A web faz 30 anos. “Lutar pela internet é uma das causas mais importantes do nosso tempo”
12.03.2019 às 12h28
Peter Macdiarmid / Getty Images
O criador da internet, Tim Berners-Lee, recorda que governos, empresas e cidadãos são responsáveis por consertar a internet. E identifica as maiores disfunções do sistema que criou
“A internet tornou-se uma praça pública, um consultório, uma loja, uma escola, um estúdio de design, um escritório, um cinema, um banco e muito mais.” É assim que Tim Berners-Lee, o engenheiro que há 30 anos inventou a internet, descreve a evolução deste sistema de gestão de informação.
O engenheiro sublinha que a internet “criou oportunidades, ao dar uma voz a grupos marginalizados e tornar as nossas vidas mais fáceis”, mas tem consciência que estas oportunidades também foram dadas a “burlões”, “àqueles que espalham ódio” e que “tornou todo o tipo de crimes mais fáceis de cometer”.
Numa carta aberta enviada ao Expresso, Tim Berners-Lee considera que “lutar pela internet é uma das causas mais importantes do nosso tempo”. E identifica três tipos de disfunções na internet: intenções deliberadas e maliciosas, incentivos perversos e polarização do discurso online.
As “intenções deliberadas e maliciosas”, como ciberataques e pirataria, crimes e assédio online, são - nas sua perspetiva - “impossíveis de erradicar completamente”. Por outro lado, identifica também “incentivos perversos” de um sistema “onde o valor do utilizador é sacrificado” (como modelos de receitas assentes em publicidade que recompensam o clickbait e a propagação de desinformação), que obrigam a “um redesenho dos sistemas”.
Por fim, a internet é ainda povoada por aquilo que apelida de “consequências negativas de um desenho benevolente”, como o discurso online revoltado e polarizado, que exige “investigação para perceber os sistemas existentes e criar novos ou alterar os que existem”.
É por esta complexidade que Tim Berners-Lee recusa narrativas simplistas, afirmando que “não podemos culpar só um Governo, uma rede social ou o espírito humano”.
Governos, empresas e cidadãos
Foi por ter consciência dos desafios e falhas do sistema que criou - entre elas desigualdades no acesso a este, com mais de metade da população ainda offline - que Tim Berners-Lee decidiu lançar no ano passado, na abertura da cimeira de tecnologia e empreendedorismo Web Summit, em Lisboa, um plano para tornar internet livre, aberta e um direito básico para todos (‘A Contract for the Web’).
O plano - que passa pela criação de um acordo alargado entre governos, empresas e cidadãos em relação a normas, leis e parâmetros para consertar a internet - deverá ser publicado em maio, altura em que metade da população mundial estará online. À data do seu lançamento, este acordo já era apoiado por mais de 50 organizações, nas quais se incluíam o Governo francês, a Google e o Facebook, e personalidades como o democrata norte-americano Ro Khanna e o antigo primeiro-ministro britânico Gordon Brown.
“Os Governos devem traduzir as leis e regulação para a idade digital”, defende. “Devem garantir que os mercados continuam competitivos, inovadores e abertos. E têm a responsabilidade de proteger os direitos e liberdades das pessoas online. Precisamos de defensores da internet aberta no Governo - funcionários públicos e do Governo que ajam quando os interesses do sector privado ameaçam o bem público e que se ergam para proteger a internet aberta.”
As empresas “devem fazer mais para garantir que a procura de lucros de curto prazo não é feita em prejuízo dos direitos humanos, democracia, factos científicos ou segurança pública”, continua. “As plataformas e os produtos devem ser desenhados tendo em mente a privacidade, diversidade e inclusão.”
Já os cidadãos devem responsabilizar as empresas e governos pelos compromissos que assumem, acredita. E exemplifica: estes devem eleger políticos que defendam uma internet aberta e livre, incentivar o debate online saudável e consentir - apenas de forma consciente - a utilização dos seus dados.