Economia

Indústria com consumo intensivo de eletricidade alerta para "situação insustentável"

5 setembro 2022 11:45

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

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Associação que representa a indústria com consumo intensivo de eletricidade fala numa “situação insustentável” e sugere ao Governo um conjunto de medidas para atenuar os problemas da escalada da fatura energética

5 setembro 2022 11:45

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Eléctrica (APIGCEE) considera que se vive uma “situação insustentável” ao nível dos custos com a energia, quer de eletricidade quer de gás natural.

Num comunicado divulgado esta segunda-feira, a APIGCEE nota que as medidas já colocadas em prática pelo Governo, como o mecanismo ibérico para reduzir o contágio dos preços do gás aos da eletricidade, “mitigaram, até certo ponto, a escalada de preços no mercado grossista de electricidade mas não impediram que o actual preço no mercado grossista seja da ordem dos 200 euros por MWh, a que acrescem cerca de 150 euros por MWh pela compensação do custo do gás”.

“O preço médio de 350 euros por MWh do mês de agosto compara com 36 euros por MWh e 105 euros por MWh em agosto de 2020 e 2021, respectivamente”, sublinha a mesma associação.

A APIGCEE realça que os seus associados “têm mostrado resiliência, conseguindo, na primeira metade deste ano, internalizar o agravamento de custos que não foi possível fazer reflectir no preço final dos seus produtos”.

Só que, diz a associação, esta situação está a “chegar ao fim”, e não será possível “incorporar uma factura energética cada vez mais pesada e manter a competitividade nos mercados internacionais onde empresas de outras geografias beneficiam de energia mais barata”.

“Sem medidas adicionais a APIGCEE teme a redução pronunciada da produção e mesmo o encerramento de actividade, criando uma situação “bola-de-neve” com consequências dramáticas a nível social e económico”, refere o comunicado da associação que representa as indústrias com consumos intensivos de eletricidade.

O que propõe a indústria?

A APIGCEE deixa ao Governo várias propostas, para implementar medidas em articulação com outros governos europeus, de forma a mitigar o impacto do disparo da fatura energética.

Uma das ideias é estabelecer contratos bilaterais de fornecimento de eletricidade entre o comercializador de último recurso (CUR, com tarifas reguladas) e os consumidores eletrointensivos. É também proposta a contratação de gás natural aos CUR deste setor.

Por outro lado, a associação defende a devolução ao sistema elétrico de receitas com emissões de CO2 que foram incorporadas no preço de mercado da eletricidade, mas que não corresponderam a emissões efetivas de dióxido de carbono.

E é sugerida a rápida disponibilização da compensação por custos indiretos decorrentes das emissões de CO2, matéria na qual o Governo disse, no final de agosto, que está a trabalhar.

Redesenhar o mercado de eletricidade

Outro ponto levantado pelos industriais é o do desenho do mercado grossista de eletricidade. “A APIGCEE entende, também, que urge assumir uma posição mais agressiva a nível dos mercados de electricidade, cujo modelo marginalista não tem em conta a actual estrutura de produção com uma enorme componente renovável nem o elevado nível de preços de CO2”, refere a associação no seu comunicado.

A APIGCEE sugere que as tecnologias com pequenos custos operacionais e com emissões de CO2 marginais (como a eólica, fotovoltaica e hídrica sem bombagem) “possam ser remuneradas por um preço adequado à amortização dos investimentos, garantindo uma margem de lucro razoável”.

“As centrais de ciclo combinado a gás natural, com uma forte componente variável, através da cotação do gás natural e das licenças de CO2, terão de continuar a ser remuneradas tendo em conta estes custos”, reconhece a associação.