Economia

Governador deixa terceiro aviso: bancos devem pagar juros mais altos nos depósitos para combater inflação

Governador deixa terceiro aviso: bancos devem pagar juros mais altos nos depósitos para combater inflação
TIAGO MIRANDA

Bancos devem ser capazes de remunerar os depósitos para que o dinheiro aplicado não sirva para compras que dinamizem ainda mais os preços

O governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, voltou a dizer que os bancos devem remunerar de forma mais atrativa os depósitos (a grande banca nem 1% de juros dá), repetindo um apelo já feito na semana passada. Essa decisão, defende, servirá também para combater a inflação.

Foi na conferência CNN Portugal International Summit, que se realizou esta segunda-feira, 21 de novembro, que Centeno voltou a defender a subida de juros nos depósitos - até agora, e como refletem a evolução das Euribor, são os créditos que têm sido revistos em alta. O próprio lembrou que já o tinha dito duas vezes na semana passada em relação aos depósitos, e agora foi a “terceira” vez em que sinalizou que os bancos têm de ser capazes de reter aqueles recursos, devendo, para isso, remunerar mais.

Embora enquadrando com a “situação de grande liquidez no mercado” e com a falta de competitividade na captação de recursos, a subida de juros é relevante. Segundo explicou, é importante que os bancos tenham capacidade de reter as aplicações dos portugueses “para não alimentarem o processo inflacionista”; remunerar melhor os depósitos faz com que haja incentivo para ali ficarem estacionados (e não a serem utilizados em compras, que possam contribuir para a subida de preços).

Até agora, os bancos não têm seguido esse comportamento. A média dos novos depósitos é de 0,05%, segundo dados do Banco de Portugal, ainda muito distante de uma inflação que estará já acima de 10%. Sobre este assunto, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Vítor Bento, lembrou que os bancos têm como objetivo gerar negócio; “não é fazer caridade”.

Limites aos lucros das empresas

Aliás, o governador defendeu que esta maior remuneração dos depósitos pelos bancos é “a extensão” daquilo que defendeu em relação às empresas, a quem aconselhou que limitem as suas margens, como deixou claro na entrevista ao Público há duas semanas. O mesmo em relação aos salários, que não devem aumentar em força, sob risco de alimentarem a inflação. “Uma contenção quer na contenção salarial, quer no ciclo de evolução das margens de lucro, pode ajudar bastante o BCE no combate a inflação”, declarou o governador do Banco de Portugal que tem assento no Conselho da autoridade monetária, e que em dezembro poderá já votar a decisão de política monetária (devido às regras de rotatividade, não o fez nas últimas duas reuniões, aquelas que decidiram as subidas históricas da taxa de juro).

Na CNN, Centeno avisou ainda que há “indicadores típicos dos cenários de estagflação”, lembrou que são os mercados de trabalho que estão a sustentar o ambiente económico e social da área do euro, e disse que há condições para que a próxima subida da taxa de juro no euro seja inferior a 75 pontos base (ou seja, não deverá subir para 2,75%).

Houve mais: o governador também lembrou que a taxa de juro é o preferencial passo para o combate à inflação, mas que há outros instrumentos que podem ser usados nesse trabalho, mostrando que é fundamental “reduzir a dimensão do balanço” dos bancos centrais, que engordou com os programas de compra de dívida nos últimos anos, que visaram estimular as economias da moeda única.


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