Economia

A Fibrenamics Green cria produtos do lixo industrial. E a Comissão Europeia sabe disso

13 outubro 2020 16:47

Revestimentos térmicos para tachos e panelas figuram na lista de produtos desenhados pela Fibrenamics Green a partir de detritos industriais

Uma plataforma que junta a Universidade do Minho a 100 empresas garantiu o acesso aos finalistas do prémio Regiostars. Solas de sapato produzidas com polímeros que ninguém quer, revestimentos térmicos feitos de detritos de têxteis, e fachadas que reaproveitam minerais figuram entre os projetos que já angariaram 2,5 milhões de investimento

13 outubro 2020 16:47

Nem todos os resíduos que saem da fábrica são lixo. Para os investigadores e empresas que participam na plataforma Fibrenamics Green pode ser a matéria-prima de um produto. Tudo depende se se trata de detritos de têxteis, plásticos, minerais ou madeira. Caixotes de lixo e bancos de jardim, solas de sapatos, revestimentos de fachadas, isolamentos térmicos ou candeeiros – todas estas propostas de novos produtos foram engendradas pelos 20 investigadores da Fibrenamics, que foi lançada a partir da Universidade do Minho. Entre 2016 e a atualidade, a plataforma de inovação lançou 25 projetos de desenvolvimento de novos produtos, serviu de rampa de lançamento para duas empresas e e captou mais de 2,5 milhões de euros de investimento. E é por tudo isso que foi selecionada para os 25 finalistas dos Prémios Regiostars 2020.

“Temos estado mais concentrados no Norte, mas a nomeação para os prémios Regiostars 2020 confirma que esta plataforma tem potencial para se expandir à escala europeia, como elemento de ligação entre unidades de investigação e indústria, e criar produtos com base em detritos industriais”, explica Raul Fangueiro, coordenador da plataforma Fibrenamics Green e professor da Universidade do Minho.

Raul Fangueiro, Coordenador da Fibrenamics e professor na Universidade do Minho, aponta ao reaproveitamento de metais como a próxima meta a alcançar

Raul Fangueiro, Coordenador da Fibrenamics e professor na Universidade do Minho, aponta ao reaproveitamento de metais como a próxima meta a alcançar

A expansão para lá da Região Norte já deu um primeiro passo: atualmente, a Fibrenamics Green está a aplicar os mesmos processos de recolha de resíduos industriais nos Açores. Tanto no arquipélago como na região minhota, o reaproveitamento de detritos incide em quatro materiais: madeiras, plásticos, fibras têxteis e minerais, em especial ardósias.

Mais de 100 empresas já participam neste projeto – e duas delas foram criadas com o propósito de comercializar produtos com materiais que outras indústrias não querem: a Slatetec, marca autónoma gerada a partir da Lousas de Valongo para explorar produtos criados a partir de detritos de ardósia, e a Givaware, que foi criada com o propósito genérico de desenvolver novos produtos ligados à denominada economia circular.

O reaproveitamento de detritos de madeiras abriu caminho ao desenho de bancos

O reaproveitamento de detritos de madeiras abriu caminho ao desenho de bancos

“Os produtos que são desenvolvidos pela nossa equipa podem ser licenciados em exclusividade quando há solicitação da empresa; ou então poderão ser licenciados pela Fibrenamics Green à medida das solicitações”, explica Raul Fangueiro.

Como do lixo se faz um produto

Fibras têxteis: com os detritos da indústria têxtil é possível desenvolver novos produtos que nem sempre serão os mais óbvios, tendo em conta a origem desses detritos. O processo de reaproveitamento pode passar por “desmontar” têxteis, através de processos como a agulhagem. Entre os produtos já desenvolvidos, figuram as placas de isolamento térmico e acústico, bem como revestimentos de pisos para habitações.

Resíduos de madeira: Com recurso a técnicas de moldação por compressão é possível combinar plástico com madeira em proporções similares para gerar um novo material. Neste caso, o plástico é usado como matéria ligante, enquanto a madeira funciona como “carga” ou “reforço”. Candeeiros, bancos de jardim e caixotes do lixo figuram na lista de produtos já idealizados.

O reaproveitamento de polímeros permitiu o desenvolvimento de novas solas de calçado

O reaproveitamento de polímeros permitiu o desenvolvimento de novas solas de calçado

Detritos de plástico: Recorre-se à moldação por compressão, que implica uma temperatura elevada para levar os detritos a assumirem novas formas e desenhos. Entre os produtos já desenvolvidos a partir deste processo figuram solas usadas em peças de calçado – que por sua vez também podem recorrer a fibras produzidas a partir de detritos têxteis para os componentes do calçado.

Detritos minerais: São usadas técnicas de reaproveitamento de minerais que podem recorrer a polímeros como elementos de ligação. Revestimentos de fachadas de edifícios figuram entre os produtos desenvolvidos. O reaproveitamento de detritos minerais abriu caminho à constituição da empresa SlateTec. Raul Fangueiro está convicto de que é uma área com bastante potencial: “Há muitas oportunidades na área da construção e da demolição, visto que os edifícios usam quase todo o tipo de materiais, sejam eles plásticos, madeiras, minerais ou metais. Também nos interessa começar a entrar na área da reconversão de metais, que é um material também muito usado na construção”