Economia

Centeno destaca "forte e rápida recuperação", deixa avisos sobre moratórias e defende que não se deve mexer na legislação laboral

16 junho 2021 13:52

Mário Centeno, governador do Banco de Portugal

foto tiago miranda

Governador do Banco de Portugal aponta que recuperação da crise pandémica será muito mais rápida dos que os anteriores episódios recessivos da economia portuguesa desde a criação do euro

16 junho 2021 13:52

O Banco de Portugal (BdP) antecipou "de forma significativa" o momento em que a economia portuguesa deve voltar a atingir o nível pré-pandemia, destacou esta quarta-feira o governador do BdP, Mário Centeno, na apresentação do Boletim Económico de junho.

Como resultado de uma forte revisão em alta do cenário de crescimento para 2021 e 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) deve atingir essa fasquia na primeira metade de 2022, e não na segunda metade desse ano, como o BdP esperava em março.

Centeno apontou que a recessão provocada pela crise pandémica foi "mais profunda", mas a recuperação será "mais rápida" do que nos anteriores episódios recessivos da economia portuguesa desde a criação do euro. Falou numa "crise profunda", mas com "forte e rápida recuperação". E espera mesmo que em 2023 a atividade económica nacional fique já próximo do que era projetado para esse ano em 2919, antes da pandemia.

Uma recuperação que pode até ser mais rápida e expressiva. Centeno falou em "riscos em alta", que vêm da poupança acumulada pelas famílias. "Comparando a poupança projetada em 2019 com a poupança observada e agora projetada até 2023, chegamos a 17,5 mil milhões de euros de poupança acumulada em excesso, que não é usada", quantificou Centeno. É o correspondente a 11,9% do rendimento disponível. "Se decisões de utilização dessa poupança forem distintas, com maior propensão a consumir, isso gera um risco em alta do cenário de crescimento", explicou o governador.

Contudo, para garantir a solidez da recuperação, o BdP deixou avisos ao Governo. A começar pela estabilidade da legislação laboral. Numa altura em que o Executivo tem piscado o olho à esquerda neste domínio, Centeno defendeu que "deve ser dada prioridade à estabilidade da legislação laboral" e "à sua previsibilidade". E foi mais longe: "A nossa, minha, avaliação [da legislação laboral] é muito positiva face às respostas que o mercado de trabalho deu aos desafios, tanto no pré-crise, como na crise", vincou Centeno, destacando o peso crescente do emprego permanente e o aumento das remunerações.

Ainda sobre o mercado de trabalho, Centeno considerou que "tem sido sinal muito visível da resiliência da economia portuguesa neste muito difícil contexto" e "tem sido a âncora da recuperação", afirmou, com o BdP a prever que em 2023 a taxa de desemprego fique já abaixo do valor pré-crise, de 2019.

O segundo grande aviso à navegação deixado por Centeno ao Governo - de que fez parte como ministro das Finanças até junho do ano passado - passou pelo tema quente das moratórias. Para Centeno, é preciso "apoiar as empresas na saída das moratórias", mas esse apoio deve ser "temporário" e "não deve criar pressões na despesa pública". Centeno frisou ainda que o apoio deve ser "focado", já que muitos sectores vão fechar 2021 com um nível de atividade acima do pré-crise.

"Ao Estado cabe assegurar mecanismos de transição para sectores mais afetados", mas "temporários" e que "as empresas também sejam chamadas a dar contributo. Não cabe só ao Estado", vincou Centeno. E insistiu que "apoios do Estado que perduram no tempo levam a perdas para o Estado que perduram no tempo".