Economia

Aumento de capital na Greenvolt. Uma operação de €100 milhões em 10 perguntas e respostas

Foto: Getty Images

A Greenvolt, que desde a entrada em bolsa, há menos de um ano, valorizou mais de 60%, quer levantar mais 100 milhões de euros. Conheça os detalhes do aumento de capital, em 10 perguntas e respostas

20 junho 2022 7:00

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Menos de um ano depois de angariar 150 milhões de euros num mediático aumento de capital, que a projetou para a primeira divisão da bolsa portuguesa, a Greenvolt volta ao mercado para pedir outros 100 milhões aos investidores, para financiar um crescimento mais rápido do que o inicialmente previsto. Parte do dinheiro já está assegurado pelos acionistas de referência da empresa liderada por João Manso Neto. Explicamos-lhe aqui em que consistirá o aumento de capital.

Em que consiste este aumento de capital?

A Greenvolt irá emitir novas ações no montante de até 99,99 milhões de euros, que podem ser objeto de ordem de subscrição entre 20 de junho e 4 de julho, tendo o preço de 5,62 euros por ação, um valor abaixo da cotação atual dos títulos da empresa de energias renováveis, que na passada sexta-feira, 17 de julho, fechou a valer 6,89 euros por ação.

Qual é o motivo deste aumento de capital?

A Greenvolt explica, no anúncio da operação, que o aumento de capital “visa reforçar de forma significativa o plano de crescimento da empresa, acelerando os investimentos em fontes de energia renováveis”. O objetivo é utilizar o encaixe da operação para realizar “mais depressa” os investimentos previstos no seu plano estratégico e a concretização de oportunidades de negócio. O dinheiro será usado para acelerar o desenvolvimento de novos projetos de energias renováveis, para financiar a componente de capitais próprios em alguns desses projetos enquanto eles não se auto-financiarem, e para obter liquidez adicional.

Mas a empresa não tinha recentemente angariado capital?

Sim. Em julho de 2021 a Greenvolt avançou com uma dispersão de capital, entrando em bolsa, na Euronext Lisbon, operação através da qual levantou no mercado 150 milhões de euros. Todavia, a empresa justifica a necessidade deste aumento de capital (menos de um ano depois da entrada em bolsa) com uma maior ambição estratégica: a carteira de projetos da Greenvolt disparou dos 3,6 gigawatts (GW) apresentados na dispersão de capital para os atuais 6,6 GW.

Quem pode participar e com que custos?

Como acontece em operações do género, este aumento de capital conferiu aos atuais acionistas da Greenvolt direitos de preferência de subscrição das novas ações, que lhes permitem garantir a compra dos novos títulos, ou alienar esses direitos no mercado. Mas quem ainda não é acionista também pode, a partir desta segunda-feira, 20 de junho, dar ordem de subscrição das novas ações da Greenvolt, até 4 de julho. Os resultados da oferta serão publicamente anunciados a 5 de julho. Os custos de subscrição dependem de banco para banco. Os investidores devem consultar o seu intermediário financeiro para conhecer as comissões e outros encargos que estão associadas a uma eventual subscrição de títulos.

Depois de obter as ações posso vender quando quiser?

O primeiro dia de negociação das novas ações da Greenvolt é 11 de julho. A partir daí os investidores podem vender quando quiserem. Contudo, os principais acionistas da Greenvolt, designadamente a Promendo Investimentos, Actium Capital, Livrefluxo, Caderno Azul, 1 Thing Investments e KWE Partners, já se comprometeram a não vender as ações durante pelo menos 180 dias (seis meses).

Como ficará a estrutura acionista da Greenvolt?

Os acionistas de referência da Greenvolt acima referidos comprometeram-se a subscrever as novas ações da empresa, na proporção das suas participações, o que garante que 48% dos novos títulos estão já reservados a esses investidores. Já a Altri indicou que não exercerá os seus direitos, pelo que diluirá a sua participação dos atuais 19% para cerca de 16,6%. Mais de metade do capital da Greenvolt continuará, ainda assim, nas mãos do núcleo duro de acionistas da Altri. Há ainda um compromisso dos bancos que participam na operação (BNP Paribas, Santander, CaixaBank, Caixa BI, Mediobanca e JB Capital Markets) de tomarem as ações do aumento de capital que possam não ser cobertas pela procura dos investidores no mercado.

Qual foi a evolução das ações da Greenvolt?

A Greenvolt entrou em bolsa a 15 de julho, a 4,25 euros por ação. Logo na estreia as suas ações dispararam 25%. Na última sexta-feira, 17 de junho, os papéis da Greenvolt valiam 6,89 euros, ou seja, mais 62% do que o preço de entrada em bolsa. Atingiram o seu pico a 6 de abril, quando fecharam a sessão em 7,81 euros por ação.

Que perspetivas tem a empresa?

A Greenvolt tem atualmente uma carteira de projetos para desenvolver de 6,6 GW (contra 3,6 GW quando da entrada em bolsa), dos quais 2,7 GW estão prontos a construir ou com entrada em operação prevista até 2023 (há um ano a empresa tinha apenas 1 GW neste estado avançado). Se hoje a Greenvolt explora uma capacidade própria de 188 megawatts (MW), dos quais 76% são centrais de biomassa e 24% centrais eólicas e solares, o plano para 2026 é ter 2.100 MW operacionais, sendo 7% em biomassa e 93% com energia eólica e solar. A Greenvolt prevê investir 3,8 a 4,2 mil milhões de euros nos próximos cinco anos (mais do dobro do que previa na entrada em bolsa) e acelerar a geração de EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) e o resultado líquido.

Que riscos apresenta a empresa?

Como em qualquer aumento de capital, os riscos da empresa estão descritos no prospeto, e abrangem um conjunto diversificado de potenciais ocorrências que podem limitar a geração de resultados da companhia. Vão desde o custo da biomassa e a potencial escassez deste recurso até ao facto de estas centrais estarem na sua maior parte dependentes da contínua operação das fábricas de pasta de papel da Altri. Os riscos regulatórios (e o setor da energia tem sido palco de algumas intervenções governamentais e regulatórias contestadas pelas empresas) também podem ameaçar os resultados da empresa. E há também riscos de que parte da carteira de projetos não possa ir em frente devido a problemas de licenciamento, por exemplo. São, contudo, riscos transversais às empresas de energia.

Como compara a Greenvolt com outras empresas de energia?

A Greenvolt começou, quando entrou em bolsa, por ser uma empresa de energias renováveis que combinava uma parcela de produção elétrica de remuneração garantida (centrais a biomassa, já operacionais) com o desenvolvimento de novos projetos eólicos e solares (cuja remuneração depende do quadro regulatório de cada geografia). Mas ao longo do último ano a Greenvolt não só aumentou de forma substancial as perspetivas ligadas à energia eólica e solar (que terão um peso maior que o inicialmente antecipado pela empresa) como também avançou com várias aquisições para desenvolver projetos de energia solar distribuída (ou descentralizada) em Portugal e Espanha.

A Greenvolt é uma de cinco empresas de energia que integram as 15 do índice bolsista português, o PSI. Do índice também fazem parte a EDP, EDP Renováveis, Galp e REN. A REN é uma empresa de gestão de redes de eletricidade e gás natural cuja atividade é fundamentalmente regulada, e com receitas estáveis e previsíveis. E a Galp, apesar de estar a apostar na energia solar, é ainda uma companhia cujos ganhos assentam sobretudo na exploração petrolífera. O grupo EDP é, entre as empresas de energia da bolsa portuguesa, o que mais se assemelha, em perfil de negócio, à Greenvolt, mas com uma escala muito maior e com diferenças relevantes, quer porque a EDP está geograficamente mais diversificada, quer porque tem ainda uma componente importante de comercialização de energia ao cliente final e também um negócio de redes (a Greenvolt está centrada no desenvolvimento de projetos de energia renovável e no negócio emergente de produção descentralizada).