Economia

Mercado energético a ferver: gás bate recordes e eletricidade atinge máximo de mais de dois meses

22 agosto 2022 13:22

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

foto: getty images

Os contratos de gás natural de referência na Europa aproximam-se dos 300 euros por MWh e a eletricidade em Portugal e Espanha alcançou um preço grossista inédito desde que entrou em vigor o mecanismo ibérico para fazer frente à escalada do gás

22 agosto 2022 13:22

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O mercado energético europeu arrancou a semana a ferver. A cotação do gás natural no contrato de referência na Europa, o TTF (Title Transfer Facility, negociado na Holanda), bateu um recorde na sexta-feira e esta segunda-feira deverá voltar a fechar em alta, puxando também pelos preços da eletricidade para o dia seguinte pela Europa fora, incluindo na Península Ibérica.

A cotação do TTF fechou na sexta-feira num nível recorde de 244,5 euros por megawatt hora (MWh) e esta segunda-feira abriu em alta nos 266,5 euros por MWh, chegando a um pico intradiário de 292,99 euros por MWh perto das 8h30. Durante o resto da manhã, a cotação do gás aliviou ligeiramente para os 277 euros por MWh, mas voltou ao final da manhã a superar os 290 euros por MWh.

Negociando perto dos 300 euros por MWh, sob pressão do anúncio de sexta-feira da Gazprom de que entre 31 de agosto e 2 de setembro cortará o gás à Europa, para manutenção do gasoduto Nord Stream 1, a tendência de subida da cotação dos contratos TTF está a gerar um efeito de arrasto nos mercados de eletricidade, eles próprios dependentes, em grande medida, do gás natural para alimentar as centrais de ciclo combinado.

Mibel atinge preço mais alto desde a criação do mecanismo ibérico

No mercado ibérico de eletricidade (Mibel) o preço grossista da eletricidade para esta terça-feira, 23 de agosto, ascenderá a 182,93 euros por MWh, que é um máximo de mais de dois meses. É preciso recuar a 14 de junho para encontrar um preço grossista mais alto na média diária do Mibel: 214,05 euros por MWh.

A partir de 15 de junho, data em que entrou em vigor o novo mecanismo ibérico para proteger o Mibel do efeito da escalada da cotação do gás, o preço diário do mercado ibérico de eletricidade recuou e manteve-se relativamente a salvo do disparo da cotação do gás, ao contrário de outros mercados europeus.

Nas últimas semanas mercados de referência na Europa como França e Alemanha têm transacionado a sua eletricidade a preços diários na casa dos 500 euros por MWh, ao passo que o preço grossista ibérico tem estado de forma consistente abaixo dos 200 euros por MWh (antes da aplicação do ajuste associado ao mecanismo).

Esse ajuste compensa as centrais a gás natural por parte da diferença entre o custo real que têm na produção de eletricidade e o preço de referência para o gás que os governos de Portugal e Espanha criaram para vigorar entre junho de 2022 e maio de 2023, começando nos 40 euros por MWh.

Ora, os dados provisórios publicados pelo OMIE (o operador do mercado do Mibel para o dia seguinte) indicam que o custo do ajuste esta terça-feira ascenderá a 182 euros por MWh, a somar aos 182,93 euros por MWh do preço de base antes do ajuste.

Esta compensação será suportada pelos consumidores de eletricidade da Península Ibérica, nomeadamente os que tenham contratos de eletricidade com preços indexados aos preços grossistas ou os que tenham contratos de preço fixo celebrados após 26 de abril.

Em termos líquidos o mecanismo ibérico tem um impacto positivo para a generalidade dos consumidores, já que baixa o custo associado a toda a eletricidade que não venha das centrais a gás.

Há vários fatores que estão a pressionar os custos grossistas da eletricidade na Europa, incluindo, embora com menor intensidade, a Península Ibérica.

CO2 com preços recorde

Centrais termoelétricas, como as alimentadas a carvão e a gás natural, têm de refletir nos preços cobrados pela eletricidade não só o custo do combustível mas também os encargos com licenças de emissão de dióxido de carbono (CO2). E estas licenças estão a ficar cada vez mais caras.

Na passada sexta-feira a cotação dos direitos de emissão de CO2 na Europa atingiu um valor recorde de 98,01 euros por tonelada, batendo os 96,7 euros por tonelada registados a 7 de fevereiro, de acordo com os dados monitorizados pela plataforma Ember Climate.

Somando o agravamento da cotação do gás ao encarecimento das licenças de CO2, os produtores termoelétricos europeus estão a cobrar mais pela eletricidade que injetam na rede.

Os contratos de eletricidade para o dia seguinte em França chegarão esta terça-feira aos 612 euros por MWh em França (o equivalente a 61,2 cêntimos por kilowatt hora, em termos grossistas, ou seja, antes de aplicados os custos de transporte e distribuição da energia). E na Alemanha o preço grossista da eletricidade esta terça-feira ronda os 600 euros por MWh.

Vários países terão eletricidade a mais de 600 euros por MWh esta terça-feira, como são os casos de Áustria, Bélgica, Dinamarca, Grécia, Croácia, Hungria, Holanda, entre outros.

Ibéria a exportar em força para França

Com parte do seu parque nuclear parado, França tem estado sob forte pressão no que respeita ao setor elétrico. Esta terça-feira as interligações entre Espanha e França voltarão a estar totalmente ocupadas, permitindo ao território gaulês importar eletricidade da Península Ibérica a um preço bastante menor do que o da sua produção doméstica de eletricidade.