Economia

Inflação, crise energética, taxas de juro: ministros das Finanças da zona euro vão escutar Christine Lagarde

Christine Lagarde travou o ataque especulativo no mercado da dívida, mas Itália e Grécia continuam na zona vermelha

wolfgang rattay/reuters

Os ministros das Finanças da Zona Euro reúnem-se esta sexta-feira e sábado, em Praga, na República Checa.O encontro começa à hora a que os colegas da energia discutem respostas à crise energética em Bruxelas

8 setembro 2022 21:58

Susana Frexes

Susana Frexes

correspondente em Bruxelas

Um dia depois de ter anunciado a subida das taxas de juro para 1,25% - um aumento histórico de 75 pontos-base - a diretora do Banco Central Europeu vai a Praga explicar aos ministros das Finanças da Zona Euro os efeitos esperados da nova medida de política monetária.

Com a inflação a disparar, Christine Lagarde já garantiu aos mercados que "dará os passos que forem necessários" para fazer a inflação regressar aos 2% do valor de referência e não descarta mais "duas, três ou quatro" subidas das taxas de juro para fazer descer o consumo e a inflação.

Aos ministros deverá também explicar o "timing" da atuação do BCE que tem sido criticado por uma atuação mais conservadora (ou lenta), quando comparado com as decisões da Reserva Federal Norte-Americana. Quanto a previsões, o BCE veio agora admitir que no pior cenário - que inclui uma ruptura total do fornecimento de gás russo - poderá haver recessão em 2023. E não é o único. O Comissário europeu com a pasta da Economia não descarta uma possível recessão. Paolo Gentiloni também seguiu para Praga depois de ter ido a Lisboa falar sobre a incerteza e os riscos da atual situação económica.

Em Praga, os ministros vão olhar para a Zona Euro, assolada por uma crise energética e uma subida generalizada dos preços. A discussão passará inevitavelmente pelos impactos na política orçamental, numa altura em que os vários países avançam com medidas nacionais para tentar responder não só aos preços da energia que continuam a disparar e às consequências socioeconómicas e à quebra do poder de compra.

Será uma reunião informal - é em Praga porque a República Checa tem a presidência rotativa da UE - a competir com o encontro extraordinário de ministros da energia e ambiente que arranca também pela manhã em Bruxelas. Não são esperadas decisões nem de uma, nem de outra reunião. Serão ambas para discutir e, no caso dos ministros da energia, para perceber que medidas têm tração e poderão avançar a nível europeu.

O Expresso sabe que há abertura para discutir um limite às receitas inesperadas das companhias de energia inframarginais, ou mesmo uma possível taxa sobre os lucros que possa ser usada para compensar as famílias e empresas vulneráveis. Porém, está para já fora de questão avançar com a imposição de um preço máximo ao gás russo ou o corte obrigatório do consumo de eletricidade, como foi defendido esta quarta-feira pela presidente da Comissão Europeia.

Regras orçamentais em banho maria

Já no sábado à tarde, os ministros regressam ao difícil debate sobre a revisão das regras orçamentais. Estão congeladas até final de 2023 - por causa do impacto da Guerra na Ucrânia e a crise que se seguiu - e, esse congelamento, retira urgência a um entendimento sobre qualquer reforma das regras do défice e da dívida. Um processo que se arrasta há anos, que foi sendo adiado com a pandemia e agora de novo.

No outono, a Comissão Europeia deveria avançar com uma proposta de revisão - mas não é de descartar que volte a adiar tal como vez no outono passado.

Em todo o caso, são descartadas revisões profundas das regras. Como lembrava esta quinta-feira o ministro alemão das Finanças ao POLITICO, nos limites do défice (3%) e da dívida (60%) não se toca. Mas Christian Lindner está "aberto" a que o ritmo de redução da dívida possa ser mais lento que o previsto nas regras, para não estrangular os governos.

Lindner assume-se como "um falcão amigo", prometendo ajudar a encontrar um equilíbrio entre os países que têm uma posição mais ortodoxa sobre as regras - sobretudo os nórdicos (e a própria Alemanha) e os que pedem maior flexibilidade, sobretudo a sul. Mas deixa já um aviso, para Berlim está fora de questão descontar os investimentos públicos (por exemplo verdes) do cálculo da dívida.

Leão também em banho-maria

Pode ainda não ser desta (uma vez mais) que se sabe quem será o próximo diretor-geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade. O ex-ministro das Finanças, João Leão, é um dos dois finalistas juntamente com o ex-colega luxemburguês Pierre Gramegna.

O Expresso sabe que a intenção do presidente do Eurogrupo, Paschal Donohoe, é levar os dois a votos. Mas não é claro que haja fumo branco. Em julho, o português foi mais votado, mas não chegou para garantir a maioria necessária que dá acesso ao lugar.