Economia

É preciso investir com impacto

28 outubro 2019 15:00

Investimento de impacto é a solução quando as desigualdades e o clima abalam o capitalismo. As manifestações sucedem-se pelo mundo

tiago miranda

Projetos Expresso. Durão Barroso aponta solução para preservar o capitalismo, as economias abertas e as sociedades livres

28 outubro 2019 15:00

Se queremos defender a manutenção da economia aberta e de sociedades livres, então há que demonstrar que não é o capitalismo que põe em causa o planeta e que agrava as desigualdades”, defende o chairman da Goldman Sachs International.

O antigo primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia foi o orador principal da conferência promovida pela sociedade de advogados PLMJ “Impact Agenda: Next Steps for Business”. Fê-lo porque acredita que o chamado investimento de impacto é uma solução efetiva para travar os movimentos contra o capitalismo que estão a ser alimentados pelos desafios das alterações climáticas e das desigualdades sociais.

“Se queremos que o capitalismo se mantenha aceitável, temos de o mudar. Não se pode olhar só para o lucro. Nas decisões de investimento, deve ser considerado não apenas o risco e o retorno financeiro, mas também o impacto social e ambiental das nossas ações”, explicou.

A nova tendência do investimento de impacto procura retorno financeiro enquanto aposta em soluções inovadoras para problemas sociais e ambientais, cruzando-se com os propósitos mais elevados que se vão fixando a nível internacional, desde o Acordo de Paris, ao “Green Deal” da nova Comissão Europeia ou ao novo modelo global das Nações Unidas para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o meio ambiente e combater as alterações climáticas.

“As novas gerações são pós-materialistas. Vão além da segurança económica e financeira. Têm preocupações ambientais, procuram uma missão”, diz Durão Barroso. E o investimento de impacto procura responder a estas gerações, caso dos millennials, que terão acesso a cerca de metade da riqueza e já representam cerca de um terço da força de trabalho. Neste contexto, não admira que até grandes fundos de investimento de países produtores de petróleo estejam a rever os seus portefólios e a deixarem de apostar em combustíveis fósseis...

“A pressão dos consumidores vai levar muito mais longe esta mudança nos padrões de consumo e nos padrões de investimento. Estamos apenas no início do que é uma revolução”, diz Durão Barroso. Para o presidente da Goldman Sachs Internacional, a mudança deve ser feita o quanto antes — “deve-se atuar já, para travar as alterações climáticas — e envolver mais do que a Europa — “deve ser coordenado a nível global e envolver os maiores poluidores”.

Verde vende mais que o social
Entre a mais de uma dezena de peritos em investimento de impacto reunidos nesta conferência, Filipe Santos, antigo presidente do Portugal Inovação Social e atual diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics, foi um dos oradores que abordou esta revolução em curso.

“O que está a acontecer é extraordinário, porque é ir à essência do que deve ser o capitalismo”, diz Filipe Santos, assinalando como o mercado está a alocar recursos de forma mais eficiente para resolver problemas sociais e ambientais. Filipe Santos observa um real interesse pelo investimento de impacto desde 2017/2018, mas lamenta que o investimento social seja mais difícil de vender que o investimento verde. “É importante focar também no social e não deixar que o green domine completamente a agenda.” Até para evitar cenários mais catastróficos impulsionados pelas crescentes desigualdades sociais. Daí a urgência desta revolução: “Na área social, o populismo já está a aumentar. Não temos mais do que 10 a 15 anos para reequilibrar o capitalismo.”

“Estamos a assistir a um fenómeno darwiniano em que o capitalismo se quer salvar a si próprio e procura evoluir”, acrescenta André Figueiredo, sócio da PLMJ. “E o sector financeiro vai ser um catalisador de mudança para uma economia com outras preocupações.”

Ir à fonte dos problemas
Luís Jerónimo é diretor do Programa Gulbenkian Sustentabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian e administrador da Maze Impact, que trabalha com startups de impacto e investidores para escalar soluções eficazes na resolução de desafios sociais e ambientais.
Este defende que a tradicional filantropia tem de “ir mais longe”, da generosidade para a justiça. “Não deve apenas mitigar a desigualdade, mas ir às próprias causas da desigualdade.”

Neste contexto, as perguntas que importam para acelerar esta revolução são: que problemas queremos resolver? Que falhas de recurso existem? E que instrumentos de financiamento podemos desenvolver.

No caso português, o país é até pioneiro na utilização de fundos europeus para incentivar este ecossistema que junta investidores e organizações sociais. A existência do primeiro fundo de capital de risco para investimento de impacto em Portugal foi também destacada pelo CEO da Maze Impact. António Miguel considera que “a criação de impacto social e ambiental é uma das maiores oportunidades do nosso tempo” e que Portugal tem potencial para captar capital do exterior enquanto país na vanguarda deste investimento de impacto. Em vez de se lucrar à custa da manutenção dos problemas ambientais e sociais, para este perito, importa abraçar a nova economia de impacto que assenta em soluções lucrativas que resolvem problemas sociais.

Uma oportunidade

“Está em curso uma revolução no tipo de investimento que é aceitável na sociedade”
Durão Barroso
Chairman da Goldman Sachs International

“Os millennials estão a herdar aquilo que é a maior transferência de dinheiro de sempre e querem investir com propósito”
António Miguel
CEO da Maze Impact

“O mercado das green bonds passou de 10 a 250 mil milhões de euros em seis anos e poderá vir a representar 10% a 15% do mercado global da dívida”
João Gião
Membro do conselho de administração da CMVM

“Portugal pode ser um caso de referência, um pioneiro, na inovação social, porque já temos as peças do ecossistema montado”
Filipe Santos
Diretor da Católica Lisbon School of Business & Economics

Textos originalmente publicados no Expresso de 26 de outubro e 2019