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Berlim quer frente unida contra a China

FABRIZIO BENSCH

Chumbo de Bruxelas à fusão entre a Siemens e a Alstom aumenta pressão para regras comunitárias mais flexíveis

A Europa tem de ganhar capacidade para responder à crescente força industrial da China no contexto do comércio mundial e arranjar estratégias para fazer face ao facto de o velho continente estar cada vez mais ‘esmagado’ entre dois gigantes: EUA e China. Esta é uma bandeira da Alemanha, que propõe alterações às regras de concorrência europeias e a criação de um fundo que possa tomar posições em grupos de sectores considerados estratégicos.

Numa altura em que este tema cresce na Europa, soube-se esta semana que a Comissão Europeia chumbou a compra da francesa Alstom pela alemã Siemens. Aquilo que aparentemente podia ser visto como um revés face às ambições da maior economia europeia de um cerrar de fileiras, pode, pelo contrário, ser um argumento adicional para quem defende mudanças nas regras comunitárias para a defesa da concorrência no espaço europeu.

As duas empresas, com o respaldo dos governos dos respetivos países, defendiam os méritos da fusão, nomeadamente como forma de salvaguardar a força da ferrovia europeia face ao fabricante chinês de comboios CRRC. Bruxelas não se deixou comover e justificou a decisão de não deixar passar esta operação com a ausência de remédios suficientes para sanar as questões de concorrência identificadas pela equipa de Margrethe Vestager. Para a Comissão Europeia, esta operação daria lugar a um quase monopólio europeu, com consequências no aumento de preços, por exemplo.

Para a Alemanha, a que se espera que se junte a França, o caminho passa por garantir a manutenção dos chamados ‘centros de decisão’, unindo forças na construção de gigantes europeus. Exemplo disso é a ferrovia.
O ministro alemão da Economia e Energia, Peter Altmaier, veio já a público defender mexidas nas regras da concorrência europeias, reclamando a necessidade de Bruxelas ver além das fronteiras domésticas e permitir a criação de campeões europeus que possam fazer verdadeiramente frente aos gigantes não europeus, nomeadamente chineses, que passaram há muito as suas próprias fronteiras ganhando crescentemente peso a nível mundial.

Um fundo europeu para defender centros de decisão

Altmaier propõe a criação de um novo fundo — à escala europeia — que possa tomar participações em empresas relevantes em termos tecnológicos que impeça que as mesmas vão parar a mãos estrangeiras. Investimentos que provavelmente terão de ser subsidiados, mas que, apesar de configurarem ajudas de Estado, poderiam ter cabimento legal em nome do interesse comum.
Estes receios que crescem no seio da União Europeia a propósito da perda de centros de decisão importantes têm associados não apenas questões de soberania económica mas também política.

É preciso não esquecer que o contexto atual é marcado por uma Europa mais vulnerável, que não sabe, por exemplo, se e quando vai perder o Reino Unido, que tem de lidar com uma nova realidade diplomática — a América de Donald Trump —, que tem de saber gerir um gigante asiático como a China e que sente crescente desconfiança quanto ao que o Governo de Pequim fará com a dimensão comercial que vai ganhando a nível mundial, em sectores como as telecomunicações e a inteligência artificial.

Um exemplo disso mesmo é a polémica em torno da chinesa Huawei, cada vez mais ‘debaixo de olho’ a nível europeu, fruto das suspeitas de utilização da infraestrutura que possui para obtenção de informação para os serviços de segurança chineses.