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Economia arrefece, mas desemprego não sobe

24 Dezembro 2020 14:08

lucilia monteiro

Crise. PIB deve voltar a cair, mas desemprego está a recuar. Muito por causa dos apoios públicos, que abrangem mais de 550 mil trabalhadores

24 Dezembro 2020 14:08

Parece um paradoxo. A atividade económica em Portugal interrompeu a recuperação, mas o desemprego está a recuar. A explicação está, em grande medida, nos apoios públicos ao emprego, dizem os economistas. Desemprego ainda pode subir, mas de forma contida, ficando muito aquém da última crise.

Depois da forte recuperação no verão, a economia portuguesa arrefeceu, fruto das novas medidas de confinamento no país e por toda a Europa. “A informação disponível para novembro revela uma interrupção da recuperação parcial da atividade económica observada desde maio”, destaca o Instituto Nacional de Estatística (INE), apontando que a retoma já tinha abrandado em setembro e outubro. O Banco de Portugal prevê mesmo que o Produto Interno Bruto (PIB) recue no quarto trimestre face aos três meses anteriores (-1,8%) e acentue a queda homóloga (-8%).
Mas os últimos dados indicam um recuo do desemprego. É o caso da taxa mensal apurada pelo INE, que depois do pico de 8,1% em agosto (ajustada de sazonalidade), desceu para 7,9% em setembro e 7,5% em outubro (estimativa provisória). Ao mesmo tempo, o número de desempregados inscritos nos centros de emprego atingiu um pico de 410.174 em setembro e, depois, recuou em outubro e em novembro, quando ficou nos 398.287, abaixo da fasquia das 400 mil pessoas pela primeira vez desde abril.

Números que “não surpreendem” José Maria Brandão de Brito, economista-chefe do millennium bcp, porque “há muita proteção do emprego”. Bruno Fernandes, economista do banco Santander, aponta no mesmo sentido: “O conjunto das medidas de apoio às empresas são uma almofada financeira que vai travando potenciais subidas do desemprego.”

O lay-off simplificado, a mãe de todas as medidas para travar a escalada do desemprego, abrangeu mais de 110 mil empresas e cerca de 900 mil trabalhadores, blindando do despedimento mais de 1,3 milhões. Este regime terminou para a generalidade das empresas em julho, mas em agosto arrancaram novas medidas de apoio ao emprego (incentivo à normalização da atividade e apoio à retoma progressiva), que somam, até à data, 69 mil pedidos de empresas, abrangendo 551 mil trabalhadores e tendo sido já pagos €386 milhões, indicam os dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS). Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, destaca que “50% das empresas portuguesas beneficiaram de pelo menos uma espécie de apoio público, segundo o Banco de Portugal, 80% no caso das empresas do sector de Alojamento e Restauração”.

“Temos mecanismos de apoio que protegem ativamente o emprego. Como resultado, as empresas mantêm-se e mantêm o emprego. Ao mesmo tempo, veem a luz ao fundo do túnel da pandemia, com o arranque da vacinação, o que ajuda a explicar porque é que o desemprego não está a subir”, afirma José Maria Brandão de Brito, destacando que “há um enquadramento de política económica radicalmente diferente da última crise”.

João Cerejeira, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, junta outra variável a esta equação: o desenho das medidas de apoio às empresas e à manutenção do emprego, que “impedem o despedimento, nalguns casos até seis meses”. O MTSSS destaca que “82% dos pedidos das empresas são relativos aos apoios que impedem despedimentos durante mais tempo (retoma progressiva e normalização na modalidade dois salários mínimos). O resultado é um “desfasamento maior entre a evolução da atividade económica e o comportamento do mercado de trabalho, que ajuda a explicar ainda não se notar o reflexo do abrandamento da economia no desemprego registado, que é o indicador do mercado de trabalho que responde mais de imediato”, frisa João Cerejeira.

Desemprego longe da troika

O desemprego ainda pode subir, mas ficando muito aquém dos valores atingidos na última crise (ver gráficos). “A taxa de desemprego deverá manter uma subida muito controlada”, diz Bruno Fernandes, apontando que pode chegar aos 8% no quarto trimestre, o que compara com 7,8% no terceiro trimestre. Também o BPI espera um agravamento no quarto trimestre.

Quanto a 2021, os apoios ao emprego vão manter-se. Para Paula Carvalho, à medida que “forem diminuindo e a obrigatoriedade de manter emprego cesse, antecipa-se que algumas empresas possam reduzir a sua força de trabalho”. Mas, a partir do segundo trimestre, “começa a entrar o efeito sazonal positivo” no turismo, construção e agricultura, aponta João Cerejeira, lembrando que o impacto “vai depender da evolução da pandemia”.

“Mesmo com as medidas de apoio, algumas empresas não vão conseguir sobreviver. Neste sentido, é altamente provável que o desemprego suba em 2021, podendo num cenário extremo superar os 10%”, afirma Bruno Fernandes. O Banco de Portugal também considera que o desemprego em Portugal pode chegar aos 10% em 2021 num cenário extremo, mas o cenário central da instituição é bem mais benigno, apontando para uma taxa de 8,8%, e com o mercado de trabalho já a recuperar na segunda metade do ano. José Maria Brandão de Brito termina com uma nota de otimismo: “Antecipo uma recuperação forte da economia e que o desemprego desça rapidamente em 2021.”