Venda de casas em Portugal recuperou 23% desde o desconfinamento
16.06.2020 às 12h41
Luís Barra
Os preços não desceram, apesar da quebra de atividade desde o início do ano com a Covid-19, segundo dados da Confidencial Imobiliário e da APEMIP
Foi um respirar de alívio para as imobiliárias os resultados obtidos em maio, o primeiro mês do desconfinamento das atividades económicas com a pandemia da Covid-19, em que a venda de casas em Portugal já subiu 23% relativamente a a abril, segundo dados da Confidencial Imobiliário, responsável pela execução de estatísticas sobre o sector a nível nacional.
Esta "reanimação" na venda de casas em maio já ajudou a reduzir a quebra no acumulado do ano devido à paralisação forçada pelo surto do coronavírus, e que de momento se cifra em 41% na comparação com o mesmo período do ano passado (em abril era de 53%), segundo a Confidencial Imobiliário. Em maio, foram muitas as agências imobiliárias que recorreram a visitas virtuais e outras soluções digitais, de forma a adaptarem-se ao novo ambiente com a pandemia.
“O mercado exibe uma clara redução de atividade, mas isso não se reflete numa descida nos preços", enfatiza Ricardo Guimarães, diretor-geral da Confidencial Imobiliário, concluíndo que "o mercado está a resistir à estratégia de redução de preço em reação à quebra nas vendas, pois existe uma forte convicção de que os níveis de preços praticados no mercado têm uma forte probabilidade de virem a ser observados novamente após o fim da crise pandémica".
As pessoas mostram dar ainda mais valor às casas, após terem passado longos períodos de quarentena e ainda terem de viver em algum confinamento devido à situação do vírus, o que tem ajudado os preços de moradias ou apartamentos a manterem-se estáveis. Em maio, os preços de venda a nível nacional registaram uma subida de 0,9% relativamente a abril, segundo o Índice de Preços Residenciais da Confidencial Imobiliário, e "mantendo o registo de estabilidade desde início da pandemia".
Mas como frisa Ricardo Guimarães, "as variações mensais nestes últimos três meses desaceleram a trajetória de valorização sentida ao longo de 2019 e início de 2020, quando as subidas mensais oscilaram entre 1,5% e 2%". A Covid-19 fez mossa no sector refletindo-se na valorização das casas, não permitindo preços tão aquecidos como os que eram expectáveis antes de haver a crise pandémica.
Com o país em quarentena, a compra de casas manteve-se a metade do que era antes da Covid
"Como seria de esperar, em termos homólogos, o preço de venda das casas começa a apresentar uma clara desaceleração, fruto da estagnação dos últimos meses, apresentando uma variação de 14%, um número que fica quatro pontos percentuais abaixo do pico de 18% registado em janeiro", explica o diretor-geral da Confidencial Imobiliário.
Abril foi o mês em que a venda de casas mais se ressentiu com quebras face a janeiro, "considerado o mês de referência pré-Covid, embora seja notória uma redução na dinâmica de vendas desde fevereiro, em que as transações recuaram 6%, descida que se agravou para 17% em março, o primeiro período a integrar medidas de confinamento", detalha Ricardo Guimarães.
Em termos mensais, a retração na atividade em abril foi de 43%, muito maior que a que tinha sido verificada em março (de menos 12%), mas numa tendência que foi invertida com o salto de 23% registado em maio.
“No início do ano, o mercado exibia uma dinâmica de vendas estável que, sem surpresas, a pandemia veio inverter. A quebra na atividade sentiu-se logo em março, mas abril foi o mês mais gravoso, como seria expetável, com uma queda de 53%", lembra o responsável da Confidencial Imobiliário, frisando que "ainda assim, isso significa que, em pleno confinamento, o mercado conseguiu manter um nível de atividade de cerca de metade do pré-Covid, o que não deixa de ser assinalável".
Estes dados recentes sobre a venda de casas já incluem os primeiros resultados do Índice de Volume de Vendas de Habitação, uma nova métrica da Confidencial Imobiliário para "acompanhar o comportamento das vendas de habitação em Portugal continental". Com base numa série iniciada em setembro de 2019, "o novo Índice é apurado a partir das transações residenciais reportadas pelos mediadores imobiliários ao SIR-Sistema de Informação Residencial", conforme explica Ricardo Guimarães - para quem “o lançamento deste novo índice não podia ser mais oportuno, pois os seus primeiros resultados permitem já perceber o impacto da pandemia na dinâmica de transações e, quase em tempo real, acompanhar também os efeitos do desconfinamento”, considera.
"O mercado ainda está a meio-gás, mas sente-se otimismo", diz a APEMIP
Segundo apurou a Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), num inquérito realizado a cerca de quatro mil empresas de mediação imobiliária, 81,1% das empresas sofreram em maio uma quebra no volume de negócios em comparação com o mesmo período do ano anterior, mas para 83,9% os preços dos imóveis disponíveis para venda mantiveram-se sem recorrer a baixas.
“Não há nenhuma justificação para que haja uma quebra de preços, a não ser pela correção de valores que estavam especulados", defende Luís Lima, presidente da APEMIP, frisando que "se na última crise havia um excesso de oferta que motivava uma descida dos preços, desta vez verifica-se ausência de 'stock, sobretudo nos segmentos médio e médio baixo, onde continua a haver falta de casas que suprimam as necessidades da procura”.
Segundo o inquérito da APEMIP, 72,1% das imobiliárias reabriram logo na primeira fase de desconfinamento, iniciada a 4 de maio, "sem grandes dificuldades no cumprimento das novas regras de higiene e segurança. Mas apesar de terem reaberto, não estão a operar na totalidade.
“No terreno ainda se nota que o mercado está a funcionar a meio-gás. Apesar da grande maioria das mediadoras ter reaberto ao público, não tem a totalidade dos seus funcionários a laborar, até porque o volume de procura ainda não o justifica", sublinha o presidente da APEMIP. "Ainda está a haver uma adaptação à nova realidade. Mesmo assim, sente-se já algum otimismo e consciência para os desafios que o mercado trará”.
De acordo com o inquérito da associação de imobiliárias, 74% das empresas apresentaram perspetivas altas para os próximos três meses, "assentes sobretudo nos sinais positivos que são dados pelo exterior, face ao bom comportamento sanitário que o país tem revelado", conclui a APEMIP.