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Teixeira Duarte. Vida nova, a dois anos do centenário

João Carlos Santos

É preciso que Angola dê certo para a prosperidade voltar. Em quatro anos, a receita caiu €400 milhões

A dois anos de festejar o centenário, a Teixeira Duarte (TD) dá sinais de uma saúde financeira revigorada, depois de digerida a perda colossal no BCP (€590 milhões) e executado o essencial do acordo com a banca para reduzir a dívida que anunciara no dia 25 de abril de 2018. Na altura, o conglomerado familiar estava refém da troika bancária (Novo Banco, BCP e CGD) e comprometia-se a despachar participações e ativos para abater a dívida para “adequar os níveis de financiamento e autonomia financeira” à atividade operacional. O conglomerado carrega a pesada mochila angolana e sofre com a crise no país e a acentuada desvalorização do kwanza (85% em 2018). Na Venezuela, reforçou a exposição na pior altura (2018), mas os danos serão irrelevantes.

Os três bancos que suportam o grupo aceitaram reestruturar a dívida, adiando o vencimento e otimizando o custo dos empréstimos — em 2017 a taxa média foi de 3,3%. A operação aliviou os encargos financeiros que, face à redução dos resultados de exploração nos principais negócios, têm levado as contas ao vermelho (€4,6 milhões em 2017) e desanuviou o ambiente adverso em que o conglomerado se movia. O grosso dos empréstimos bancários não correntes (75%) vencem depois de 2022 e no papel comercial as duas emissões mais pesadas serão reembolsadas em 2027 (€95 milhões) e 2033 (€195 milhões). No plano operacional, as notícias são favoráveis — os lucros de €7,1 milhões até setembro terão engrossado até ao fim do ano.

O novo ciclo incluía um caderno de encargos que, no essencial, o conglomerado já cumpriu: a venda de ativos financeiros e imobiliários que teriam de gerar uma receita de €500 milhões. Esta semana, o grupo clarificou as operações firmadas neste domínio. Em resumo, as transações do Lagoas Park, Lusoponte (7,5%) e da gestora do hospital de Cascais cortaram a dívida em €458 milhões — uma redução homóloga de 39%. Foram-se alguns anéis, ficaram os dedos. Nos encaixes, o campeão foi a venda do Lagoas Park, no qual a TD está sediada — o valor pago pelo fundo Kildare (€375 milhões) foi todo para destruir passivo. O conglomerado fechou 2018 com uma dívida financeira de €719 milhões (€1,1 mil milhões no fim de 2017). Mas há um segundo lado neste movimento. O ativo reduziu-se em €420 milhões (menos €38 milhões do que o passivo), de onde resulta que o capital próprio pouco se mexeu — baixou €90 milhões para €400 milhões.

Entra agora em cena uma TD menos alavancada que deixa de estar sentada numa dívida colossal, reduzindo os riscos dos negócios.

Depressão angolana

O que falta ainda vender? Miudezas. A lista dos descartáveis inclui há largos anos a imobiliária dona do shopping Cidade do Porto e as participações na concessão da AEBT — Autoestrada do Baixo Tejo (9%), liderada pela Brisa, e na sociedade que explora o metro a sul do Tejo. Em Macau, conta com 15% da Companhia de Parques de Macau (CPM). O grupo conta com uma extensa carteira de terrenos na zona de Lisboa a que poderia recorrer se, em desespero, tivesse de realizar um encaixe maior.

A nova ordem financeira não conduziu à alienação de nenhuma unidade de negócio — todas apresentam uma exploração lucrativa e o ramo da energia já saíra do universo. Em 2018, à exceção da construção, todos os negócios registaram uma acentuada redução no desempenho operacional, por causa de Angola. A TD é o conglomerado português com maior exposição a Angola. Os negócios incluem, além da construção e imobiliário, o retalho alimentar, lojas especializadas, uma rede de farmácias, comércio automóvel e hotelaria. Até uma rede de oito pastelarias (Nilo) explora.

Em quatro anos (2014/18) a TD perdeu €400 milhões de receita em Angola. Todos os anos esteve em queda. O contributo deste mercado (2018) terá sido inferior a €300 milhões (redução de 30%) mas permanece destacado como principal fonte de receita (quota de 33%), seguido do Brasil. Mas já representou 48%. A escassez de divisas e a desvalorização do kwanza acentuam as adversidades — o negócio automóvel é o que mais sofre (-52%) “por dificuldades na importação de veículos e peças”.

O Equador é o mais recente mercado em que a TD opera. A estreia aconteceu com a adjudicação da construção de uma ponte rodoviária (€51 milhões) — detém 61% do consórcio vencedor. Nos Estados Unidos, escolheu Dallas para se estrear na promoção residencial com os empreendimentos Insignia e Infinity, no bairro de Turtle Creek. Mas só quando Angola der certo a TD voltará a prosperar.