Economia

Rendimento dos portugueses está a afastar-se da Europa desde 1995

10 outubro 2019 13:00

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

Fraco investimento em capital e queda abrupta da produtividade explicam divergência no PIB per capita com a média da União Europeia. Cálculos do Banco de Portugal mostram que, entre 1995 e 2018, Portugal afastou-se a um ritmo médio anual de 0,1 pontos e caiu cinco posições no ranking

10 outubro 2019 13:00

João Silvestre

João Silvestre

Editor de Economia

Tem sido frequente dizer-se que Portugal foi ultrapassado por vários dos ‘novos’ países da União Europeia nos últimos anos. O critério usado habitualmente é o PIB per capita, ou seja, o rendimento por habitante que, medido em percentagem da média europeia, está actualmente abaixo do que era em 1995. Nesse ano, recorde-se, o primeiro governo de António Guterres, com Sousa Franco nas Finanças, tinha como um dos grandes desígnios meter Portugal na moeda única que arrancou em 1999. Mas, na verdade, desde essa altura que os portugueses estão a marcar passo na convergência com a União Europeia.

Um estudo do Banco de Portugal (BdP) esta quinta-feira publicado como "tema em destaque" do Boletim Económico revela que, em termos de comparação com a União Europeia a 15 países, o PIB per capita nacional de 2018 era inferior ao registado em 1995 e que nestas mais de duas décadas Portugal tem estado sempre a divergir. Mais concretamente, depois de no período 1960-1995 ter havido uma clara convergência a rondar 1,4 pontos percentuais ao ano, no período 1995-2018 a situação inverteu-se claramente e o PIB per capita nacional tem vindo a perder terreno a um ritmo anual de 0,1 pontos anuais.

O que explica que, neste período, os portugueses tenham caído cinco posições no ranking ao serem batidos por seis países – Malta, República Checa, Eslovénia, Eslováquia, Letónia e Estónia – e apenas terem ultrapassado a Grécia que com a crise caiu dez posições na tabela. No ano passado, o rendimento médio por habitante dos gregos apenas ultrapassava o dos romenos, búlgaros e dos croatas.

Estes valores estão medidos a preços constantes, isto é, corrigem o efeito da inflação nos vários países. O BdP fez também cálculos com as séries em paridade de poderes de compra, que têm em conta a diferença do nível de preços nas diferentes economias, e as conclusões são semelhantes embora com níveis distintos. Os cálculos não incluem ainda as novas séries do PIB, com base em 2016, que o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou recentemente, mas essa revisão em alta não altera o facto de o PIB per capita de Portugal ter parado de convergir em 1995. E, claro, os restantes países também estão a proceder a revisões dos PIB que, no limite, podem até agravar a distância.

Capital escasso, produtividade a cair

Quando se decompõem as diversas parcelas da evolução do PIB per capita, na chamada contabilidade do crescimento, é fácil identificar onde está o calcanhar de Aquiles da grande divergência portuguesa: no capital e na produtividade. As contas do BdP mostram que, para a convergência do período 1960-1995, contou acima de tudo a evolução do stock de capital: a economia portuguesa acumulou capital a um ritmo superior ao da União Europeia em cerca de 1,4 pontos percentuais todos os anos. Isto, juntamente com o capital humano (que também cresceu umas décimas acima da média europeia) e do emprego (a contribuir igualmente algumas décimas), permitiu compensar o mau desempenho relativo da produtividade que, tendo crescido, fê-lo de forma mais lenta do que na União Europeia.

Já no período 1995-2018, a acumulação de capital ultrapassou apenas a média europeia em 0,2 pontos, um valor idêntico aos ganhos de capital humano. O que faz que, com que com um comportamento negativo – em termos relativos – no emprego e na produtividade, Portugal tenha estado a perder terreno ao longo de todo este período.

Como explica o BdP: “Duas características são transversais aos dois períodos analisados. Por um lado, a manutenção do contributo positivo do capital humano para o diferencial de crescimento face à União Europeia a 15, reflectindo a melhoria dos níveis de qualificação da força de trabalho em Portugal, apesar de permanecerem abaixo da média europeia. Por outro, o fraco desempenho relativo da produtividade total dos fatores (PTF) em Portugal, que está relacionado com as debilidades do enquadramento institucional e de funcionamento dos mercados”.

Sobre a produtividade total dos factores, que nas últimas duas décadas teve sistematicamente em queda, o BdP refere que o fraco desempenho “está relacionado com as debilidades do enquadramento institucional e de funcionamento dos mercados”, onde entram questões como o sistema de justiça, a dimensão das empresas, a qualidade da gestão empresarial, falta de concorrência, ou a segmentação do mercado de trabalho.

Em relação ao futuro, o Banco de Portugal deixa o alerta que “a recuperação do processo de convergência da economia portuguesa é um desafio complexo e que envolve múltiplas dimensões de política” e que isto terá de ser feito num contexto de desafios importantes como o envelhecimento da população ou a transformação tecnológica.