Economia

Com vários portos europeus, asiáticos e americanos congestionados, os portugueses continuam a fluir. Porquê?

17 janeiro 2022 18:14

O porto de Sines, o maior do país, garante que as operações “têm sido fluídas”, num momento em que existem disrupções em vários portos internacionais

17 janeiro 2022 18:14

A pandemia tem afetado as cadeias logísticas internacionais, em particular nos portos. A covid-19 tanto dita quebras do lado dos profissionais, relacionadas com a doença, como fechos de portos e também alterações na procura de bens que complicam a gestão. No entanto, em Portugal, os portos têm funcionado com alguma normalidade, embora também aqui se notem os atrasos e mudanças de preços que acontecem ao longo da cadeia. 

“A operação dentro do porto não teve problemas como na China e Los Angeles”, conta o presidente do porto de Sines, José Luís Cacho. “Felizmente temos conseguido controlar as coisas em termos de pessoal. No caso concreto de Sines, as operações estão fluídas, não houve atrasos devido à pandemia”, garante. 

A operação dentro do porto não teve problemas como na China e Los Angeles. Felizmente temos conseguido controlar as coisas em termos de pessoal. No caso concreto de Sines, as operações estão fluídas, não houve atrasos devido à pandemia. [Mas] tem havido crescimento significativo de preços nos contentores e atrasos nas entregas.

José Luís Cacho, presidente do Porto de Sines

Ainda assim, admite alguns impactos: “Tem havido crescimento significativo de preços nos contentores e atrasos nas entregas”. Apesar de no porto tudo se processar normalmente e sem demoras extra, um contentor que transita da China para Europa, ou carrega na Europa e segue para outro, tem demorado significativamente, quase o dobro do tempo que demorava”, relata. Um contentor que fosse de Portugal para a China custava na ordem de 3.000 dólares antes da pandemia, e hoje custa entre 12.000 e 15.000 dólares. 

O presidente espera contudo que exista uma estabilização da situação no primeiro semestre, e diz que tem vindo a sentir algumas melhorias. Os responsáveis do porto de Leixões não falaram com o Expresso em tempo útil. 

Algo que o sistema portuário português tem de “muito bom” é que “é muito eficiente”, defende o secretário-geral da associação Fórum Oceano, Ruben Eiras. O mesmo indica como fator adjuvante que “os portos portugueses são pioneiros na janela única portuária, evoluiu para a janela única logística, onde se faz a integração digital de toda a informação da cadeia logística”. José Luís atesta que “nos portos portugueses há mais de 15 anos, desde 2005, todas as cargas são feitas de forma digital. Ajuda muito à eficiência”. No seu entender, “a tecnologia contribuiu muito para o desempenho positivo” do porto a que preside, permitindo por exemplo soluções de teletrabalho. Capitanias e alfândegas podem ter processos parciais ou totais de trabalho remoto, indica. 

“Portugal está a responder muito bem”, confirma ainda o diretor da Maersk nos países do Sudoeste da Europa, entre os quais Portugal, Diego Perdones. Por cá, a gigante dos transportes e da logística diz que não teve problemas com a infraestrutura portuária, que considera “adequada para gerir a procura de hoje”, sendo que em Portugal também não será tão elevada como noutros países. Por outro lado, aponta uma boa gestão da pandemia, e sublinha a elevada taxa de vacinação, que permitem que o problema não se agrave da mesma forma nos portos portugueses em relação a outros estrangeiros. 

Portugal está a responder muito bem

Diogo Perdones, diretor da Maersk

Além disso, alguns dos clientes em Portugal parecem ter uma “visão de longo-prazo” que lhes permite serem menos afetados. “Aqueles que planeiam a longo-prazo têm muito menos problemas de disponibilidade”, diz Diego Perdones. E não terá tanto a ver com o setor de que estamos a falar, mas mais com a qualidade da estratégia das empresas, defende. O presidente do porto de Sines, contudo, assinala que normalmente as empresas procuravam adaptar os seus stocks a estes transit times [tempo das cargas em trânsito], que eram certos, e portanto hoje saem “fortemente prejudicadas” com a imprevisibilidade. 

A nível internacional, a Maersk refere que tem seguido também o caminho da tecnologia, e procurado desenvolver soluções digitais que permitam um melhor planeamento. “Quanto se tem uma maior visibilidade sobre as rotas, é mais fácil fazer previsões”, diz. Neste sentido, o esforço é o de colaborar com os clientes e entregar-lhes o máximo de informação. 

Mas o que é que se passa lá fora?

O responsável da Maersk explica a crise global comparando-a a um incidente numa estação de metro: se uma fecha, os passageiros arranjam alternativas como ir até à próxima estação, congestionando mais a segunda e acabando por atrasar as viagens num todo. Com a diferença de que não estamos a falar de passageiros, mas sim de contentores de 25 toneladas, que não serão fáceis de transportar.

Segundo o mesmo, já antes da pandemia havia pouca margem de erro que fosse possível sem afetar o geral das operações. Agora, com alguns portos fechados, com falta de trabalhadores por motivos relacionados com a pandemia (doença ou isolamentos preventivos), e o mesmo no caso dos motoristas de camiões que fazem parte da cadeia, “não há meios para fazer todos os ajustes que seriam necessários” a manter o normal fluxo de bens. 

Não há meios para fazer todos os ajustes que seriam necessários. (…) A procura ressurgiu muito depressa. Especialmente nos Estados Unidos é muito difícil.

Diogo Perdones, diretor da Maersk

Na Maersk, os desencontros na cadeia têm significado que, apesar de terem ampliado a capacidade de transporte em 4%, estão a transportar na verdade menos 4% do que antes da pandemia, porque não conseguem otimizar a carga nos navios. 

A situação é agravada, ainda, por um salto na procura.  A pandemia provocou alguns meses de grande quebra no consumo. Mas depois, mudaram-se simplesmente os hábitos, conta Perdones: o dinheiro poupado em viagens e outras experiências foi utilizado para itens que melhorassem a vida em casa, os quais pressionam as linhas de transporte. “A procura ressurgiu muito depressa. Especialmente nos Estados Unidos é muito difícil”. 

O problema nos Estados Unidos é tão mais marcante do que noutros lados que é o porto de Los Angeles que Perdones acaba por destacar como o exemplo mais agudo desta crise global. Isto porque, além de um salto especialmente alto na procura que passa por este porto, não existem grandes alternativas nas redondezas. O tempo de espera no porto está a rondar 40 dias na estimativa mais recente da Maersk, embora possa alterar-se significativamente de semana para semana.

De qualquer forma, há que ressalvar que o primeiro trimestre sempre foi “difícil”, descreve a Maersk, tendo em conta as condições meteorológicas mais severas noc caso da Europa, e ainda o Ano Novo Chinês. As notícias internacionais dão ainda conta de grandes disrupções na China, dada a pandemia tendo em conta o que a Maersk considera uma forma “muito radical” de lidar com a pandemia. Se há um surto, fecham o porto. No entanto, isto é contrabalançado pela hipótese de fazer entregas por terra e pela dimensão da infraestrutura portuária, que oferece alternativas. “Seria injusto nomear outros portos [além de Los Angeles] porque todas as semanas o cenário muda”, afirma Perdones. 

Outro problema que surge, além do fluxo, são as taxas de carga. A transportadora prefere não partilhar números, mas admite que aumentaram, sobretudo para os clientes que não possuem contratos a longo-prazo. 

Ainda assim, Diego Perdones considera importante olhar para o copo meio cheio: tendo em conta as dificuldades, considera que os operadores logísticos estão a conseguir enfrentar bem as dificuldades, e dá como exemplo as vacinas para a covid-19, que continuam a chegar aos seus destinos com eficácia.  

No futuro, ainda mais tecnologia e a descarbonização

“Esta situação também mostra para onde o sistema vai caminhar”, acredita Eiras, referindo-se à automação, na qual toma Xangai como referência. Espera que a pandemia acelere a mudança para que gruas, pórticos, contentores e até navios, tudo seja robotizado, controlado a partir de uma central. “ Isto traz uma oportunidade nova para a indústria naval portuguesa”, assinala. 

Isto traz uma oportunidade nova para a indústria naval portuguesa

Rúben Eiras, secretário-geral do Fórum Oceano

Em paralelo, a tecnologia pode ter um impacto positivo indireto na descarbonização desta indústria. “Digitalizando o processo, torna- se mais eficiente, pois menos recursos consome, energéticos e outros”, indica Eiras. 

A Maersk afirma que está atenta a estas tendências. em termos tecnológicos, já foram explicados os esforços. No que toca a descarbonização, a empresa está a renovar a frota, que conta com 750 barcos hoje em dia, e espera adquirir 12 movidos a combustíveis não poluentes entre 2024 e 2025. A meta é ser neutra em carbono em 2040.