Economia

Mecanismos para limitar preços do gás ameaçam metas da transição energética, avisa "patrão" das elétricas europeias

15 junho 2022 12:44

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

foto: getty images

"Não pagar o preço verdadeiro pela energia fóssil não ajuda a resolver os desafios da transição energética", afirma o líder da associação Eurelectric, sobre o limite criado por Portugal e Espanha para o custo do gás

15 junho 2022 12:44

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

"Precisamos de evitar medidas de intervenção no mercado. As medidas de limitação dos preços do gás que estão a ser implementadas em alguns países vão contra as prioridades das alterações climáticas", afirmou esta quarta-feira o presidente da Eurelectric, a associação europeia de empresas elétricas, durante a sua conferência anual "Power Summit", em Bruxelas.

Em conferência de imprensa, durante o evento, o presidente da Eurelectric, Jean-Bernard Lévy, que é também presidente executivo da francesa EDF, manifestou as suas reservas quanto ao mecanismo que Portugal e Espanha decidiram implementar, e que começou a vigorar esta quarta-feira.

O mecanismo impõe um custo de referência para o gás natural, de forma a limitar o preço a que as centrais de ciclo combinado (alimentadas a gás) podem colocar a sua eletricidade no mercado ibérico.

Embora admita que, pelo seu caráter temporário e extraordinário, a medida de Portugal e Espanha possa fazer parte de um pacote de soluções para responder ao disparo da fatura energética de famílias e empresas, o presidente da Eurelectric considera que o mecanismo não é uma opção acertada para o longo prazo.

"Não pagar o preço verdadeiro pela energia fóssil não ajuda a resolver os desafios da transição energética", comentou Jean-Bernard Lévy.

"Acreditamos que outras soluções podem ser implementadas", referiu o presidente da Eurelectric, lembrando que é possível pôr em marcha medidas que protejam especificamente os consumidores de baixo rendimento, por exemplo.

O mesmo responsável considera que a Europa não precisa necessariamente de redesenhar o modelo de funcionamento do mercado elétrico, apesar de nos últimos meses os preços grossistas terem sido fortemente afetados, em alta, pela subida da cotação do gás natural.

"Não vemos necessidade de um novo desenho de mercado, mas devemos trabalhar no que podemos fazer para ter um melhor desenho de mercado no futuro", declarou Lévy.

Na sua conferência de imprensa, o presidente da Eurelectric elencou ainda um conjunto de cinco prioridades que a União Europeia deve seguir para promover a descarbonização.

Uma dessas prioridades será "elevar a fasquia na eletricidade de origem renovável", e outra será "eletrificar tudo o que pode ser eletrificado", porque a quota da eletricidade no consumo final de energia na Europa tem estagnado em torno dos 22%.

Mas a Europa também deve apostar nas redes de distribuição (que pelos cálculos da Eurelectric precisarão de investimentos de 400 mil milhões de euros até 2030), ter um quadro jurídico e regulatório que assegure a captação de investimento, e proteger os consumidores, defendeu Jean-Bernard Lévy.

O Expresso viajou a Bruxelas a convite da Eurelectric.