhão de euros, valor que pode duplicar em janeiro", afirma em comunicada a IACA – Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais, "preocupada com a repercussão desses custos no preço das matérias-primas para a produção de rações de animais que dão origem a carne, peixe, leite e ovos”.

Em Portugal as empresas produtoras de alimentos compostos para animais têm uma dependência de matérias-primas importadas de 80% e uma capacidade de armazenamento de cerca de 5 dias, refere a associação. "Face aos mais de 10 dias de greve anunciados, a IACA estima que as empresas ficarão sem acesso a matérias-primas que garantam a continuidade da produção, situação que pode culminar na rutura de stocks a disponibilizar aos produtores pecuários e na degradação dos cereais e oleaginosas por adiamento dos seus descarregamentos.

Assim, a associação admite que seja posta “em causa a disponibilidade de carne, leite e ovos de origem nacional à mesa dos consumidores, sobretudo durante o início do novo ano”.

Os sectores exportadores também admitem “algum impacto na operação das empresas”, por atrasos na receção de componentes e matérias-primas, do lado da importação, mas também por atrasos no envio de encomendas, do lado das vendas ao exterior.

O efeito Natal

“Há sempre impacto, mesmo quando o grosso das mercadorias não circulam por via marítima, como é o caso do sector dos componentes automóveis, uma vez que o nosso maior mercado é a Europa, com uma quota de 90% das exportações nacionais”, diz Adão Ferreira, da associação sectorial AFIA, admitindo que um dos mercados mais afetados por esta greve poderão ser os EUA.

Na sua análise, o problema principal estará mais na importação de componentes e materiais que vêm da Ásia. “Se a sua chegada for atrasada, pode comprometer o fluxo de produção nas fábricas portuguesas”, adianta antes de sublinhar que no período de Natal e fim de ano, “muitas unidades estão fechadas, pelo que para já não antevê “dificuldades especiais”.

Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, que representa toda a fileira metalúrgica, considera que uma greve portuária “cria sempre constrangimentos à chegada e à partida de mercadoria, em especial no que respeita aos mercados dos EUA e Angola, mas durante a quadra natalícia a atividade das empresas é menor”.

No caso da indústria do mobiliário, Gualter Morgado, diretor-executivo da APIMA, confirma que “este é um daqueles quadros que condiciona sempre as empresas” e, no seu sector, “afetará especialmente as exportações para os EUA e países asiáticos”.

Já Gustavo Paulo Duarte, diretor-geral da Transportes Paulo Duarte, admite que com as greves portuárias há sempre algum volume de mercadoria que muda para a rodovia. “Não é uma transferência direta, mas é algo normal e habitual”, comenta.

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Administrações Portuárias (SNTAP) convocou uma greve de vários dias que começou esta quinta-feira e se prolonga até 30 de janeiro nos portos do continente, Madeira e Açores.