Economia

Bitcoin está a dar "o último suspiro antes da irrelevância" e não deve ser legitimada pelos reguladores, dizem responsáveis do BCE

30 novembro 2022 15:31

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Num artigo publicado esta quarta-feira no blogue do Banco Central Europeu, Ulrich Bindseil e Jürgen Schaaf alertam que os bancos deverão ter cuidado na eventual promoção de investimentos com base na Bitcoin

30 novembro 2022 15:31

A cotação da Bitcoin, atualmente estável nos 16,8 mil dólares (cerca de 16,2 mil euros), é “um último suspiro artificialmente induzido antes do caminho rumo à irrelevância”, segundo dois responsáveis do Banco Central Europeu (BCE), que defendem que o primeiro criptoativo, e o mais popular, não deve ser legitimado pelos reguladores.

Num ensaio publicado esta quarta-feira, 30 de novembro, no blogue do BCE, assinado por Ulrich Bindseil e Jürgen Schaaf, diretor e consultor, respetivamente, da divisão de infraestrutura de mercados e de pagamentos do banco de Frankfurt, defendem que a inclusão dos criptoativos na esfera regulatória não deve ser confundida com promoção dessa indústria.

Os autores criticam também o lobbying norte-americano em prol destes ativos, que consideram ter sancionado uma indústria especulativa, poluente e sem provas dadas no que toca à criação de valor para a sociedade. E alertam que os bancos deverão ter cuidado na eventual promoção de investimentos com base na Bitcoin, já que, no caso de perdas avultadas, poderão perder a reputação junto dos clientes.

Desde junho, depois do colapso de vários projetos de criptoativos como a stablecoin TerraUSD e de criptofinanceiras como a Celsius, a Bitcoin estabilizou nos 20 mil dólares, algo que foi interpretado “como uma pausa para respirar antes de novos máximos”, dizem os autores.

“É mais provável, contudo, que seja um último suspiro artificialmente induzido antes do caminho rumo à irrelevância - e isto já era previsível antes de a FTX ter colapsado e atirado o preço da Bitcoin para bem abaixo dos 16 mil dólares”, defendem.

“Como a Bitcoin não parece ser útil como sistema de pagamentos nem como forma de investimento, deverá ser tratada como tal em termos regulatórios e, por isso, não deverá ser legitimada”, escrevem ainda os autores do artigo.

“Bolha especulativa” com perigo para os bancos

Os autores acusam o mercado de ser facilmente manipulável por participantes de mercado, como corretoras ou criadoras de stablecoins e comparam o fluxo de capital que chega ao setor ao de “bolhas especulativas”, que “dependem da chegada de dinheiro novo”. “Os grandes investidores em Bitcoin têm o maior incentivo em que a euforia continue”, defendem.

E repetem os argumentos dos cépticos da Bitcoin, que invalidam a principal criptomoeda como moeda, no sentido de ser forma de pagamento e reserva de valor. Segundo os autores, tem “falhas tecnológicas e de concepção” que “tornam questionável como forma de pagamento”, já que pagar com a maior criptomoeda é “complicado, lento e caro”.

Por isso, “a Bitcoin nunca foi usada de forma significativa para transações legais no mundo real”, com os autores a reforçarem a associação que este criptoativo tem como facilitador de atividades ilícitas.

Como investimento, como não gera nem dividendos, nem remuneração, nem tem aplicabilidade prática, a Bitcoin tira o seu valor da “pura especulação”.

Sobre o impacto dos reguladores e dos legisladores neste setor, estes últimos “têm por vezes facilitado o influxo de fundos ao apoiar os supostos méritos da Bitcoin”, criando enquadramentos regulatórios “que davam a impressão de que os criptoativos são apenas mais uma classe de ativos”.

“A crença de que deve ser dado espaço à inovação custe o que custar persiste teimosamente”, dizem, referindo-se à tecnologia blockchain, que consideram ter “criado até agora pouco valor para a sociedade, independentemente do quão grandes são as expectativas para o futuro.

Além de que “a utilização de uma tecnologia promissora não é uma condição suficiente para valor acrescentado de um produto com base nela”, dizem.

E os bancos deverão ter cuidado ao entrarem no setor dos criptoativos, já que a aposta do setor financeiro tradicional “sugere aos pequenos investidores que os investimentos na Bitcoin são sólidos”, alertando que “o impacto negativo nas relações com os clientes e o dano reputacional para toda a indústria pode ser enorme quando os investidores em Bitcoin tiverem perdas adicionais”.