Economia

Crise não afasta interesse português no mercado cabo-verdiano

19 novembro 2022 12:06

ana maria baião correia

Os empresários portugueses continuam a apostar no mercado cabo-verdiano para reforçar ou fazer novos negócios, interesse que nem a crise inflacionista resfria, com 30% das 150 empresas presentes na 25.ª edição da Feira Internacional de Cabo Verde

19 novembro 2022 12:06

“Temos cerca de 150 empresas, um total de 200 stands de exposição e 30% das empresas são portuguesas. Semelhante aos últimos anos”, explicou à Lusa Angélica Fortes, administradora-delegada da Feira Internacional de Cabo Verde (FIC), entidade pública que organiza anualmente a maior feira multissetorial cabo-verdiana, este ano a decorrer desde 16 de novembro no Mindelo, ilha de São Vicente.

De Aguiar da Beira, a empresa portuguesa Lacto Serra aproveitou a edição de 2021 da Feira Internacional de Cabo Verde, realizada na Praia, para entrar no mercado cabo-verdiano, aposta que reforça agora, ou não fosse Portugal o país que mais vende para Cabo Verde.

“É uma oportunidade porque o povo cabo-verdiano identifica-se com os nossos produtos e é uma oportunidade de podermos vender. Já fizemos algumas operações para Cabo Verde, estamos aqui para continuar estas operações e angariar novos clientes”, explicou à Lusa o gestor, Miguel Espírito Santo.

Ainda assim, não esconde tratar-se de um processo de internacionalização lento, para Cabo Verde, mas que tem sido “interessante”.

Cabo Verde importa cerca de 80% de tudo o que consome, nomeadamente alimentos devido à seca prolongada dos últimos quatro anos, enfrentando atualmente uma forte crise económica decorrente do aumento dos preços no mercado internacional, com uma previsão de taxa de inflação de 8% para este ano e metade em 2023.

Apesar deste cenário, a IbéricaFrio, de Olhão, é outra das quase meia centena de empresas e entidades portugueses representadas por estes dias na maior feira cabo-verdiana, tal como nos últimos anos, enquanto tenta ganhar a confiança dos clientes do ramo da hotelaria e supermercados no arquipélago, fornecendo os equipamentos.

A construção de novos empreendimentos turísticos na ilha, como hotéis e restaurantes, fez a empresa portuguesa virar a sua atenção para São Vicente, como explicou à Lusa um dos administradores, Bruno Dias.

“É um mercado interessante, que está a despontar ao nível turístico, nomeadamente em São Vicente, diferente do Sal, onde o turismo já está forte. É um mercado ainda virgem, mas é um potencial. A nossa ideia é de aproveitar esse nicho de mercado que está a surgir”, contou, já considerando o crescimento superior a 8% que Cabo Verde espera para este ano, impulsionado pela retoma turística.

“Há uns cinco anos que estamos a ‘namorar’ este mercado e a feira ajuda muito a apresentar a empresa e queremos sempre dar continuidade a esta visibilidade. Acreditamos no mercado, acreditamos que Cabo Verde tem potencial, agora é preciso dedicar tempo e dinheiro para haver o retorno”, frisou este investidor, sublinhando que além de Portugal, a empresa está presente em Angola e em breve também no arquipélago cabo-verdiano.

Nesta edição da Feira Internacional de Cabo Verde, além das empresas cabo-verdianas e de Portugal, estão representadas também outras do Brasil, Estados Unidos da América, Espanha, Áustria e Guiné-Bissau.

Já implementada na capital cabo-verdiana desde 2015 e com 13 anos em Portugal, a empresa de marketing e comunicação DBX tem vindo a aproveitar as feiras para fazer negócio, apostando nos seus próprios expositores.

“A nossa implementação em Cabo Verde foi sobretudo através de feiras, muito trabalho também de apresentação da empresa ao mercado e às instituições e analisar as necessidades do mercado para podermos construir soluções novas a todos os níveis. Trabalhamos marketing 360, trabalhamos marketing digital, a presença em feiras e a comunicação das marcas em feiras e o stand que trazemos aqui é uma proposta nova, fácil de montar, modelar e já temos clientes interessados”, explicou a diretora de comunicação da empresa portuguesa, Ana Ribas.

Propostas inovadoras é o que esperam apresentar nesta feira, depois de dois anos de pandemia, com projetos que prometem surpreender os consumidores e “apanhar” as ilhas todas.

As feiras têm sido assim uma porta de entrada de empresas portuguesas no mercado cabo-verdiano e no 25.º aniversário da Feira Internacional de Cabo Verde apostam no país como forma de internacionalizar produtos e serviços.

É o caso dos politécnicos portugueses, que também se fazem representar nesta feira, que termina hoje, para atrair estudantes cabo-verdianos.

“É a nossa primeira vez nesta feira, pois costumamos participar em feiras industriais e comerciais e também feiras de estudantes, para a atração de estudantes para os politécnicos e também para a mobilidade de alunos e de professores, assim como em projetos conjuntos”, afirmou Nuno Madeira, vice-presidente do Instituto Politécnico de Tomar.

Sublinhando a importância de investir no mercado cabo-verdiano, vê esta aposta como um processo vantajoso para os dois países: “Uma coisa que caracteriza os estudantes cabo-verdianos é que têm uma capacidade muito fácil de se integrar nos politécnicos e no ambiente com os outros estudantes. Além disso, pensamos que estamos a contribuir também para o desenvolvimento de Cabo Verde porque muitos destes estudantes vão voltar para Cabo Verde com mais conhecimentos, com outro ambiente de trabalho para que o país se desenvolva cada vez mais”.