Economia

Groundforce. Casimiro afasta Paulo Neto Leite: alega “quebra de confiança” e assume a presidência executiva

5 abril 2021 22:49

Alfredo Casimiro

gonçalo rosa da silva/visão

Acionista maioritário da Groundforce, Alfredo Casimiro afastou Paulo Neto Leite da presidência da comissão executiva da empresa e assumiu a liderança. O empresário fala em “quebra de confiança”. Neto Leite diz que cumpriu sempre o seu dever fiduciário e defendeu os interesses da empresa e dos trabalhadores. A tensão é grande

5 abril 2021 22:49

Sobe a tensão na gestão da Groundforce. Paulo Neto Leite, presidente da comissão executiva da companhia de handling, foi destituído esta segunda-feira em reunião do conselho de administração. Será substituído por Alfredo Casimiro, que acumulará o cargo com o de presidente do conselho de administração.

O confronto entre Casimiro e Neto Leite é aberto. Neto Leite é presidente da Groundforce desde 2017 e é um dos candidatos à compra da participação da Pasogal de Alfredo Casimiro na Groundforce, o equivalente a 50,1% do capital. Casimiro considerou "uma traição" o avanço de Paulo Neto Leite sobre a Groundforce. Neto Leite tem um fundo a apoiá-lo na eventual compra dos 50,1% de Casimiro, ele que tinha entrado para a Groundforce em 2017 por convite do próprio Alfredo Casimiro - sai agora pela mão deste.

Alfredo Casimiro avança, em declarações enviadas às redações, que a destituição de Paulo Neto Leite se deve a uma "total quebra de confiança no presidente do conselho de administração". E aponta também para "uma violação grave dos deveres de lealdade". Paulo Neto Leit "deixa hoje de ocupar o cargo de presidente da comissão executiva da Groundforce" mas mantém-se como administrador não executivo. Estava nomeado até dezembro de 2021.

Alfredo Casimiro está em guerra aberta com o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, por causa da Groundforce. E o Montepio já avançou com a execução do pendor das ações detidas pela Pasogal na empresa de handling por incumprimento face a um crédito superior a três milhões de euros.

Além de Casimiro na comissão executiva da Groundforce fica Beatriz Filipe, apontada para o cargo pelo acionista TAP (49,9%), e Gonçalo Faria de Carvalho, gestor escolhido pelo empresário e maior acionista da companhia.

Alfredo Casimiro avança, em nota aos trabalhadores a que o Expresso teve acesso, que "a destituição de Paulo Neto Leite, com efeitos imediatos, justifica-se por um conjunto de situações que configuraram uma violação grave dos deveres de lealdade". "Os acionistas entenderam que a confiança no até aqui CEO foi ferida de morte e que este não tem condições para conduzir os negócios sociais da empresa ou para se envolver na procura de soluções sustentáveis para a Groundforce."

Paulo Neto Leite assegura que sempre cumpriu o seu dever fiduciário, alega que tudo fez para defender a empresa e os trabalhadores e chama a si a decisão de pagar os salários a 19 de março, semanas depois do incumprimento. "Cumpri o meu papel neste processo, sempre de acordo com o dever fiduciário e sempre, em todo o momento, guiado pelos meus princípios e pela minha consciência. Não sei estar de outra forma na vida", salienta o gestor em nota aos trabalhadores, enviada ao início da noite. "Em todos os momentos estou preparado para suportar as consequências das minhas decisões (...). Sendo assim, cumprindo com o meu dever e com a minha palavra, a 19 de março tomei a decisão possível que permitiria o pagamento dos salários dos trabalhadores, protegendo assim a empresa e defendendo os seus stakeholders", afirma Paulo Neto Leite. E prossegue: "A partir desse momento continuei focado na única coisa que me preocupava nesse momento: garantir a continuidade da empresa, com a solução que permitia injetar liquidez através do aval do Estado a um empréstimo bancário".

Embora se tenham incompatibilizado, ambos concordam e dizem-no em notas enviadas aos trabalhadores que o empréstimo de 30 milhões com o aval do Estado é essencial. A Groundforce tem dinheiro para pagar os salários dos trabalhadores até abril, depois é uma incógnita. Já houve uma falha de pagamento dos salários em fevereiro, a situação foi resolvida pela TAP - que comprou à Groundforce o equipamento da própria para o alugar posteriormente.

"Desde o início desta crise que era evidente para o conselho de administração da Groundforce que a quebra de receitas provocada pelas restrições à circulação na aviação iria afetar a tesouraria e os resultados da nossa empresa. Desde a primeira hora que recorremos aos instrumentos que o estado Português disponibilizou às empresas, particularmente solicitando ao ministro da tutela um aval de Estado para um financiamento essencial à manutenção da atividade da empresa", diz Casimiro na nota enviada às redações. E defende que o "financiamento é essencial".

Gestor quer comprar posição de Casimiro

Paulo Neto diz-se empenhado em encontrar uma solução para a Groundforce. "É um momento de garantir que estamos preparados para o futuro e para garantir a sustentabilidade da nossa empresa. Será por isso que continuarei a lutar todos os dias, como tenho feito até ao momento, agora noutro papel", afirma. Embora nada diga sobre o seu interesse em comprar a participação 50,1% de Casimiro, Paulo Neto Leite é um dos potenciais interessados na participação da Pasogal e até terá já formalizado a sua decisão junto da TAP e do Estado. Não avança sozinho, fá-lo com um fundo de pensões. Não é o único - na corrida estará também a belga Aviaptarners e a escosesa Menzis.

O nó será desatado pelo Montepio, que já avançou com o penhor sobre as ações da Pasogal. A 22 de março, o Montepio, o grande financiador da entrada de Alfredo Casimiro na Groundforce, deu início ao processo de execução do penhor das ações detidas pelo empresário na empresa de handling.