Economia

Há 52 dias que produzimos eletricidade sem carvão: é menos um milhão de toneladas de CO2 no ar

5 maio 2020 15:15

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

luís barra

Termoelétricas a carvão de Sines e do Pego estão paradas. Associação ambientalista Zero sublinha que este recorde é a prova de que o país pode prescindir daquelas centrais sem pôr em causa a segurança de abastecimento de eletricidade

5 maio 2020 15:15

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

É um recorde que a cada dia que passa vai reforçando a tese de que Portugal está pronto para descarbonizar o sector elétrico, bem antes de 2030. O país acumula 52 dias sem queimar carvão para produzir eletricidade e com isso, estima a associação ambientalista Zero, terá sido evitada a emissão de 960 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera.

"Naquilo que constitui um recorde, nos últimos 52 dias (desde 14 de março, inclusive) não se usou carvão em Portugal para produção de eletricidade. Nenhuma das duas centrais térmicas de Sines e Pego esteve a funcionar, sendo que a central de Sines já não produz energia elétrica desde há 100 dias (desde 26 de janeiro, inclusive). Tal conduziu a uma redução inédita e sem precedentes das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal", refere a Zero em comunicado.

Recorrendo aos dados das REN - Redes Energéticas Nacionais relativos aos meses de março e abril de 2020 e à comparação com o período homólogo de 2019, a Zero calcula um decréscimo de emissões de quase um milhão de toneladas de CO2 (370 mil toneladas em março e 590 mil toneladas em abril).

Nestes dois últimos meses verificou-se também um aumento de 14,5 pontos percentuais na incorporação de fontes renováveis na produção de eletricidade em comparação com o período homólogo de 2019, passando de 62,6% para 77,1%.

A Zero nota ainda a relevância da descida de 12% no consumo de eletricidade em abril, também revelada esta terça-feira pela REN.

A paragem das centrais a carvão em Portugal é explicada não apenas pela redução do consumo de eletricidade (associada, desde meados de março à pandemia da Covid-19), mas sobretudo pela conjugação de vários outros fatores, como o já referido aumento da disponibilidade de renováveis e também os ganhos de competitividade do gás natural.

Produzir eletricidade a carvão em Portugal deixou de ser rentável face a alternativas como as centrais de ciclo combinado alimentadas a gás natural (cujo preço baixou à boleia da queda do petróleo). A maior taxação do carvão (que deixou de beneficiar das isenções de ISP que tinha) e o custo das licenças de emissão também contribuem para o menor interesse das termoelétricas a carvão.

Recorde-se que a central a carvão do Pego (da Tejo Energia, empresa da Trustenergy e da Endesa) tem o encerramento previsto para 2021, no término do seu contrato de aquisição de energia (CAE). A central da EDP em Sines, por seu lado, tem o fecho apontado para 2023.

O planeamento do Governo em matéria de descarbonização chegou a prever o abandono do carvão até 2029, prazo que entretanto foi adiantado para 2023. Mas mesmo depois de 2030 o país deverá continuar a precisar de potência firme que possa ser ativada a qualquer momento para garantir a segurança do sistema, pelo que se prevê a continuidade de várias termoelétricas a gás, que também emitem CO2, mas em volumes menores que o carvão.

"As atuais paragens das centrais do Pego e de Sines mostram que é possível a sua retirada do sistema sem pôr em causa a segurança do abastecimento de eletricidade no país. A Zero considera porém que é fundamental realizar os dois investimentos propostos pela REN, nomeadamente na construção de linhas para a região Sul, os quais já se encontram previstos no Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de Transporte", refere ainda o comunicado da Zero.