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“Os salários são uma miséria”: sindicato responde aos patrões do calçado. E deixa elogios a quem paga €700 e €900

rui duarte silva

Falta de mão de obra no sector abre troca de palavras entre trabalhadores e empregadores

Lusa

O Sindicato Nacional dos Profissionais da Indústria e Comércio do Calçado, Malas e Afins (SNPICCMA) defendeu esta terça-feira que a falta de mão de obra no sector se deve aos salários "de miséria" com que a respetiva associação patronal tem pactuado.

Esta é a reação de Fernanda Moreira, coordenadora desta estrutura sindical, às declarações atribuídas pelo "Dinheiro Vivo" a Luís Onofre, que, enquanto presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos (APICCAPS), foi no domingo nomeado para a liderança da Confederação Europeia da Indústria do Calçado e disse que a falta de mão de obra "pode pôr em causa toda a indústria" em Portugal.

Em declarações à Lusa, Fernanda Moreira responsabiliza os próprios industriais: "Há falta de mão de obra e vai continuar a haver porque os salários são uma miséria e ninguém quer trabalhar no sector, que não valoriza os seus profissionais e paga a quem entra para aprender o mesmo que paga a um trabalhador de primeira".

Afirmando que "a culpa é da APICCAPS, que tem o dever de negociar salários que valorizem o trabalhador e não é isso que faz", a dirigente dá como exemplo "o próprio Luís Onofre, que também é patrão e nunca aparece nas reuniões com o sindicato, por não estar interessado em resolver a situação que tem" na sua fábrica".

Para Fernanda Moreira, a maioria das empresas do sector "aproveita-se do facto de a associação patronal pactuar com isto tudo" e mantém os seus recursos humanos a auferirem o salário mínimo nacional - remuneração cujo total líquido, "depois de retirados os descontos, a alimentação e os transportes, não permite ao trabalhador uma vida com dignidade".

A dirigente do SNPICCMA reconhece que há exceções e que, entre essas, as mais empenhadas em valorizar as suas equipas "até são as pequenas empresas, como uma que paga 700 euros às costureiras e 900 aos montadores - até porque, de outra forma, eles já se tinham ido embora". Acusa a APICCAPS, no entanto, de "permitir que se arrastem os maus salários e as más condições de trabalho, como fábricas muito frias no inverno, muito quentes no verão e sem espaço de refeitório para as pessoas almoçarem", o que "agrava cada vez mais o mau ambiente profissional" dentro das empresas.

Em referência a um dos principais 'slogans' da associação que representa os fabricantes do setor, Fernanda Moreira realça ainda: "É uma indústria tão 'sexy', tão 'sexy', que os patrões descem a tal nível o tratamento verbal que é melhor nem comentar essa parte do problema". A coordenadora do sindicato antecipa, por isso, que a falta de mão de obra no calçado "vai manter-se enquanto a APPICAPS não valorizar os trabalhadores" e não lhes permitir uma progressão na carreira que "motive pessoas novas a entrarem" para a indústria.

"Não venham com a desculpa de que as exportações baixaram [em valor em 2018], porque eu faço parte das mesas de negociações há 20 anos e a conversa é sempre a mesma - por muito que ganhem, os patrões nunca estão bem o suficiente para aumentar o salário de quem trabalha para eles", conclui.

Contactada pela Lusa, a APICCAPS ainda não comentou o assunto.