Economia

Acabar com os estímulos cedo de mais seria um erro, adverte a diretora-geral do FMI

14 outubro 2020 15:30

Kristalina Georgieva, a chefe do FMI, avisou que a economia mundial pode encolher entre 3% e 7%

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“Desligar da tomada cedo de mais seria correr o risco de se auto-infligir ferimentos graves”, disse Kristalina Georgieva no discurso oficial de abertura esta quarta-feira da assembleia anual do Fundo Monetário Internacional. Mas há que saber gerir a enorme dívida pública no médio prazo

14 outubro 2020 15:30

Retirar os apoios à economia deve ser feito de forma gradual quando a pandemia der mostras de estar controlada. O processo de descontinuação das políticas expansionistas de resposta à covid-19 deve ser gradualista. Já na terça-feira o Fundo Monetário Internacional (FMI) o havia avançado quando divulgou o World Economic Outlook e o Global Financial Stability Report, dois relatórios importantes de análise e recomendações. Agora, foi a vez de Kristalina Georgieva (na foto), a diretora-geral do FMI, reforçar esta recomendação no discurso de abertura esta quarta-feira da assembleia geral que está a decorrer, virtualmente, em Washington.

Para a economista búlgara que substituiu Christine Lagarde em outubro do ano passado à frente do Fundo, “desligar da tomada cedo de mais seria correr o risco de se auto-infligir ferimentos graves”. “Uma recuperação económica durável só é possível se em todo o lado se combater a pandemia. Avançar com medidas na área da saúde é imperativo. Tal como o apoio orçamental e por via da política monetária às famílias e às empresas”, refere a diretora-geral do Fundo. E acrescenta: “Estes salva-vidas – como, por exemplo, garantias de crédito e subsídios salariais – continuarão a ser críticos por algum tempo, para assegurar a estabilidade económica e financeira”.

Dívida mundial dispara para mais de 100% do PIB

Georgieva adiantou que a dimensão dos estragos provocados pela crise da covid-19 vai provocar uma recessão de 4,4% da economia mundial em 2020 – a maior desde a Grande Depressão do século passado – e perdas estimadas de 28 biliões de dólares (€24 biliões) na atividade económica ao longo dos próximos cinco anos. O que equivale quase a mais de 1/3 do PIB mundial do ano passado. Mas poderia ter sido pior sem a resposta anunciada pelos governos e pelos bancos centrais logo no primeiro semestre que somou 20% do Produto Interno Bruto (PIB) das economias desenvolvidas e quase 6% do PIB do resto do mundo.

No entanto, esse esforço orçamental e de política monetária saldou-se por um disparo da dívida pública mundial, refere Georgieva. O peso da dívida dos Estados no PIB mundial vai subir de 83% em 2019 para quase 100% já em 2020 e atingir um máximo histórico de 100,5% em 2023. A partir daí começará a descer. As economias desenvolvidas, no seu conjunto, ultrapassarão a fasquia dos 125% já no próximo ano. Grandes economias, como Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, entraram numa trajetória ascendente pelo menos até 2025. Ao contrário da zona euro, que depois de um pico de 101% em 2020, deverá ver aquele rácio descer para 94% em 2022. No caso de Portugal, recorde-se, o FMI prevê que a dívida chegue a um máximo histórico de 137,2% do PIB este ano e vá descendo até 116% daqui a cinco anos.

Em virtude da tendência global de sobreendividamento, o FMI considera que “é crítico lidar com este tema no médio prazo”, rematou a diretora-geral.

No caso das economias mais pobres, apesar de níveis de endividamento em geral mais baixos do que os das economias desenvolvidas, a debilidade estrutural vai exigir "já" (enfatiza a diretora-geral) mais acesso a subvenções a fundo perdido, mais crédito concedido em boas condições, e mesmo perdão de dívidas.