Concurso para os autocarros da Grande Lisboa com propostas até finais de julho
17.06.2020 às 17h30
Anunciado com pompa e circunstância em fevereiro, o concurso para a Concessão dos Transportes Rodoviários de Passageiros da Região de Lisboa vai retomar o seu curso normal dentro de dias. Os operadores estão impacientes, mas a Área Metropolitana de Lisboa (AML) diz que não há razão para mais adiamentos. Em jogo está um concurso avaliado em 1200 milhões de euros que colocará sob a marca única Carris os autocarros suburbanos que vão servir os 18 municípios da AML, onde vivem mais de 2,7 milhões de pessoas.
Tiago Miranda
O concurso de serviços rodoviários que vai pôr todos os autocarros a circular sob a marca Carris nos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) já no final de 2021 vai finalmente “avançar dentro de dias”, soube o Expresso junto da AML.
A entrega das propostas para este concurso, avaliado em 1200 milhões de euros, estava prevista para meados de maio, mas a pandemia e quase um milhar de pedidos de esclarecimento, fizeram deslizar prazo para o final do mês de julho. Os operadores privados de transporte rodoviário reafirmam o seu interesse e não vêm razões para adiar o concurso composto por quatro lotes, dois na margem norte e dois na margem sul do rio Tejo.
Salientam a importância de avançar rapidamente, a extrema exigência e complexidade do concurso, que representa um esforço de investimento entre 100 e 140 milhões de euros em frota nova, por cada lote
O concurso é inovador pois o Estado paga um preço por quilómetro aos operadores – 1200 milhões de euros ao longo de sete anos – mas recebe o dinheiro proveniente dos bilhetes e dos passes, que deverá rondar cerca de 70% daquele total. E, na melhor das hipóteses, um concorrente poderá ficar no máximo com dois lotes. A Carris não entra neste concurso e os serviços a contratar pela AML – onde vivem mais de 2,7 milhões de pessoas - são ligações suburbanas.
Mais de 960 pedidos de esclarecimento
“Recebemos mais de 960 pedidos de esclarecimento por parte dos operadores interessados no concurso. Estamos na fase final de dar seguimento aos pedidos e vamos responder aos concorrentes dentro de poucos dias” disse ao Expresso, Carlos Humberto de Carvalho, o primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa (AML), responsável pelo concurso.
Quanto ao prazo de 25 dias que correm após os esclarecimentos até à apresentação das propostas, Carlos Humberto reconheceu que tem que ser alargado por mais umas semanas. “Até ao fim do mês de julho serão entregues as propostas dos concorrentes”, salientou
Em relação um possível adiamento do concurso tal como está a ser equacionado na Área Metropolitana do Porto, Carlos Humberto de Carvalho, não vê “qualquer razão para que isso aconteça”, até porque não tem os mesmos moldes.
“A pandemia vai ter consequências na mobilidade que não sabemos ainda quais são, mas que não põe em causa ir para a frente com este concurso e ajudar a estabilizar o sistema de transportes com uma oferta reforçada”, afirma. Além de uma renovação da idade média da frota de autocarros, o concurso tem como objetivo um aumento de 40% da oferta de ligações face ao cenário anterior à pandemia. Reforço esse sobretudo centrado nas ligações noturnas e ao fim de semana.
É preciso captar investimento
José Pires da Fonseca, diretor geral do Grupo Arriva, que em portugal detém os Transportes Sul do Tejo (TST), salienta que Portugal está num mercado global. “Os decisores políticos têm que saber que Lisboa está nos objetivos das empresas internacionais tal como estão a Áustria, a República Checa, a Itália, a Holanda ou Suécia. Num momento em que há cerca de 50 concursos rodoviários a correr na Europa. É preciso ter os concursos prontos para captar investimento estrangeiro que pode ir parar a outras geografias”,afirma Pires da Fonseca.
O responsável lembra que qualquer um dos quatro lotes a concurso pressupõe cerca de 100 milhões de euros de investimento. “É uma injeção de cerca de 400 milhões de euros numa economia que precisa de estímulos para recuperar da pandemia. E o aumento de 40% da oferta de autocarros vai implicar entre 3 mil e 4 mil novos postos de trabalho “, acrescenta, recordando que existe uma fileira de empresas nacionais que se dedicam às carroçarias para autocarros.
“Mas isto pressupõe confiança. Adiar concursos cria desconforto aos responsáveis pela operação em Portugal. Temos que convencer o acionista e há outros possíveis destinos para investir”, salienta. O responsável pela empresa cujo o maior acionista é cujo é a Deutsh Bahn (caminhos de ferro alemães) reitera “o interesse e o empenho” em concorrer em Lisboa e no Porto.
A mesma tónica é referida por Rui Silva, administrador da Transdev Portugal. “Temos que cativar o nosso acionista a acreditar no mercado português, o que não se compadece com eventuais alterações, adiamentos ou mesmo cancelamento de concursos”, diz o responsável pela operação em Portugal do grupo francês.
“Embora a Área Metropolitana do Porto seja mais a nossa zona natural do que a AML, a Transdev Portugal está interessada no concurso de Lisboa”, afirma.
“Temos particular atenção à conjugação dos fatores, como o risco, o equilíbrio económico e a sustentabilidade”, acrescenta, salientando que “não há razão para se adiarem os concursos, até pelos imperativos ambientais como é a renovação da frota, o aumento da oferta para o utente. Só têm é que estar asseguradas as condições técnicas”.
Em relação a outras zonas do país, Rui Silva lembra que tem havido concursos que ficaram vazios, como Aveiro e Viseu. “Os concursos do Cávado, Guimarães e Covilhã estão a decorrer com base em estudos de procura que não reflectem nem a situação anormal e atipíca provocada pela pandemia nem o que será a mudança de paradigma”, alerta. “A realidade pós covid 19 vai ter que ser repensada e é o único pretexto que servirá para adiar, por pouco tempo, um qualquer concurso. Não é empurrá-lo para as calendas”, acrescenta.
Complexo e de grande exigência
Para o grupo Barraqueiro, um adiamento do concurso é uma não questão. “Preocupa-nos mais a extrema complexidade do concurso, o elevado nível de investimento necessário, entre outras questões”, afirma Luís Cabaço Martins, administrador do grupo. Uma complexidade que poderá não ser alheia ao volume de esclarecimentos pedidos pelos potenciais concorrentes. “Estamos a analisar o dossiê, sempre investimos em Portugal e temos a perspetiva de concorrer”, acrescenta.
O responsável lembra que o investimento na frota nova é da ordem dos 120 milhões de euros e que não existem especificações normalizadas. O preço de referência a pagar ao operador ronda os 2 euros/km.
No caso dos dispositivos para deficientes – rampas, piso rebaixado, entre outros – há muitos autocarros usados cuja transformação ou é impossível ou demasiado cara que torna impossível a sua utilização, o que poderá elevar os custos. Acresce a possibilidade, prevista mas não obrigatória, da frota e da bilhética reverterem ao fim de sete anos para o concedente.
Luís Cabaço Martins salienta que o concurso tem uma velocidade comercial baixa (a partir dos 14km/hora). Em termos gerais e numa frota deste tipo, o aumento da velocidade em 1km/hora poderá levar a uma poupança de 30 autocarros, uma vez que permite aos veículos fazer o trajeto de ida volta mais rápido. Outra questão que merece reparo em termos de rentabilidade é a previsão de que um autocarro tenha uma circulação média abaixo dos 50 mil km/ano, quando na Área Metropolitana de Madrid – de maior dimensão- o valor médio ronda os 80-90 mil km/ano.
“Feitas as contas, mesmo considerando preços próximos dos valores de referência, a nossa previsão aponta para uma exploração quase deficitária”, sintetiza Luís Cabaço Martins.
Além dos três grupos citados, operadores como a espanhola Alsa (do grupo britânico National Express), a Scotturb, empresa que opera nos concelhos de Sintra, Cascais e Oeiras do grupo brasileiro Imorey e a mexicana Avanza terão também manifestado interesse em responder ao concurso da AML.