Economia

Mercados confiantes na liderança chinesa na recuperação da economia mundial

A política "zero covid" obriga a sucessivos e seletivos períodos de confinamento por toda a China

thomas peter

A rápida recuperação da economia aliada às sondagens mais favoráveis ao candidato presidencial norte-americano Joe Biden estimulam a moeda chinesa, que esta sexta-feira teve a maior subida intradiária contra o dólar em quatro anos. E o Banco central da China insiste na valorização da moeda

9 outubro 2020 17:58

Depois de uma semana de feriados em que não foi transacionada, a moeda chinesa valorizou esta sexta-feira 1,2%, cotando-se a 6,70 contra o dólar. O regresso ao trabalho de milhões de chineses e o retomar da atividade económica na maioria dos setores para níveis pré-pandemia, explicam em parte a valorização do yuan. A moeda chinesa começa a ter um curso semi-livre, pois continua a ser fortemente intervencionada pelo Banco Central da China de acordo com os interesses de Pequim.

O interesse na divisa chinesa prende-se ainda com as boas sondagens do candidato presidencial democrata, Joe Biden que permitem perspetivar um novo inquilino da Casa Branca mais favorável à China do que Donald Trump, que elegeu Pequim como o principal inimigo dos EUA.

A apreciação da moeda chinesa é uma situação mais conjuntural do que estrutural e tem sido um comportamento normal desde meados de maio, salientam os analistas. “É uma resposta dos mercados à adoção pela Reserva Federal norte-americana de uma política monetária fortemente expansionista, que fragiliza o dólar, para mitigar os efeitos da pandemia e responder ao impacto económico negativo do confinamento, bem como a agudização da covid-19 nos EUA e na Europa, com o aparecimento de segundas vagas”, afirma Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. Salienta ainda que nos últimos cinco meses todas as moedas valorizaram contra o dólar e particularmente a chinesa.

Valorização incentivada pelo banco central

Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros, lembra que o câmbio do yuan não é livremente fixado pelo mercado. “É fortemente intervencionado pelo Banco Central da China, que definiu uma nova banda de variação, permitindo uma valorização de 0.5% do yuan após uma semana de feriado”, salienta, acrescentando que o yuan atingiu o valor mais face ao dólar dos últimos 17 meses. “Portanto, a valorização do yuan não só foi tolerada, como incentivada pelo Banco Central”, acrescenta.

“Como pano de fundo, temos o yuan a valorizar de forma contínua desde o final de maio e a pretensão de longo prazo, por parte da China, de que a sua moeda possa ganhar importância e credibilidade a nível mundial”, acrescenta. O responsável lembra que o yuan está muito longe de ser uma alternativa viável ao dólar nesta fase, mas não há muitas dúvidas que um dos objetivos da China é limitar a dependência e importância do dólar. Um analista de um banco internacional refere a “grande desproporção” que existe entre a dimensão da economia chinesa e o peso de Pequim nas instituições internacionais.

Filipe Garcia salienta que este ano, o yuan está a valorizar 3,85% face ao dólar. “O que não é muito significativo, mas “encarece” ligeiramente as exportações chinesas. Mas deve notar-se que, para a Europa, a situação é diferente. Este ano o dólar está a desvalorizar 5,3% face ao euro, pelo que a moeda europeia está a valorizar face ao yuan”, adiantou.

Para o economista da IMF será muito interessante observar os progressos dos principais blocos económicos em direção às chamadas “moedas digitais”, dado que pode ser a oportunidade de o yuan ganhar outra importância a nível global como moeda utilizada nas trocas internacionais.

Confiança na liderança chinesa na recuperação global

A valorização da moeda chinesa reflecte também os diferentes ritmos de recuperação da economia dos vários blocos mundiais. “A China foi a economia que primeiro afundou e é a primeira a recuperar e de forma mais significativa. E as moedas também refletem as perspetivas de crescimento das economias”, afirma um gestor de fundos de um grande banco internacional. “Os mercados estão confiantes na liderança da China na recuperação da economia mundial”, acrescentou.

De realçar, que o mundo tem observado a resposta chinesa à pandemia como um exemplo a seguir pelos outros países, não existindo novos casos de infetados, e neste particular a economia chinesa tem beneficiado do regresso de muitos sectores aos níveis pré-covid19”, afirma Paulo Rosa. Para o economista sénior do Banco Carregosa a recuperação da China está a ser em “V” e a maior parte dos sectores de actividade já estão em níveis pré-covid19, como tecnologia a industria, exportações. Mesmo nas viagens, começa a haver recuperação nas deslocações internas – avião, comboio, ou barco – só nas de longo curso é que não há recuperação.

Isto, quando em outros blocos económicos se fala de uma retoma em “Nike” (alusão ao símbolo da marca desportiva em que a curva de crescimento é mais lenta) ou mesmo em “K” (em que sobem as empresas tecnológicas e os sectores ganhadores do confinamento e descem os mais penalizados como o turismo e os bens não essenciais ou supérfluos).

Por outro lado, a segunda maior economia mundial está também a mudar estruturalmente e está cada vez mais longe da classificação de mercado“emergente”, caracterizado sobretudo como um destino de fábricas internacionais orientadas para a exportação. “Se a valorização da divisa torna mais difíceis as exportações chinesas, a estrutura da economia está a transformar-se devido a um crescimento de um classe média ávida de importações, o que é uma boa notícia para os outros blocos económicos”, conclui gestor de fundos.